sábado, 17 de março de 2012

Impressões de Iniciante - por Antonio Bispo



Sentados nas fileiras da consulência, olhamos para dentro do Congá e maravilhados nos médiuns a “divindade” São como mensageiros, anjos, seres especiais, com uma grande missão, amparar e ajudar.

Só de estar próximo a estes seres humanos diferenciados sentimos a grande aura do espírito que se comunica, e um feixe da essência de Deus. Médiuns de Umbanda estando sob a posse das entidades, perante quem os olha, são médicos de Deus, com poder de abrandar nossas dores físicas e curar os males da alma. São advogados celestes, com missão de fazer a justiça de que necessitamos. São senhores da magia, capazes de transformar pó em ouro, escriturários em doutores, auxiliares em chefes, indiferença em amor, ignorância em saber.

É ISTO MESMO?

Para quem está sentado nas fileiras da consulência, é! Pois não diferenciam o encarnado do espírito.

Depois de entrar para a corrente mediúnica é que passei a ver os médiuns de Umbanda como pessoas comuns, com profissões comuns, com vida comum e pensamentos comuns na maioria.

Em alguns casos me decepciono, pois alguns guardam mágoas, são ciumentos, fofoqueiros, maledicentes, orgulhosos, vaidosos e indiferentes.

Como entender isso? Os médiuns, sendo pessoas tão especiais, que acoplam em seus corpos seres divinos, como entender que os conselhos, a sabedoria, a determinação e a coragem de seus guias não transformem seus mentais, não toquem seus corações?

Refletindo sobre isso, um desses enviados divinos nos sopra nos ouvidos: “Procure conhecimento e reflita sobre ele e encontrará a sabedoria. Saiba o que é merecimento, liberdade de escolha, dívidas, carmas e justiça divina. Lembre-se que é preciso sabedoria para entender a ignorância humana. É preciso compreensão do que é AMAR O PRÓXIMO. É preciso ser humilde para aceitar as diferenças e mesmo assim olhar o mundo como quem se olha no espelho.”

Conforme vamos seguindo neste caminho começamos a entender algumas máximas umbandistas:

“Umbanda é a escola da vida” (Caboclo Mirim)

“Acolher a todos e a nenhum virar as costas, aprender com quem sabe mais e ensinar a quem sabe menos” (Caboclo das Sete Encruzilhadas)

Dentro do terreiro é um bom lugar para aprender e exercitar a tolerância, aceitar as diferenças, propagar o perdão, respeitar os diferentes níveis de cada um, seja social, cultural, moral ou evolutivo. É o lugar certo para aprender que a justiça divina não se contesta, se aceita, pois desconhecemos os direitos e deveres de cada um perante Deus.

E a justiça não é aquilo que nos favorece ou conforta, justiça é algo de Deus para com todos.

O caminho espiritual pode ser algo solitário, mas todos os umbandistas estão no caminho e em algum momento nessa caminhada (em diferentes épocas ou estágios) todos deverão ser tocados pela Senhora da Luz Velada, conforme seu merecimento, pela mão justa do Divino e o amparo dos guias espirituais.

Respeito às diferenças e a aceitação destas, além da resignada lição de todos os dias, são os ensinamentos que a escola da vida nos dá.

Texto publicado no JUS (Jornal de Umbanda Sagrada).
Contatos com o autor: Antonio.bishop@terra.com.br

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A revolução umbandista - por Alexandre Cumino



Umbanda sempre foi e sempre será: paz, amor e caridade. Seu fundamento básico nunca muda: “Umbanda é a manifestação do espírito para a prática da caridade”.

Creio que nunca será demais repetir essas palavras, que são do primeiro umbandista, Zélio de Moraes, incorporado do Caboclo das Sete Encruzilhadas, em 1908. Essa é a nossa base fundamental, nosso alicerce, nossa unidade, que se completa com essa frase: “com quem sabe mais vamos aprender, a quem sabe menos vamos ensinar e a ninguém virar as costas”.

Zélio de Moraes e o Caboclo das Sete Encruzilhadas anunciaram a nova religião de uma forma muito simples. Seus fundamentos maiores dizem respeito à essência da caridade espiritual e ao ato de incorporar entidades que se agrupam nas linhas de trabalho (caboclo, preto-velho...) e dentro de uma liturgia, um ritual, que acontece dentro de um templo (tenda, centro, terreiro...).

Sem dogmas ou tabus, a Umbanda se manifesta diversa, mantendo sua unidade essencial, que é em si seus fundamentos básicos.

Dentro desse contexto, há espaço para que essa religião acompanhe a evolução dos tempos sem choques entre a doutrina e a modernidade, por exemplo. A sociedade evolui como um todo e a Umbanda tem condições de evoluir junto, reciclar-se e renascer a cada período. Estamos atualmente num desses períodos de mudança, na sociedade e na Umbanda.

