sábado, 13 de fevereiro de 2010

O encanto dos Orixás - Por Leonardo Boff




Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuína brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas. Num contexto de desamparo social, com milhares de pessoas desenraizadas, vindas da selva e dos grotões do Brasil profundo, desempregadas, doentes pela insalubridade notória do Rio nos inícios do século XX, irrompeu uma fortíssima experiência espiritual.
O interiorano Zélio Moraes atesta a comunicação da Divindade sob a figura do Caboclo das Sete Encruzilhadas da tradição indígena e do Preto Velho da dos escravos. Essa revelação tem como destinatários primordiais os humildes e destituídos de todo apoio material e espiritual. Ela quer reforçar neles a percepção da profunda igualdade entre todos, homens e mulheres, se propõe potenciar a caridade e o amor fraterno, mitigar as injustiças, consolar os aflitos e reintegrar o ser humano na natureza sob a égide do Evangelho e da figura sagrada do Divino Mestre Jesus.
O nome Umbanda é carregado de significação. É composto de OM (o som originário do universo nas tradições orientais) e de BANDHA (movimento incessante da força divina). Sincretiza de forma criativa elementos das várias tradições religiosas de nosso país criando um sistema coerente. Privilegia as tradições do Candomblé da Bahia por serem as mais populares e próximas aos seres humanos em suas necessidades. Mas não as considera como entidades, apenas como forças ou espíritos puros que através dos Guias espirituais se acercam das pessoas para ajudá-las. Os Orixás, a Mata Virgem, o Rompe-Mato, o Sete Flechas, a Cachoeira, a Jurema e os Caboclos representam facetas arquetípicas da Divindade. Elas não multiplicam Deus num falso panteísmo mas concretizam, sob os mais diversos nomes, o único e mesmo Deus. Este se sacramentaliza nos elementos da natureza como nas montanhas, nas cachoeiras, nas matas, no mar, no fogo e nas tempestades. Ao confrontar-se com estas realidades, o fiel entra em comunhão com Deus.
A Umbanda é uma religião profundamente ecológica. Devolve ao ser humano o sentido da reverência face às energias cósmicas. Renuncia aos sacrifícios de animais para restringir-se somente às flores e à luz, realidades sutis e espirituais.
Há um diplomata brasileiro, Flávio Perri, que serviu em embaixadas importantes como Paris, Roma, Genebra e Nova York, que se deixou encantar pela religião da Umbanda. Com recursos das ciências comparadas das religiões e dos vários métodos hermenêuticos, elaborou perspicazes reflexões que levam exatamente este título: O Encanto dos Orixás, desvendando-nos a riqueza espiritual da Umbanda. Permeia seu trabalho com poemas próprios de fina percepção espiritual. Ele se inscreve no gênero dos poetas-pensadores e místicos como Alvaro Campos (Fernando Pessoa), Murilo Mendes, T.S. Elliot e o sufi Rumi. Mesmo sob o encanto, seu estilo é contido, sem qualquer exaltação, pois é esse rigor que a natureza do espiritual exige.
Além disso, ajuda a desmontar preconceitos que cercam a Umbanda, por causa de suas origens nos pobres da cultura popular, espontaneamente sincréticos. Que eles tenham produzido significativa espiritualidade e criado uma religião cujos meios de expressão são puros e singelos revela quão profunda e rica é a cultura desses humilhados e ofendidos, nossos irmãos e irmãs. Como se dizia nos primórdios do Cristianismo que, em sua origem, também era uma religião de escravos e de marginalizados, “os pobres são nossos mestres, os humildes, nossos doutores”.
Talvez algum leitor/a estranhe que um teólogo como eu diga tudo isso que escrevi. Apenas respondo: um teólogo que não consegue ver Deus para além dos limites de sua religião ou igreja não é um bom teólogo. É antes um erudito de doutrinas. Perde a ocasião de se encontrar com Deus que se comunica por outros caminhos e que fala por diferentes mensageiros, seus verdadeiros anjos. Deus desborda de nossas cabeças e dogmas.

* Teólogo, autor de Meditação da Luz, o caminho da simplicidade. Vozes 2009.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O que é a paz - por Jairo Pereira Junior



“A paz
Invadiu o meu coração
De repente se encheu
De Paz
Como se o vento de um tufão
Arrancasse meus pés do chão...”
(Gilberto Gil)

A música de Gilberto Gil descreve sobre as sensações provocadas pela paz, mas o que é ela realmente? Onde encontrá-la? Por que persegui-la?

