segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma lenda de Exu

Exu ganha o poder sobre as encruzilhadas


Exu (o orixá, não o catiço), diferentemente dos outros orixás, era pobre, desprovido de bens, de "pontos de força", como os rios, o mar, as montanhas e nem mesmo uma missão específica ele possuía. Isso o fazia andar para lá e para cá, tal qual os andarilhos que conhecemos hoje em dia. Mas eis que um dia Exu resolveu visitar Oxalá e ao vê-lo ali, entretido, criando os homens e as mulheres e ficou fascinado com esse trabalho, passando a visitá-lo com uma freqüência maior que os outros orixás, que apareciam, ficavam umas poucas horas e iam embora. Ao contrário dos outros, Exu ficou na casa de Oxalá por 16 anos, prestando muita atenção e aprendendo como Oxalá fazia o seu trabalho. Ele não perguntava nem opinava, apenas observava.
Não querendo perder tempo em seu importante trabalho, Oxalá pediu a Exu que ficasse na encruzilhada por onde passavam aqueles que vinham visitá-lo e que só deixasse passar quem levasse uma oferenda a Ele (Oxalá), que trabalhava cada vez mais e não queria entreter-se com visitas. E assim agiu Exu, coletando as oferendas que os outros orixás deixavam para Oxalá, entregando-lhe posteriormente.
Exu fazia tão bem o seu trabalho que Oxalá decidiu recompensá-lo da seguinte forma: quem viesse até Oxalá, teria que entregar algo a Exu também. E quem estivesse voltando da casa de Oxalá, deveria agir da mesma forma.
Como bom guardião, Exu defendia a passagem, espantava os indesajáveis e assim tornou-se forte, rico e poderoso, ganhando o domínio sobre as encruzilhadas, que tornaram-se o seu "ponto de força". Hoje nada se faz sem antes agradar a Exu.

domingo, 16 de agosto de 2009

Fraco ou forte? - por Danilo Lopes Guedes




Muitos de nós, umbandistas, já ouvimos esse termo: “O terreiro é fraco”, mas como podemos categorizar os terreiros: forte e fraco?
Qual será o parâmetro que utilizamos para essa avaliação? Seria a não realização de sonhos ou desejos?
Antes de responder ao questionamento gostaria de seu acompanhamento nesta linha de raciocínio.
Por que vamos ao terreiro? Muitas podem ser as respostas, mas vamos pensar de forma simples, vamos ao terreiro pela religião, ou seja, religar a Deus.
Este é o mínimo, mas para muito a ida até o terreiro é para: amarrar, destruir, matar, separar, perturbar alguém, etc. Bom, nesse momento o sentimento mínimo já se perdeu pelos caminhos.
Infelizmente, algumas pessoas quando chegam ao terreiro continuam com suas idéias negativas e não param nem um segundo para analisar se estão certas ou erradas.
Então é chegada a hora da consulta, e essas pessoas, mesmo após as defumações, orações e pedidos do dirigente para que elevem seus pensamentos a Deus com harmonia e amor, continuam com a idéia fixa, como se não tivessem ouvido estas palavras.
O consulente com o pensamento negativado se dirige ao encontro da entidade que lhe dará o atendimento e começa com seus lamentos e reclamações, onde todos que lhe rodeiam não prestam e ele é um coitado.
A entidade tenta amolecer a mente e o coração desde consulente através de suas sábias palavras e com o auxílio dos seus elementos de trabalho, mas como o atendimento é uma parceria entre o consulente e o guia, ele não permite que essa luz penetre em seu interior, tornando-o uma pessoa “não tão ácida”.
Após as explicações e os pedidos do consulente, o guia lhe responde positivamente que vai ajudar.
Estão assustados com a resposta do guia? Por quê?
A ajuda que o guia vai dar, será pedindo para que Oxalá dê a esse irmão as luzes de: “Oxum, pondo amor no coração, Ogum para cortar a maldade que o cerca, Obaluaê para transmutar seus sentimentos negativos em positivos, Oxóssi para o conhecimento a fim de enxergar suas fraquezas interiores”.
Ao término do seu atendimento, esse irmão volta para casa confiante de que seus pedidos “destruidores” serão realizados, mas depois de alguns dias nada acontece e ele vai até outro terreiro, com as mesmas intenções.
Outro guia lhe atende e pergunta:
_Em que posso ajudar?
O consulente repete seus pedidos destruidores e ainda complementa que o terreiro onde tinha freqüentado era muito fraco.
Antes de iniciar o seu trabalho, o guia pergunta ao consulente se ele conseguiria explicar melhor o termo “muito fraco”. O consulente firmemente responde: não fui atendido.
O guia deixa alguns segundos de silêncio e retruca ao consulente:
_Será que é fraco aquele que pede por ti, para que tenhas mais amor, luz em tua mente, mas evolução e proteção? Será que é fraco aquele que tenta abrir teus olhos à luz? Será que é fraco aquele que tenta te colocar mais perto de Deus? Será que é fraco aquele que pede perdão por ti?
Ou o fraco é aquele que não conseguiu enxergar tudo isso e mesmo assim insiste em caminhar nas trevas de sua própria ignorância, na escuridão de seus caprichos?
Após esses questionamentos, o guia retorna a pergunta ao consulente:
_Em que posso ajudar?
O consulente responde ao guia com a voz embargada:
_Me dê força e peço perdão pelos meus sentimentos “fracos” que levei para dentro de outros terreiros.