Uma revolução pacífica e silenciosa está acontecendo na religião. Podemos observar aos poucos uma mudança de perfil e comportamento dentro da Umbanda.

Cada vez menos temos ouvido a frase: “Eu não sei nada, meu guia é quem sabe tudo”.

A ideia de que um médium não deveria estudar, para não atrapalhar o trabalho de seu guia, está cada vez mais caindo por terra e fora da realidade. Quem atrapalha, interfere ou mistifica, faz com ou sem informação, pois é um sinal de desenvolvimento às pressas ou falta de ética ou bom senso. Não estudar sempre será sinal de ignorância.

As tradicionais respostas: “você ainda não está pronto para este conhecimento” ou “ainda não é hora de você aprender tal fundamento”, para todos os questionamentos dos médiuns, já não encontram muito espaço na Umbanda.

Sonegar informação, manipular pessoas com tirania, coerção, usando um poder que não lhe pertence de fato, ou abusar de um “segredo” como instrumento de um poder efêmero já não cabe na Umbanda e não funciona com essa geração, ligada na internet e no Google.

Essa nova geração cresceu lendo livros de Umbanda, consultando a internet e perguntando o porquê de cada fundamento. Cada vez mais os sacerdotes de Umbanda devem se preparar para escolher bem e estar à altura dessa nova geração, afinal essa é a geração que vai reconstruir a Umbanda no futuro, e só nos cabe optar por aceitar e participar, ou nos colocar no ostracismo de “múmias” de um tempo perdido, no qual tudo era dogma, segredo ou tabu.

De tempos em tempos a Umbanda se recicla.

Do seu início acanhado de 1908 a 1920,seguiu uma multiplicação primeira de 1930 a 1940, houve uma grande expansão de 1940 a 1970 e o grande esvaziamento da religião entre 1980 e 1990.

Agora a Umbanda vive um período único de amadurecimento e expansão lenta em passos firmes. Estamos aos poucos vencendo o preconceito e mostrando à sociedade o que é Umbanda. Cada um de nós umbandistas é um formador de opinião, não podemos nos omitir e temos a responsabilidade de nos preparar cada vez mais para esclarecer aos que nos cercam e a nós mesmos.

Hoje temos bons cursos, livros e jornais, como este, Jornal de Umbanda Sagrada, que tem distribuição gratuita há mais de dez anos, divulgando os princípios e fundamentos da religião de Umbanda. Só não se informa quem não quer.

Continua valendo o velho adágio: “quem não vem pelo amor, vem pela dor”. Mas agora, nas palavras do irmão Adriano Camargo, temos a terceira via, a do conhecimento. Muitos chegam à Umbanda por meio do conhecimento, com sede de saber, e encontram em seu seio informação para o corpo, mente, espírito e coração.

O jovem umbandista, o adolescente, já chega dentro e inserido nessa realidade, nessa “revolução umbandista”.

Graças a Deus e aos Orixás, alguns visionários como Pai Ronaldo Linares e Rubens Saraceni ouviram o chamado do astral e prepararam muitos médiuns e sacerdotes para dar o amparo intelectual, de conhecimento e cultura como berço da Umbanda que queremos... para muito além da Umbanda que temos, pois tudo evolui sempre.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Umbanda e seu significado - por Ana Araújo



Você já parou para pensar o porquê de estar na Umbanda e não no evangelismo, catolicismo, espiritismo, budismo?

Para entender melhor isso, dentro do que nossa casa ensina, você precisa ir buscar um entender nas próprias identidades das entidades de Umbanda; Caboclos, negros Africanos, Crianças, Sertanejos, Ciganos, espíritos como Exus que trazem muito da magia ocidental européia, etc.

Existe um porque de cada entidade se identificar de uma forma, dentro de uma generalidade sempre sócio-cultural e/ou racial. E as respostas não estão em roupagem fluídica e disfarces espirituais de vestes X que o espírito usa quando quer, trocando conforme deseja para passar “mensagens” morais e filosóficas com elas. Mas por que?

Muitos espíritas alegam que seja pelo fato da entidade/espírito ser atrasado e preso ainda as vestes de sua encarnação passada. Mas pergunto: por um acaso, um espírito que se manifesta numa sessão espírita para aconselhamento dos adeptos e diz ser Padre João Antunes, também não está usando uma identidade encarnatória? Ou este espírito nunca teve outras existências e somente foi um padre, um homem chamado João Antunes? Claro que não. Ele pode ter sido um médico alemão, um soldado da primeira guerra mundial, um sapateiro judeu, um comerciante árabe, um aborígene australiano, etc. Mas porque se manifesta como João Antunes? Porque possivelmente está foi sua última encarnação ou possível a mais adequada a usar para cumprir seu trabalho junto ao nosso plano carnal. Poderíamos dizer que ele é atrasado porque é apegado a tal encarnação? Não.