Entendo que a paz não invade nosso coração e sim transborda dele. E tão e somente depois de transbordar é capaz de senti-lo totalmente cheio novamente. Digo isso, por que aquele que procura essa palavrinha de três letras em outros locais senão dentro de si mesmo está procurando no lugar errado.

Quantas vezes dizemos aos outros para que nos deixem em paz? Quantas vezes nos perguntamos por que não vivemos num mundo de paz? Por quantas vezes nos perguntamos se a paz realmente existe?

Esteja certo de que ela existe e que qualquer que seja sua crença ou religião ela não virá de fora para dentro. Ela justamente só é possível se vir de dentro para fora. Inundar seu coração a ponto de transbordar e só assim, você sentirá ele repleto.

A paz não fazer nada. A paz não ficar de penas para cima. A paz não é não ter nenhum tipo de aborrecimento. Ter paz é estar bem consigo e com os outros. Estar em paz é estar em equilíbrio consigo e com o mundo que o cerca. Ficar em paz é ficar em harmonia com a natureza e com as pessoas que convivemos todos os dias ou eventualmente.

A paz não é inerte. A paz é movimento. Sendo assim ela deve ser perseguida diariamente. Não espere que ela chegue até você. Vá buscá-la. Não se acomode esperando tudo passar para ter paz. Faça algo para que tudo passe e assim você irá de encontro a ela.


Esta mensagem não é por que estou em paz neste momento e sim por que neste momento estou perseguindo a minha paz.


Jairo Pereira Jr. - 2010
Professor de Economia e Matemática
36 anos, casado, 2 filhos e Umbandista

sábado, 6 de fevereiro de 2010

A niveladora Social - por Douglas Fersan



O orgulho é um dos maiores venenos para a alma e um grande obstáculo na estrada do crescimento moral e espiritual. Uma verdadeira armadilha pronta a laçar os incautos, quando permitem que seu ego lance sombra obscura sobre as lições éticas e morais que deveriam ser aprendidas por todo ser humano.
Viver em uma sociedade capitalista impõe vícios culturais que absorvemos sem perceber. O verbo “ter” adquire superdimenção sobre o verbo “ser”, pois o poder aquisitivo tornou-se fator primordial para que alguém conquiste o respeito a que todos deveria ser dispensado. As pessoas são julgadas pelo que têm, e não pelo que são. Viemos em uma sociedade extremamente materialista e amoral, na qual princípios básicos de convivência tantas vezes são ignorados em favor de postura orgulhosa e hipócrita, pois nem sempre aquela que sobe em um pedestal possui cacife para mantê-lo por muito tempo.
Estamos todos, porém, suscetíveis aos revezes da vida, pois a colheita implacável não nos dá opção: ela fatalmente chega sem perguntar se a desejamos ou não. Certa de que a plantamos, ela se impõe como algo que nos pertence.
É na tristeza que todos se igualam. É na doença, no infortúnio, na morte, no inesperado que nossos olhos morais finalmente se abrem para a dura realidade de que somos tão seres humanos quanto o vizinho ao lado. Em momentos de necessidade nos damos conta do quanto somos frágeis frente à vida – não que essa seja cruel, mas é justa como o oxé de Xangô.
Desesperados diante da dor, retornam à sua mísera condição humana e partem em busca de soluções. É quando, geralmente, batem à porta dos mais diversos templos religiosos.
Alguns desses templos atendem prontamente os infortunados, outros usam toda espécie de artifício para obter vantagens, pois sabem muito bem que pessoas fragilizadas são facilmente sugestionadas e induzidas à dependência psicológica de sacerdotes que não trabalham em benefício do seu semelhante, e sim de seus interesses escusos.
A Umbanda, nessas situações, funciona como uma grande niveladora social.
Desventurados de todos os tipos procuram os terreiros, onde são atendidos independente de sua condição social. Doutores, alfaiates, babás, engenheiros, professores, todos recebem o mesmo tratamento e todos, independente da conta bancária ou do diploma que ostentam embolorado em suas paredes, recebem o mesmo tratamento, porque para a Umbanda não importa o que as pessoas têm, e sim o que carregam no coração. A Umbanda fará por todos que baterem à sua porta, pois é a manifestação da caridade, e para ela não existem pobres ou ricos, doutores ou analfabetos. Doutores se curvam para ouvir os conselhos de um preto velho.
E ao final, quando os problemas estiverem resolvidos, muitos daqueles que antes estavam desesperados darão as costas aos terreiros e até evitarão falar que um dia pediram ajuda a um caboclo ou a um exu, mas em seu íntimo saberão que quando, novamente, seu calo apertar, as portas dos terreiros de Umbanda ainda estarão abertas a eles.