Danilo Lopes Guedes é médium de Umbanda na Casa da Vovó e do Vovô.

domingo, 9 de agosto de 2009

Voz de Aruanda, a sua rádio de Umbanda - www.vozdearuanda.com



Nós, umbandistas, sempre fomos meio carentes (ou órfãos) de divulgação de nossa cultura e de nossos trabalhos. Quase sempre a imagem da Umbanda e dos umbandistas é estigmatizada pelos meios de comunicação de massa. Somos representados na mídia de forma vexatória e caricata, que quase nunca condiz com a realidade. A beleza e musicalidade de nossos rituais são deturpadas de maneira vergonhosa e raramente conseguimos espaço para responder a essas verdadeiras agressões que nos fazem.
Uma das maneiras de mudar esse quadro é assumir o orgulho de ser umbandista e divulgar nossa religião, nossa cultura e nossas tradições de maneira positiva. É isso que a rádio Voz de Aruanda vem fazendo, com grande sucesso em tão pouco tempo. Idealizada pelo Pai Marcelo de Oxalá e a designer Paula Ramanzini, a rádio é um projeto que ainda vai crescer mais, no entanto já mostra bons resultados, divulgando 24 horas por dia os mais belos pontos cantados da Umbanda, conforme a programação:

00:00 - 06:00 : Umbanda na Madrugada
06:00 - 09:00 : Raio da Manhã
09:00 - 12:00 : Tributo aos Orixás
12:00 - 15:00 : MPB na Umbanda
15:00 - 17:00 : Espírito Cigano
17:00 - 18:00 : Umbanda Hits
18:00 - 18:30 : Momentos de Reflexão
18:30 - 20:00 : Guias de Luz
20:00 - 22:00 : Yabás no Terreiro
22:00 - 00:00 : Guardiões da Encruza

Acesse www.vozdearuanda.com e prestigie esse belo trabalho. No link também estão disponíveis alguns artigos já publicados nesse blog.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Outro mundo é possível? - por Alexandre Cumino