Da mesma forma se processa com as entidades sejam de Umbanda, Jurema, encantaria, etc. Porém há grandes e viscerais diferenças que aí sim, separa uma doutrina de outra, fazendo com que sejam de naturezas completamente distintas; a questão da manifestação de grupos de espíritos sob um nome coletivo e uma relação ancestral com cada adepto e fluxo energético invocado e manipulado nessas religiões, pois todas elas, tem duplo caráter: natural (dos elementos da natureza) e espiritual (dos espíritos, incluindo os dos próprios adeptos).

Ao contrário do que muitos podem pensar, as entidades que se manifestam como caboclos, pretos velhos, boiadeiros, ciganos, etc. não são ignorantes e sabem perfeitamente de sua condição, de seu caráter espiritual e se reconhecem como espíritos possuídos de “muitas outras existências”. Já passaram do período de “perturbação pós- morten” e apresentam-se assim, por sua vontade de estar sob uma identidade de uma encarnação que, onde está ligada a seus descendentes familiares comuns aqui encarnados e estão ao seu auxílio e orientação.

Dentro desse panorama podemos entender que a Umbanda é um culto aos antepassados de múltiplas naturezas: a individual; onde a relação é entre adepto e suas entidades que se manifestam através de sua mediunidade, estabelecendo grupos familiares distintos, dentre outros adeptos e suas entidades também. Cada um pode trazer referências antepassadas diferentes e daí talvez possamos vislumbrar porque muitos Pretos velhos trazem em seus nomes, referências a locais africanos como: Congo, Guiné, Cambida, Mina, etc.

Mas assim como temos um caráter individual, temos também um caráter coletivo – espíritos ancestrais que trazem a sabedoria e ciência natural medicinal para a natureza do corpo que reveste nosso espírito. Como também uma reverência ao “espírito alma” de toda consciência antepassada que através da interatividade entre vários povos e inteligências, foram construindo o que hoje é o nosso lar, nosso mundo e toda a tecnologia, ferramentas e condições de melhoria de vida do homem na terra, contribuindo enormemente com o progresso de toda a humanidade. E nós, como almas velhas e também antepassadas de nossa terra, não estamos alheios a tudo isso. Fazemos parte dessa construção e quando cantamos, louvamos e referenciamos aos antepassados africanos, aos índios, mestiços, estamos também relembrando o que fomos, o que também somos nós, em outros estados de consciências e sabedoria secular. A Umbanda por si só, tem todo um caráter de culto e louvor, de integração com a natureza do meio ambiente, da natureza de nosso ser, em ressonância com nossa família ancestral.

O dia a dia de um Terreiro de Umbanda é FAMILIAR.

Todo o cotidiano de uma casa de Umbanda, assim como de Candomblé, é de cunho irretocavelmente FAMILIAR. A casa é mantida por todos e tudo é partilhado, dividido. Cada um sabe o seu papel e função dentro do grupo. Há sempre um “pai” ou mãe” daquela família que cuida dos filhos, sabe observar o que cada um tem de melhor e valorizar isso. Assim como sabe de suas limitações e tenta conduzi-lo para a superação e aprimoramento, respeitando os limites da natureza íntima de cada um. O objetivo primordial de uma família Umbandista, é estabelecer muito bem claro que ali há uma FAMÍLIA , em toda a concepção que essa palavra representa. E essa família tem duas naturezas; carnal e espiritual. A espiritual ajuda a unir os parentes encarnados e os guiam para o melhor ao nosso próprio caminhar encarnatório, para o grupo e para a humanidade, quando o grupo familiar está preparado para isso.

E o atendimento prestado aos necessitados que batem a porta da Umbanda tem grande valor. Primeiro que é o grande aprendizado para o médium, e todos os adeptos da casa. E segundo; não vamos esquecer que semelhante atrai semelhante. Podemos cruzar pelos terreiros, e suas giras de atendimentos por muitos irmãos de outrora, que atraímos para nós ou fomos atraídos, para ajudar a seguir adiante, pois como velhos conhecidos, sabemos mesmo que no inconsciente de suas necessidades.