Douglas Fersan
Fevereiro de 2010.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Pense no Haiti, reze pelo Haiti



O início desse ano, 2010, foi marcado por uma violenta tragédia que voltou as atenções mundiais para uma república de negros, paupérrima e sem grande importância para a economia global. Só assim os olhos do mundo lembraram-se daquele pequeno país, que divide as fronteiras da ilha de São Domingos com a República Dominicana.
Sendo o primeiro país a libertar os negros da escravidão, em 1794, parecia que a história do Haiti seria uma sucessão de conquistas pela liberdade (o governo haitiano chegou a fornecer ajuda financeira e militar a Simon Bolívar, que em troca, se comprometeu a abolir a escravidão nas colônias que conseguisse libertar), mas não foi isso o que aconteceu. Mesmo após sua independência, em 1804, passou a sofrer retaliações (como o embargo econômico de 60 anos, imposto pelos Estados Unidos), que comprometeram seriamente sua economia e seu desenvolvimento.
A liberdade tão sonhada também parecia distante. Os governos haitianos não apresentavam qualquer compromisso com a democracia ou com os interesses do povo. O período mais cruel de ditaduras no Haiti ocorreu entre 1957 e 1988, quando o país foi governado pelo médico François Duvalier e, depois, pelo seu filho Jean-Claude Duvalier, conhecidos respectivamente como Papa Doc e Baby Doc.
Mais tarde, em 1990, num fato que parecia imprimir ares democráticos ao país, foi eleito para a presidência da república, Jean-Bertrand Aristide, um padre ligado à teologia da libertação. O sonho durou pouco: em 1991 Aristide foi deposto por um golpe de Estado.
O início do século XXI marca a história haitiana com uma nova tragédia: o terremoto ocorrido em janeiro desse ano, que deixou ao menos 150 mil mortos (números oficiais). Rapidamente o governo brasileiro, que já mantinha tropas de paz no país, manifestou sua solidariedade. A comunidade internacional também não demorou a se manifestar.
Mas um fato em especial se destaca em meio a esse acontecimento trágico: adeptos de alguns segmentos religiosos parecem se valer dessa tragédia para manifestar sua intolerância, proferindo absurdos sem tamanho. Sem qualquer pudor, dizem que o Haiti foi vítima desse terremoto porque Deus se voltou contra seu povo, que em grande parte é adepto da religião conhecida como vodu. Esses oportunistas de plantão, ao invés de honrar o título de cristão que ostentam, preferem vomitar sua ignorância covarde sobre um povo sofrido, cujo “mal” foi apenas manter vivas suas tradições.
Estamos todos sujeitos a tragédias naturais. Placas tectônicas movem-se independente da religão pratica pelo povo.
As tragédias humanas, quase sempre provocadas pela intolerância e pela ignorância, causam estragos maiores, pois não se limitam a uma tarde de terremotos, perduram por décadas e às vezes até séculos, causando muito mais mortes que as catástrofes naturais. Basta conferir o número de mortos causados pelas Cruzadas, pela inquisição católica, pela inquisição protestante, pela prática covardade da escravidão, pelo holocausto... São tragédias impulsionadas por homens desprovidos de qualquer senso humanitário. Homens que certamente apontariam hoje para o povo do Haiti, afirmando categoricamente que seu sofrimento é causado pelo culto que praticam aos seus ancestrais africanos. Homens que certamente usariam a força para impedir que cultos diversos do seu fossem praticados. Homens que certamente reativariam uma inquisição, caso lhes fosse permitido.
É óbvio que qualquer generalização é igualmente ignorante, mas também é fato que outros alguns parecem se deliciar com a oportunidade de mistificar um acidente geológico para criticar a crença alheia.
Enquanto a Terra existir, terremotos acontecerão. Eles não são o maior mal do planeta. O maior mal é a ignorância, pois ela é cruel, impiedosa, contamina as mentes incautas e promove o caos social.
Antes que sejamos vítimas desse caos, é bom que pensemos no Brasil, que rezemos pelo Brasil, pois o Haiti ainda não aqui...