As sociedades mais antigas nos ensinavam a ter um olhar de encanto para com o desconhecido. Todas as mitologias nos apresentam o Sagrado de duas formas: “mistério fascinante” e “mistério tremendo”.
Os deuses encantam e fascinam, pois sua manifestação está em toda parte, além de nosso controle, em toda a natureza. Eles habitam um outro mundo e deste mundo controlam nossas vidas, se ocupando de nossos destinos. Desta forma, as pessoas mais afortunadas, como reis e heróis passam a ser consideradas filhas dos deuses. Como Hércules, o filho de Zeus, ou ainda Akenaton, filho de Aton.
Na cultura nórdica Odin recebia pessoalmente os guerreiros desencarnados para um banquete em sua morada celestial. Com o fim das culturas mitológicas imperou o pensamento racional filosófico, onde o “outro mundo” é explicado por meio da Teologia e da Metafísica.
Porém, não nos esqueçamos que os pais da cultura ocidental são os filósofos gregos, que valorizavam o ser humano, e de certa forma, plantaram a semente do desencanto religioso, tão nítida nos dias atuais.
Sócrates, quatro séculos antes de Cristo, no leite de morte, explica a seus discípulos que a alma é imortal e reencarnante. Seu discípulo Platão dedicou parte de sua vida ensinando a existência de um mundo perfeito, o mundo das idéias, do qual este mundo é apenas uma cópia.
Santo Agostinho bebeu da obra platônica para descrever sua Cidade de Deus e fundamentar a idéia de um Céu Católico em oposição ao Inferno para onde iriam os não-católicos.
Allan Kardec também “criou” o seu céu e o seu inferno no mundo astral superior e inferior, onde todos vão se encontrar por afinidade, reciclando algumas das idéias de Platão e Sócrates.
Ainda hoje continuamos nos perguntando se há um outro mundo possível e como será este outro mundo.
O que é real e o que é ilusório nesta vida? Sócrates procurava a Verdade.
Cristo silenciou quando Pilatos lhe perguntou qual era a Verdade. Ao ser questionado sobre o fato de ser um Rei, afirmou que seu reino não era deste mundo.
Seria o outro mundo um outro lugar físico, ou este lugar mesmo com outros valores?
Quando as caravelas de Cabral aportaram na América, os índios pensaram que se tratavam de Deuses, pois apenas Deuses poderiam vir de outro mundo.
Eles estavam certos em uma coisa: eles realmente vinham de outro mundo, pois naquela época, um outro continente era outro mundo. Os índios não conheciam os conceitos de pecado da cultura judaico-cristã. Seria este mundo (a América) o paraíso perdido de Adão e Eva?
Alguns se perguntam se há “outros mundos”, outros quetionam se há vida em outros planetas, se há vida em outras dimensões ou realidades, e ainda outros, se há vida além da vida.
Quem sabe onde está um outro mundo? Outro mundo é possível? Onde?
Devemos construir um outro mundo?
Ou será que quando começarmos a nos esforçar, estaremos competindo uns com os outros, e logo estragando os planos de um mundo melhor? Afinal, o mundo das disputas não pode ser mesmo um mundo melhor...
Qual é a postura que o ser humano tem assumido para si e para os outros?
O que fazemos deste mundo está relacionado com nossa natureza ou com nossa cultura? Até onde somos um produto do meio em que vivemos? Até onde a sociedade determina nosso destino?
Como interpretar o livre arbítrio, quando somos tão fortemente influenciados e persuadidos a seguir um modelo? Até onde as religiões e filosofias nos despertam para um outro mundo?
Até onde a busca por um mundo pode ser uma alienação de nossa realidade? Até onde as religiões nos alienam?
A Umbanda é uma religião em formação, logo temos uma oportunidade única de trazer estes questionamentos para nosso dia a dia. Vamos aproveitar tudo o que há de bom como herança de todas as culturas. Mas, vamos jogar limpo com as pessoas, sem enganar, sem iludir, sem criar novos tabus. Sem promessas de céu ou inferno, sem assustar, fascinar ou criar dependências.
A Umbanda tem a oportunidade única de nos mostrar um caminho de liberdade e responsabilidade. Um outro mundo só é possível quando nos tornarmos outras pessoas e não importa onde estivermos, encarnados ou desencarnados, um outro mundo nunca será um lugar físico, um outro mundo só pode ser um outro estado de consciência. Durante a história da humanidade conhecemos pessoas que estando aqui neste mundo físico mostraram pertencer a outro mundo. Como Cristo, Krishna, Ramakrishna, Madre Tereza, Zélio de Moraes, Chico Xavier e São Francisco, entre outros.
Eles são a prova viva de que um outro mundo é possível!

sábado, 18 de julho de 2009

Candomblé e Umbanda são declarados patrimônios imateriais no RJ


O candomblé foi declarado patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro. A lei foi sancionada pelo governador em exercício Luiz Fernando de Souza Pezão e publicada ontem no Diário Oficial. O projeto foi proposto pelo deputado Gilberto Palmares (PT). O mesmo projeto para a umbanda já foi aprovado pela Alerj e aguarda sanção do governador.


A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa comemorou a notícia nesta sexta. Para Jorge Mattoso, secretário da comissão, a lei vai ajudar a diminuir o preconceito.


- Para a gente foi muito importante. Vai significar um resgate da auto-estima e elevar o respeito frente a atos de intolerância religiosa. Isso vai abrir portas, pois vamos poder fechar convênios com várias entidades.