Muitas pessoas vagam como almas moribundas e desorientadas, aqui e ali. Buscam soluções milagrosas aos seus problemas do dia a dia, querem ser ouvidas, compreendidas, afagadas. E muitos outros querem fazer da Umbanda e dos espíritos que ali trabalham como prestadores de serviços. E as causas são 90 por cento das mais egoístas e materialistas. Essas pessoas não despertaram para a importância espiritual e estão iludidas com o senso comum de séculos de preconceito contra as religiões de matrizes afro-brasileira, as tratando quem sabe, como os velhos senhorios que usavam as negras escravas para satisfazer suas vontades apenas e as deixavam como um objetivo de uso e descartável. Quando precisarem de novo, saberão onde buscar. Assim se comportam muitos e muitos que batem a porta dos terreiros. E lhes pergunto: você acha coerente: anos de dedicação, amor, abnegação ou limitações de várias coisas para se dedicar de corpo e alma a uma religião cujo único objetivo é curar a dor de barriga e vontades mesquinhas, vaidosas ou egoístas do maior percentual das pessoas que procuram os terreiros? Será que é pra isso que as entidades “baixam”? Para falar sobre futilidades; se fulano passará na prova, se cicrano está no curso certo, se deve casar, se o marido está traindo, se o bebê é menina, se o namorado voltará, como prender o amado, e pasmem; nesse tempo de mediunidade, até pedido para ajudar a ganhar na mega sena já presenciei. Nós estamos no terreiro para isso? Nossas entidades estariam? Elas atendem as pessoas conforme suas necessidades e não conforme elas querem. Por muitas vezes, tais diálogos do cotidiano servem como “pano de fundo” e através dele, vem tantas palavras e ensinamentos subliminares, mas que muitos ainda não tem capacidade de absorver, tão envolvido no imediatismo de sua própria vida materialista. Mas será que toda a dinâmica de interação entre médium, entidade, terreiro é algo muito mais profundo que isso, e a relação que para muitos é o objetivo primordial da Umbanda, que é a relação entidade-visitante é, na verdade, uma conseqüência de um processo muito mais íntimo entre adeptos e os mentores espirituais?

Entendam: muitos passarão pela Casa da Vovó Catarina, pela casa do Caboclo Sucuri, pelos Terreiros de Umbanda a fora, e muitos pegarão ou não algum ensinamento se tiver abertura para isso. E não irão voltar mais. Por que? Por duas pequenas razões: ali não é sua família espiritual, ou se é, ele ainda não está preparado para ver, enxergar e abraçar seus velhos irmãos, pais, avós, tios. Muitas e muitas voltas a vida pode dar, para anos ou décadas mais tarde, se estar quem sabe, pronto para estar no meio de sua família novamente. Ou então, sua família não está na nossa raiz, mas no budismo, no taoísmo, no catolicismo, evangelismo. Todas as religiões são raízes que nos conduzem aos troncos de registros mentais, que umas, mais que outras, estão em comunhão com o nosso atual estado mental-espiritual. E por isso, todas são maravilhosas. E quando você encontra sua família, como a sua vida se enche de alegria, de paz e contentamento. Eu encontrei a minha e isso preencheu e modificou minha vida e meu ser de forma sublime, e sei que ainda o modificará, pois muitas maravilhas ainda será despertada no seio de meus familiares ancestrais. Aqui é minha casa, é onde está minha alma, minha paz, minha alegria, minha força e entusiasmo de vida. E quando você encontrar sua casa, sua família, seus irmãos, pais, mães, avós, terá orgulho de dizer o que é, a qual família pertence, e o nome que ela tem. Da mesma forma que temos orgulho de dizer que somos filhos carnais de “João da Silva”, de “Maria de Sousa”, sentiremos orgulho também e não esconderemos que nossa família se chama Umbanda, que sua casa é X, que aquele Beltrano é seu Pai espiritual, que aquela é sua Irmã de fé. Mas enquanto não assumirmos verdadeiramente para nós primeiramente e para outros, o que somos espiritualmente falando, dentro de nós ainda está faltando a certeza de que ali está o seu amor, a sua alma, e que seu ser está entre parentes, entre irmãos, unidos pelo amor comum, pelo tronco familiar comum para trilharmos juntos essa grande aventura e fantástica viagem chamada VIDA. Este núcleo nos ajuda a nos compreendermos melhor, a entender o meio e nossa relação com ele. Ajuda-nos a harmonizar, a nos equilibrar e nos acolhe a alma para partilharmos momentos de vitórias, alegrias, e nos animar nos momentos de dificuldades e obstáculos. E ao contrário do que a maioria de fora (e diga-se de passagem, muitos de dentro também infelizmente) entende e quer fazer de nossa crença, um balcão de milagres e trabalhos de magia. Procuram a Umbanda para consultar as entidades e dirigentes espirituais para fazerem trabalhinhos para isso e aquilo, para o amor, para conseguir uma vaga acima da sua, para arrumar emprego, para passar numa prova, para tirar alguém de suas vidas, um rival, etc. Mas não esqueçam que a Umbanda é uma religião tal qual as outras; existem para nos conduzir ao equilíbrio e harmonia interior, a encontrar o sagrado divino dentro de nós e no plano invisível. Mas infelizmente muitos entendem que cuidar do espírito e “buscar a Deus” é na Igreja e na Umbanda você vai quando tiver precisando de um trabalhinho ou saber de alguma coisa. Na maioria das vezes, de caráter fútil e corriqueiro. E enquanto nós Umbandistas alimentarmos esse tipo de comportamento e não esclarecermos ou procurar promover uma “reeducação”, esse panorama não irá mudar. Mas irmãos, não nos esqueçamos que, a reeducação precisa começar de dentro para fora. Não adianta nada lutarmos em prol de movimentos contra intolerância, aceitação, se nós que somos “o movimento de umbanda”, continuarmos com visões, comportamentos e idéias distorcidas sobre nossas práticas e filosofia espiritual.