Douglas Fersan
Janeiro de 2010

domingo, 27 de dezembro de 2009

Uma noite muito estranha - Mensagem para 2010.




Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu.
Contada aqui de uma forma romanceada, mas que trás em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas.
Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pêlos do corpo.
Realmente o Sol tinha se escondido nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.
Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das "guerras", saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu–se ao mar.
Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram–se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.
Yemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe "coruja" quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração.
Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo!
Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo?
Ralhou Yemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.
Desculpe, minha Mãe, ando meio ocupado.
Respondeu um triste Ogum.
Mas, o que aconteceu, meu filho?
Sinto que estás triste.
É, vim até aqui para "desabafar" com você "mãezinha".
Estou cansado!
Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome.
Estou cansado com o que eles fazem com a "Espada da Lei", que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda.
Estou muito mais cansado das "supostas" demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles...
Estou cansado...
Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto.
Ele chorava.
Chorava uma dor que carregava há tempos.
Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.
Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava.
E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum.
Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé.
Não!
Ogum ama toda humanidade, ama a Vida.
Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas.
As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra.
Não via nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos.
Não viam em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.
Não!
Infelizmente ele era entendido como o "Orixá da Guerra".
Um homem impiedoso que se utiliza de sua espada para resolver qualquer situação.
E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram "quebras e cortes" de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um.
E mais, normalmente, tudo isso se torna uma guerra de vaidade, um show "pirotécnico" de forças ocultas.
Muita "espada", muito "tridente", muitas "armas", pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.
Isso magoava Ogum.
Como magoava:
Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade?
A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum.
Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá-la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando-a em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição...
Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida.
E totalmente nu ficou frente à Yemanjá.
Cravou sua espada no solo.
Não queria mais lutar, não daquele jeito.
Estava cansado...
Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Omulu apareceu.
E por incrível que pareça o mesmo aconteceu.
Ele não agüentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra ela.
Magoava–se por sua alfanje da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser tão temida e mal compreendida pelos homens.
Ele também deixou sua alfanje aos pés de Yemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite.
Logo se via o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que se irradia de todo seu ser.
A luz que cura, a luz que pacifica, aquela que recolhe todas as almas que se perderam na senda do Criador.
Infelizmente os filhos de fé esquecem-se disso...
Mas o mais incrível estava por acontecer.
Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite.
E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Yemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.
Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas.
Faziam isso por si próprios.
Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor.
Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância.
Um a um, todos foram se despindo e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.
Yemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer.
Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente.
Era Exu.
O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de PombaGira, sua companheira eterna de jornada. Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente se apresentam.
Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas.
Tinham na face, a expressão do cansaço.
Mas, mesmo assim, gargalhavam muito.
Eles nunca perdiam o senso de humor!
E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Yemanjá.
Despiram–se de tudo.
Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Inúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles.
Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando–o a figura do Diabo:
—Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável!
—Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir.
Essa era a natureza desse querido Orixá.
Yemanjá estava desesperada!
Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto.
Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:
Espere! Pensou Yemanjá!
Oxalá! Oxalá não está aqui!
Ele com certeza saberá como resolver essa situação.
E logo Yemanjá colocou-se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás.
Oxalá apresentou-se na frente de todos.
Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo.
Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum.
Também despiu-se de sua roupa sagrada, pra igualar-se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:
Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos!
Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas.
Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra.
Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem.
Esses que muito além de "apenas" prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas.
Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras "bases de luz" na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se.
Esses que realmente nos compreendem e buscam-nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe.
Esses incríveis filhos de Umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos.
Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil e pelo mundo, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir...
Quando Oxalá se calou os Orixás estavam mudados.
Todos eles tinham suas esperanças recuperadas.
Realmente viram que se poucos os compreendiam.
Grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros iriam se juntar nesse ideal.
E aquilo os alegrou tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis.
E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram-se em amor e compaixão pela humanidade.
Em Aruanda, os Caboclos, Pretos Velhos e Crianças, fizeram o mesmo.
Largaram tudo, também se despiram e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.
Na Terra, Baianos, Marinheiros, Boiadeiros, Ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam.
Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos.
Uma alegria e bem–aventurança incríveis invadiram seus corações.
Largaram as armas.
Apenas sorriam e abraçavam-se.
O alto os abençoava...
Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos.
E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto.
Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz.
Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pomba-Giras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás
Com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.
Miríades de espíritos foram retirados do baixo–astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador.
E na matéria toda a humanidade foi abençoada.
Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta:
"Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente".
Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou–se benção na vida de todos.
Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.
Nós, filhos de Umbanda, pensemos bem!
Não transformemos a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como "armas" para acertarmos nossas contas terrenas.
Muito menos esqueçamos do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles.
Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão.
Lembremo-nos sempre disso.
E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem–se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.
Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não têm olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.
Lembrem–se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança.