Mattoso espera que a lei estadual ajude na aprovação de uma lei federal. A comissão fez um encaminhamento do pedido, durante a 2ª Conferência de Igualdade Racial, realizada em junho, em Brasília.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Os guardiões incompreendidos - Douglas Fersan



Provavelmente uma das manifestações divinas mais difíceis de se entender é a dualidade. O pensamento ocidental, maniqueísta, calcado em valores cristãos – devidamente distorcidos de acordo com interesses políticos e econômicos ao longo da História – estabeleceu um padrão de pensamento em que existem duas forças antagônicas: o bem e o mal, sempre em constante batalha pelo domínio do mundo e da alma de seus habitantes. Assim, tudo que não segue a estética e a moral ocidental-cristã é imediatamente associado à sua antítese: as forças maléficas regidas por seres do mal, chamado de demônios.
Esse tipo de pensamento traz em si um paradoxo, já que o próprio livro sagrado do Cristianismo afirma que Deus é onipresente. Estando em todas as partes, Deus estaria também nas regiões trevosas da espiritualidade – regiões que muitos tomaram por costume chamar de inferno.
Então Deus estaria no inferno? Parece uma heresia total fazer tal afirmação, mas sendo Ele um ser onipresente, deve (ou deveria) estar em todos os lugares.
A crença de um inferno de penas eternas e governado por um ser excepcionalmente maldoso também faz parte do imaginário cristão e, dentro desse raciocínio contraditório, não haveria lugar para Deus nessa região – mesmo sendo Ele onipresente (?).
Dentro da filosofia que norteia o pensamento umbandista, descartamos essa idéia de inferno. Admitimos a existência de regiões espirituais trevosas, densas, onde se encontram aqueles espíritos que não atingiram a elevação moral esperada, elevação essa que pode ser conquistada um dia, não necessariamente através de expiações, mas também do trabalho árduo na espiritualidade. No entanto, nessas regiões ainda reina uma espécie de barbárie espiritual, já que os valores morais de seus habitantes não são os mais elevados, necessitando assim de alguém que controle suas ações, não permitindo que outras esferas (como a dos encarnados, por exemplo) sejam alvos dos ataques e obsessão desses espíritos. É nesse contexto que começamos a entender o papel dos Exus, os guardiões tão incompreendidos e injustiçados, que atuam como agentes da Lei e da Ordem dentro desse princípio da dualidade divina. Entender Exu é entender o próprio funcionamento da Lei Maior.

Antes de qualquer coisa é preciso saber a diferença entre o Orixá Exu e o Exu catiço, da Umbanda. A palavra Exu, que significa “Esfera”, remete aos cultos africanos e ao Orixá de mesmo nome. Como bem sabemos, por diversos fatores históricos, houve no Brasil um processo chamado sincretismo, através do qual as divindades africanas foram associadas aos santos católicos. Assim, Iansã, por exemplo, que é a divindade dos raios e das tempestades, foi sincretizada com Santa Bárbara, já que essa santa também é associada aos raios e trovões. Ogum, o Orixá guerreiro, foi sincretizado com São Jorge, o patrono militar dos católicos, e assim por diante. No entanto, com o Orixá Exu houve, ainda dentro do sincretismo, um processo de demonização. Sendo Exu a divindade ligada à fertilidade, à sexulidade e à virilidade – inclusive carregando, em suas representações, um cetro em forma de falo – e tendo uma personalidade um tanto rebelde, como nos contam as itans (lendas africanas dos Orixás), não tardou para que fosse associado ao demônio bíblico/católico. Assim, desde o princípio, Exu foi temido, e provavelmente gostou disso, levando-se em conta seu caráter irreverente.
Apesar da confusão em torno da natureza de Exu, não podemos esquecer e nem desprezar sua importância dentro do panteão africano e de seu funcionamento, já que ele atua como “mensageiro” ou “intermediário” entre os homens e os Orixás.
Nos cultos de Umbanda também encontramos Exu, porém não na figura de um Orixá, e sim de um espírito catiço, um desencarnado, que viveu em Terra e procura, através do trabalho na espiritualidade, alcançar o progresso moral.
Também associado a figuras demoníacas, o Exu da Umbanda é um valoroso trabalhador, que indiferente a essas interpretações calcadas em visões preconceituosas, segue perseverante no cumprimento de sua tarefa.
O papel do Exu numa gira de Umbanda é de fundamental importância, realizando a segurança do terreiro – imaginem quantos kiumbas (espíritos trevosos e zombeteiros) atacariam uma tenda de Umbanda a fim de atrapalhar seus trabalhos, se não fosse a presença dos Exus, trancando a sua passagem. Em casos de descarregos, também são os Exus os principais agentes, pois cabe a eles a tarefa de encaminhar cada espírito, seja um pobre sofredor desorientado, ou um perigoso obsessor ao seu local de merecimento e/ou tratamento.
Exu também é o agente da justiça kármica, sendo sua tarefa levar a cada um o que lhe é de direito ou merecimento – por isso também a confusão em torno de seu caráter, já que ao coração humano é muito fácil aceitar o que é agradável, mas muito difícil entender que os revezes da vida muitas vezes são resultado de nossas próprias ações.
Ao contrário daquilo que falam sobre eles, os Exu são fiéis amigos, sempre dispostos a ajudar seus protegidos, mas também exigindo uma conduta deles, pois são extremamente rigorosos.
De uma forma bastante simplificada, podemos entender o Exu como uma mistura entre o carteiro e o gari, pois ele traz aquilo que deve ser entregue e varre aquilo que deve ser levado.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A Umbanda não é popular - Douglas Fersan