Não esqueçam que um Terreiro de Umbanda é um núcleo de irmãos, familiar nunca. E não um local onde você vai periodicamente "se tratar" porque assim "o orixá, o Exu X pediu e orientou. Não é local para simplesmente ir para tratar sua mediunidade porque não tem outro jeito e estão cobrando isso de você. Uma das bases filosóficas de nossa casa e de visceral importancia para nossa guia chefe, é justamente dar a liberdade de escolha para aqueles que ingressarem como adeptos de nossa casa, o faça por amor e afinidade com a religião e filosofia que nossa casa comunga. E não por obrigação e cobranças espirituais, seja de que ordem for. E a relação é superficial, até porque o indivíduo vai a contra gosto, porque se sente pressionado e acuado para ir, pois caso contrario entende que sua vida "irá dar pra trás e as doenças irão se instalar". E aquela pessoa não se integrará como membro de uma familia e sim, como visitante.

Mas deixemos esse assunto pra ser tratado com maior esmero em outra oportunidade. Voltando ao assunto: família, deixe-me perguntar:
E você? Já encontrou sua família e a assumiu pra si e para os que lhe são queridos? Pense, reflita, ouço o seu coração e ele te dirá. Por isso é tão importante não ter vergonha de ser o que é, o que pratica, pois se as pessoas ao seu redor lhe amam, mas amam de verdade, irão respeitá-lo pelas suas escolhas do que lhe faz feliz, do que lhe dá alegria e paz. Mas se esse reconhecimento não chegou e você ainda tem medo, vergonha, e não sabe exatamente o que dizer quando lhe perguntam sua religião, crença, algo dentro de você precisa ser Reconheça a sua família espiritual, se entregue a ela, e sinta a retribuição em amor e semelhança. E o resto acontecerá naturalmente, quando esse sentimento que você tem ai, quando essa memória que você tem adormecida despertar, você verá como é bom dizer: sou Umbandista por amor e para o amor dos meus antepassados, dos meus semelhantes, e de mim como ser antigo vivente no mundo. E quando este dia chegar, não importa se você é médium incorporativo, ou é se assistente de terreiro. Você de fato e sem reservas entendeu o significado da Umbanda em sua vida, em muitas vidas, em nossa terra. Porque ela, assim como muitas outras religiões e cultos, somente existe por uma coisa chamada tronco e memória ancestral que está em mim, em você e no espírito que baixa num terreiro dizendo se chamar Tupinambá. Até porque, se o povo africano não tivesse vindo para o Brasil, os nativos da terra, não fossem os índios, e nossos colonizadores não fossem portugueses, seríamos um povo de cara diferente, costumes e crenças diferentes. E pense se existiria a Umbanda como ela se manifesta hoje em nosso país. Porque a religião está interligada a formação de determinado povo, e por isso mesmo, é parte do estudo dos povos nas faculdades de ciências humanas. Não pensem que as religiões são puramente “transcendentais”, desvinculadas de nossas crenças e formação cultural como gente, cidadãos de determinada região. O meio influencia o todo e as religiões são expressão também dessa formação humana que começou a ser montada a muitos e muitos séculos atrás e por isso mesmo, tem seu caráter ancestral. Eu tenho orgulho de dizer: “sou afro-ameríndia, sou parte de todos os elementos, parte do criador, parte de ti, e você é parte de mim! Axé, Adupé, Saravá, Namastê, Shalon, Amém.
Ana Araújo


Somos um universo inteiro de inteligências, consciências, histórias, pois somos espíritos livres, e imortais. E quando todas as religiões do mundo acabar, quando o nosso próprio mundo acabar, ainda sim, existiremos e o que nos re- unirá, será justamente a nossa memória ancestral, e, é exatamente isso que nos dá e dará identidade e individualidade no meio de milhares e milhares de centelhas disformes de luz radiante.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

História de um preto-velho - mais um conto de Fernanda Mesquita



Era um dia frio, como tantos outros na Serra de Petrópolis...