Esse texto é dedicado a todos que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás!
Honrem a Eles.
Sejam Luz, assim como Eles!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Resenha do 1º Seminário da Integração do Povo de Santo para os Direitos Humanos



Foi um primeiro encontro. E como tal, envolvia o ambiente em uma aura de tensão e nervosismo, principalmente os organizadores, marinheiros de primeira viagem na difícil empreitada de reunir pessoas aptas e dispostas a debater questões ligadas aos Direitos Humanos dentro das religiões de matriz afro-brasileira.

Os convidados foram escolhidos criteriosamente: não precisávamos de estrelas, e sim de pessoas sérias a comprometidas com a luta pelo respeito que tanto almejamos. Assim, convidamos o Pai Alexandre Cumino, do Colégio de Umbanda Sagrada Pena Branca, autor dos livros “Deus, Deuses e Divindades” e “Deus, Deuses, Divindades e Anjos”, e editor do JUS – Jornal de Umbanda Sagrada – o periódico de temática umbandista de maior circulação no país. Convidamos também o Pai Adriano Camargo, do Templo Escola Ventos de Aruanda, em São Bernardo do Campo. Conhecido como “o erveiro”, Pai Adriano Camargo é uma referência na Umbanda quando o assunto são as ervas para fins rituais e espirituais. Também nos brindou com a sua presença a Iyá Ekedji Ogunlade, uma importante e conhecida militante dos direitos das religiões afro-brasileiras e na luta constra a intolerância religiosa e étnica.

Outros nomes de destaque que compareceram: Pai Claudinei de Ogum, do Templo Pai Thomé de Aruanda, Babalorixá Pai Celso de Oxalá, Ogan Juvenal (representando o Supremo Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo - SOUESP).

Os trabalhos iniciaram por volta das 19 horas, com a apresentação do power point “Os filhos da resistência” (que em breve será disponibilizado nesse blog). Em seguida os participantes foram convidados a falar.

Temas relevantes foram abordados (conforme será publicado em ata oficial), sempre lembrando a importância de unir forças entre as diversas vertentes da Umbanda e do Candomblé, formando uma só voz na luta pelo respeito ao Povo do Santo.

Também foi ressaltada a importância do orgulho umbandista/candomblecista. Assumir a própria religião é um primeiro passo rumo ao reconhecimento e o respeito pela mesma.

Em sua fala, Pai Alexandre Cumino lembrou que a Constituição brasileira já garante os direitos aos mais diversos cultos, com leis que os amparam e protegem. O que falta – e, portanto, deve ser objeto de nossa luta – é o cumprimento dessas leis.

Pai Claudinei de Ogum, em sua intervenção, falou que a Umbanda nada tem a conquistar, e sim a reconquistar "algo" que vem se perdendo ao longo das décadas. Deve-se então incluir na pauta, a luta pela reconquista do respeito à nossa crença e tradições.

A nossa amiga e irmã Iyá Ekedji Ogunlade discursou sobre sua militância incansável na luta pelos direitos das religiões afro-brasileiras e contra a discriminação religiosa e racial. Falou sobre as dificuldades que enfrenta para fazer garantir a representatividade dos nossos segmentos religiosos nos eventos e fóruns dos quais participa e, mesmo sendo do Candomblé, por vezes se vê obrigada a representar a Umbanda (o que disse fazer com muito prazer, mas ainda assim sente a necessidade da presença dos irmãos umbandistas). Por essas razões, pediu maior união entre o Povo do Santo, esquecendo suas diferenças internas para buscar o bem comum.

Vale citar o momento em que os jovens umbandistas do templo do também jovem Pai Rafael se manifestaram, declarando seu amor pela Umbanda e a disposição de lutar pelo respeito à sua crença. Esse foi, talvez, um dos momentos de maior emoção do evento.