A palavra “popular” pode ter duas interpretações. A primeira delas refere-se a algo ligado a pessoas humildes, do povo e até – sem querer, em hipótese alguma, demonstrar algum tipo de preconceito social – a pessoas de pouca instrução formal. Outra interpretação que pode ser dada à palavra “popular” é aquela que se refere aos fenômenos de massa. Nesse caso, a Umbanda não é popular.
Longe de ser elitista, pois bem sabemos que não é o caso, a Umbanda não é popular no sentido de abranger e mobilizar grandes massas. Populares são as religiões neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus ou a Renascer em Cristo, por exemplo. Essas sim, são populares, atingem grandes públicos, mobilizam multidões e lotam estádios a um simples chamado de seus líderes (e que isso não seja entendido como uma crítica, ao contrário, é um fator positivo dessas religiões, deixando juízo de valores de lado).
A Umbanda mobiliza suas multidões em datas específicas, como as festividades a Iemanjá, como as ocorridas nos municípios de Praia Grande e Mongaguá, mas que na verdade trata-se da reunião de diversos micro-universos umbandistas, utilizando apenas a mesma data e local para seus cultos, na maior parte das vezes, diversificados. Nas demais datas, o que se vê são alguns terreiros lotados de pessoas em busca de curas ou soluções para seus problemas materiais – pessoas essas que em sua maior parte não retornarão após solucionadas suas questões – ou pequenos templos improvisados, onde irmãos-de-fé movidos a boa vontade arrastam alguns móveis a fim de abrir espaço para atender alguns poucos necessitados que os procuram – e que dificilmente também retornarão após a solução de seus problemas.
A Umbanda é popular no sentido de ter nascido e sobrevivido dentro das camadas mais humildes da população, mas está longe de ser um fenômeno de popularidade. Seria mais correto então, afirmar que a Umbanda, além de um caminho, uma religião e uma filosofia de vida, é também um movimento de resistência, pois mantém viva a tradição, a história e a luta de um povo miscigenado, que não se entregou e não abriu mão de suas raízes.
A Umbanda é perfeita. Tão perfeita que abriga em seu seio as mais variadas vertentes espiritualistas e os mais diversos segmentos sociais, pois na dor todos se igualam, e na busca da solução de seus problemas, orgulhos desmoronam como castelos de areia e doutores, mestres e PHD’s dobram-se à sabedoria e à simplicidade de um preto velho sentado em um banquinho.
A Umbanda não precisa ser popular. Ela precisa ser aprendida, vivenciada e assimilada por aqueles que a praticam. E precisa ser respeitada por aqueles que não a praticam e a desconhecem. Para isso, a Umbanda não precisa ser popular, ela precisa ser desmistificada e exemplificada pelos seus filhos, que tantas vezes agem como pródigos ou adolescentes rebeldes, esquecendo os ensinamentos daquela que os ampara.
A Umbanda é séria e por vezes severa, mas é mãe, e como tal, acolhe seus filhos, mesmo os mais rebeldes.
A Umbanda não é popular, mas é do povo.
É a Umbanda, e isso basta.


Douglas Fersan
Julho de 2009