Lá iam os negros escravos cumprir com sua nova missão: ajudar a construção de uma passagem de linha férrea que ligasse o Rio de Janeiro à Serra da Estrela e assim, sua Majestade e toda a corte imperial poderiam enfim ter mais conforto para chegar às casas de veraneio que cresciam cada vez mais imponentes na Cidade Imperial.

-Socorro! - Gritava um escravo preso em um buraco que o capataz havia feito para que os negros fossem postos lá como forma de castigo e assim aprendessem que não havia outra alternativa a não ser trabalhar.

Só que este escravo já estava preso há dias, tinha fome, sede e as mãos sangravam devido ao trabalho excessivo a que fora exposto naqueles dias frios de Inverno.

Ninguém ouvia o negro escravo, pois os buracos eram feitos aos montes e distante da via férrea para que não houvesse contato com os outros escravos. Depois que o negro morria, jogavam terra em cima do buraco e, com o decorrer do tempo surgiu o “Cemitério dos Escravos”, como ficou conhecido mais tarde.

Mais de cem anos se passam...

-Estou cansada!Podemos parar aqui um pouco pra descansar? - Diz Ana para os outros dois amigos.

-Acho que sim! - Diz Alex - Creio até ser um ótimo lugar para acamparmos por hoje. Já vai escurecer, estamos caminhando desde o começo da Serra sem parar. Vamos ficar aqui hoje e continuar pela manhã bem cedo. Tudo bem pra você Raul?

-Por mim... - Resmungou Raul que não gostou nem um pouco da idéia de refazer a pé, a 845 metros de altitude o “caminho do ouro”, como ficou conhecido na época de D. Pedro II.

Os jovens armaram suas barracas, buscaram lenha e sentiam a brisa fria que já chegava, quando apareceu caminhando ao longe um senhor, que ao chegar perto dos meninos, perguntou:

-Posso me sentar um pouco em frente à fogueira que vocês fizeram pra me esquentar um pouco? Estou cansado...

O velho foi se sentando em um toco de árvore perto da fogueira e os jovens, sem entender de onde veio aquele velho, consentiram e fitaram-no por alguns minutos.

Antes que eles dissessem alguma coisa o Velho começou a falar:

-Lugar sofrido foi esse aqui, para satisfazê o bem estar dos brancos, muitos negros sofreram e morreram aqui, sabiam? Pés e mãos sangravam, mas o trabaio não podia parar, nem criança escapava do trabaio pesado . Tinham que carregar pedras e, muitas pedras foram colocadas em cima das “cova” onde jaziam os corpos dos escravos. As crianças não tinham trapos pra vestir e os mais véios muitas das veiz tinha que deitar sobre a criança pra mó dela não morre di frio... Fizeram uma Zenzala pra deixá os escravos por aqui mesmo,então sempre que dava,nóis pegava uns mato que desse pra cubri as criança que muitas das veiz morria di frio... Quando o capataz queria castiga nóis, tacava fogo nos mato que servia pra cubri as criança e deixava todo mundo trancafiado dentro da senzala, aspirando aquela fumaça toda, e muitas das veiz os pequeno morria porque num agüentava, né fio, a fumaçada que durava muitas horas... Triste di si vê, mas nóis num pudia grita nem fala nada, pra mó di num se jogado nas cova funda mato adentro e fica lá agonizando até a morte... Vida de nós foi sofrida, fios!

Com os olhos arregalados, diante do velho que ali falava, Raul disse:

-Mas, mas... você é... quer dizer era... um negro escravo? Você... - e, antes que ele concluísse, o velho com um meio sorriso falou:

-Sim fio! Sou um Preto-Velho escravo, que aqui muito sofreu e hoje venho através da Umbanda ajudar a todos que de mim precisam, e muitos outros igual a mim estão hoje ajudando num terreiro a praticá o amor, a caridade a todos que di nós precise viu, fio?

E, com a manhã chegando, o velho se levantou e foi caminhando pra dentro das matas.

Ana, completamente atordoada com tudo o que ouvira durante toda aquela noite, não teve tempo de temer aquele velhinho que mostrava nos olhos toda uma saga de vida sofrida e antes que ele sumisse na mata fria e úmida, ela gritou:

-Ei! Qual é o nome do Senhor?

-E o velho, já bem longe, gritou em voz bem firme:

-Pai Miguel é o meu nome.

Raul, não acreditando naquilo tudo, correu atrás do velhinho, achando tudo ter se tratado de uma brincadeira de muito mau gosto. Chegando no ponto que o velho sumiu, Raul topou em uma pedra e, olhando pra baixo viu escrito na pedra: ”P. Miguel.”