O convite ao seminário foi enviado a aproximadamente 35.000 pessoas através da WEB. No entanto poucos atenderam ao chamado (em torno de 30 pessoas apenas), o que nos dá a certeza de que temos que nos mobilizar ainda mais e de forma mais organizada a fim de sensibilizar nossos irmãos para regar essa pequena semente que foi plantada em 23/1/2009, para que ela germine, floresça e de frutos, com as bênçãos de
Zambi, de todos os orixás e, principalmente, do nosso divino Pai Oxalá.


Organizadores:
Douglas Fersan
Jordam Godinho

Apoio:
Vereador Ítalo Cardoso
Deputado Rui Falcão
João Galvino

Colaboradores:
Maria do Carmo Godinho
R. Meirelles
Silvio Garcia
Pai Claudinei de Ogum

Secretária:
Denise Fersan

Convidados:
Pai Alexandre Cumino
Pai Adriano Camargo
Ogan Juvenal (SOUESP)
Pai Celso de Oxalá
Ekedji Iyá Ogunlade

Agradecimentos a todos os participantes, que enfrentaram o trânsito caótico de São Paulo em uma tarde chuvosa para declarar o seu amor aos Orixás.


Registro fotográfico do evento:


Foto coletiva antes do início do Seminário



Os organizadores do Seminário, Douglas Fersan e Jordam Godinho com a Ekedji Iyá Ogunlade - Presença marcante no evento.



Pai Alexandre Cumino (ao microfone) e Pai Adriano Camargo (à esquerda): dois nomes importantes que nos brindaram com sua inteligência, humildade e amor verdadeiro pela Umbanda.



Pai Alexandre Cumino, Babalorixá Celso de Oxalá, Jordam Godinho e Douglas Fersan no encerramento dos trabalhos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

É momento de lutar




Talvez o comodismo seja o pior sintoma da letargia, a falta de ação, a contemplação muda, improdutiva e ineficaz diante dos fatos.
Quando nada se faz, nada se consegue. Dar os primeiros passos em direção àquilo que se almeja é não somente lutar para atingir os objetivos, mas é, principalmente, dar exemplo àqueles que estão nesse estado de inércia, mostrando a eles que a transformação, ainda que lenta, é possível.
Acreditando na possibilidade de iniciar um movimento pela dignidade do Povo de Santo, fazendo valer seus direitos e, mais ainda, levando a ele a compreensão de seu papel social, enquanto agente cultural, religioso e cidadão, é que realizaremos na próxima segunda-feira, dia 23 de novembro de 2009, a partir das 18 horas, no São Tiradentes, no oitavo andar da Câmara Municipal de São Paulo, o Primeiro Seminário de Integração do Povo de Santo para os Direitos Humanos, onde temas relevantes à nossa crença serão debatidos.
Não se trata de um movimento política, e sim de uma ação pelo reconhecimento dos direitos do Povo de Santo (Umbanda, Candomblé e afins) perante a sociedade. Assim, levaremos os seguintes assuntos à pauta de discussões:

• Os direitos das religiões afro-descendentes e a tolerância religiosa;
• os direitos e deveres jurídicos das casas de Umbanda e Candomblé;
• isenção de impostos para templos religiosos (questão que varia de acordo com as legislações municipais);
• regularização das casas de Umbanda, a fim de ter seus direitos garantidos;
• espaços públicos para realização de rituais;
• criação de centros de referência e memória das religiões afro-descendentes.

Nomes já confirmados:
Alexandre Cumino: sacerdote de Umbanda, autor do livro “Deus, Deuses e Divindades”, diretor responsável pelo Jornal de Umbanda Sagrada, o maior periódico de temática umbandista e mestre do Curso de Teologia de Umbanda.

Vereador Ítalo Cardoso: presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo.

Deputado Rui Falcão: jornalista atuante na Folha de São Paulo, advogado, conhecido pelas suas lutas pelos direitos humanos e pela democracia.

A confirmar:
Dr. Hédio Silva Jr: Mestre e doutor em direito pela PUC, cnsultor da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, Consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, importante nome nas lutas contra a intolerância racial e religiosa.

Esse pequeno e modesto movimento, comparado a um “passo de formiguinha”, será o pontapé inicial para o debate em outras regiões e municípios, ampliando o debate sobre os direitos do Povo de Santo. Contamos com a sua presença

Organizadores:
Jordam Godinho
Douglas Fersan
João Galvino

Colaboradores:
R. Meirelles
Silvio Garcia
Jairo Pereira Jr