Alguns anos mais se passaram, quando os jovens, visitando um terreiro de Umbanda em uma festa em homenagem aos Pretos-Velhos, mais uma vez tiveram uma grande surpresa:

Lá na frente, um Preto-Velho comandava a gira e, com os olhos marejados de alegria dessa vez, disse:

-Que todos os fios que vieram aqui hoje consigam recebê as graças de Nosso Pai Maior, e que os véio que aqui estarão hoje, ajudem a todos suncês no caminho da evolução espiritual!

E o Nego Velho, olhando para os três que ali se encontravam no meio da multidão, que ansiava para entrar, ergueu os braços e falou:

-Venham cá meus fios, venham dá um abraço nesse Nego Véio, que esperava por suncês há muito tempo!

-E os três numa só vozsussuraram : ”Pai Miguel??!”

E foi assim que começou o caminho dos três jovens na prática da caridade naquele terreiro de Umbanda junto de Pai Miguel das Almas....

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A casa do Barão - um conto de Fernanda Mesquita




-Não chore! - dizia Preta Zica ao escravo João preso pelo capataz por ter sido pego tomando o leite que acabara de ser tirado da vaca que pertencia ao Barão.

João havia sido preso a um elo de aço, entre tantos outros negros escravos que ficavam sob a casa do Barão de Águas Claras.

A maioria dos casarões da Corte Imperial situados a Rua Koeler, eram de pessoas da alta sociedade e amigos de D.Pedro II, esses,trancafiavam seus escravos sob os imponentes casarões, sendo um alçapão a única forma de se chegar até a “senzala improvisada” que ficava sob o assoalho das casas dos senhores de escravos,não havendo assim, possibilidade de fuga.

-Um dia hei de me vingar e colocar esses brancos malditos presos aqui onde me encontro hoje! Nesse dia eles sentirão na pele e pagarão seitil por seitil o que fazem com todos nós - dizia o escravo João, inconformado por ter sido preso tentando saciar a sua fome.

-Fio, não devemos ter sentimentos de ódio... que seja feita a vontade do Senhor...tenhamos fé! - dizia Preta Zica.

O inverno rigoroso da Cidade Imperial fazia com que muitos negros, que se encontravam presos pelas mais variadas formas pelo capataz do Barão, acabassem por adoecer, outras vezes até morrer devido às condições precárias de vida às quais eram impostos, padecendo de males como a pneumonia.

Em uma noite de chuva, o Barão precisou que seu capataz se ausentasse do casarão a fim de levar uma encomenda urgente a 20 quilômetros dali, ficando assim, sozinho np local.

Decorridas algumas horas, ele ouviu ruídos, murmurinhos e risadas que vinham da parte inferior da casa e, vendo que se tratava dos escravos, desceu até a “senzala” pra calar a boca dos negros insolentes. Mas chegando à parte de baixo, ele foi surpreendido por outros negros que o pegaram e rapidamente o colocaram preso ao lado do escravo João, que ria da situação.

-Seus insolentes! Quando o capataz voltar vocês pagarão com a vida!

E antes que o Barão tivesse tempo de dizer outra frase, eles pegaram um copo de vinho com veneno e fizeram o velho beber, vindo este a falecer em questão de minutos.

Nem todos os escravos que ali estavam conseguiram fugir, pois os mais debilitados sabiam que não conseguiram ir longe, então decidiram ficar e sorver da bebida letal, pois eles sabiam que não sobreviveriam quando o capataz retornasse ao casarão.

Passados muitos invernos desde aquela triste noite, e chegando nos dias atuais, veremos Pai Carlos, renomado Pai de Santo do Terreiro Luz Divina e mais doze médiuns indo até um Casarão para fazer uma limpeza espiritual a pedido de um casal atemorizado por espíritos em sua residência.

-Muito bem! Todos estão prontos para o início dos trabalhos?

-Espere! Que barulhos são esses vindos do assoalho da casa? - perguntou Antônio ao Casal que de pronto respondeu:

-Isso é pouco! Acho que deveriam ir lá embaixo onde era a “senzala” antes de começar qualquer coisa.

Ao que Pai Carlos autorizou, Antônio, um dos médiuns mais antigos, desceu juntamente com outros dois médiuns para tentar descobrir o que se passava lá embaixo.

Antônio nunca sentira vibração como aquela; o chão de terra batida mostrava traços de escravidão, com correntes enferrujadas, algumas poucas presas ainda a parede e, em um canto, uma coisa parecida com uma gaiola onde provavelmente ficavam os escravos quando eram castigados pelos seus senhores.

Vinham à mente de Antônio perturbações de diversas formas: escravos sendo açoitados e presos nas gaiolas até padecerem, mulheres negras pedindo água, muito choro, palavras de ódio, pedidos de vingança, visões distorcidas que o fizeram pedir ajuda de Pai Carlos.

Pai Carlos desceu até Antônio e depois de uma prece, ao que Antônio se sentiu melhor, o sacerdote começou os trabalhos daquela noite ali mesmo sob os olhos surpresos de todos.

O Preto-Velho de Antônio, foi para a parte superior da casa a fim de acender sete velas em um local específico para o bom andamento dos trabalhos e, ao que acendeu a última vela, veio uma ventania que apagou todas as outras ao mesmo tempo.

O Preto-Velho olhou para frente e avistou um homem de meia idade, branco e que parecia xingar alguém andando rápido como se estivesse à procura de algo ou alguém, sem nem perceber o Preto-Velho que ali estava.

-É......sussurrou o Preto-Velho...

Voltando à parte debaixo do casarão,os Pretos-Velhos que estavam fazendo a limpeza da casa, terminaram seus trabalhos e o Preto-Velho de comando disse aos médiuns que mantivessem os pensamentos elevados, pois havia escravos ali que, por terem tirado a própria vida antes da hora, ainda se encontravam presos naquele lugar e mais ainda, o espírito de um senhor que parecia ser o dono da casa, que não aceitava a situação em que se encontrava, vagava e precisava de muita oração, pois ele acreditava que se deixasse a casa, os escravos tomariam o lugar que era dele. E assim se passou uma longa noite de trabalhos espirituais a fim de findar ou pelo menos amenizar a situação em que se encontrava o casarão.

Mesmo com a ajuda de treze médiuns naquela noite na Casa do Barão, os donos decidiram por vender a propriedade para uma rede de hotéis, pois ficaram impressionados com tudo o que passaram desde o primeiro dia que pra lá se mudaram. O casarão passou por reformas e hoje recebe turistas de todo canto do país e do mundo.

Vocês devem estar se perguntando: E quanto ao Barão? A senzala ? Os escravos?
Bem, dizem os empregados que lá trabalham, que às vezes ouvem murmúrios que parecem vir da parte debaixo da casa e passos largos no cômodo onde dormia o Barão de Águas Claras.....

12/02/2012

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Zélio de Moraes por Zélio de Moraes




Com 82 anos de idade, este homem é considerado por um pequeno grupo de umbandistas “o fundador da Umbanda”. Cabelos grisalhos, fisionomia serena e simples, Zélio de Moraes, através de seu guia espiritual, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, só sabe praticar o amor e a humildade.

“_Na minha família todos são da Marinha: almirantes, comandantes, um capitão-de-mar-e-guerra... Só eu que não sou nada” – comentava sorrindo Zélio de Moraes, aos amigos que o visitavam, nessa manhã ensolarada.

E a repórter antes mesmo de se apresentar retrucou:

“_Almirantes ilustres, capitães-de-mar-e-guerra há muitos; o médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas, porém, é um só”.

Levantando-se, Zélio de Moraes, magrinho, de estatura mediana, cabelos grisalhos, fisionomia serena e de uma simplicidade sem igual – acolheu-me, como se fôssemos velhos conhecidos. Nesse ambiente cordial, sentindo-me completamente à vontade, possuída de um estranho bem-estar, esquecendo quase a minha função jornalística, iniciei uma palestra, que se prolongaria por várias horas, deixando-me uma impressão inesquecível.

Perguntei-lhe como ocorrera a eclosão de sua mediunidade e de que forma se manifestara, pela primeira vez, o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

“_Eu estava paralítico, desenganado pelos médicos. Certo dia, para surpresa de minha família, sentei-me em minha cama e disse que no dia seguinte estaria curado. Isso foi a 14 de novembro de 1908. Eu tinha 18 anos. No dia seguinte amanheci bom. Meus pais eram católicos, mas diante dessa cura inexplicável, resolveram levar-me à Federação Espírita de Niterói, cujo presidente era o senhor José de Souza.

Foi ele mesmo quem me chamou para que ocupasse um lugar à mesa de trabalhos à sua direita. Senti-me deslocado, constrangido, em meio àqueles senhores. E causei logo um pequeno tumulto. Sem saber porque, em dado momento, eu disse: “falta uma flor nessa mesa, vou buscá-la”. E, apesar da advertência de que não poderia me afastar, levantei-me, fui ao jardim e voltei com uma flor que coloquei no centro da mesa.

Serenado o ambiente e iniciados os trabalhos, verifiquei que os espíritos que se apresentavam aos videntes como índios e pretos eram convidados a se afastar. Foi então que, impelido por uma força estranha, levantei-me outra vez e perguntei porque não se podiam manifestar esses espíritos que, embora de aspecto humilde, eram trabalhadores. Estabeleceu-se um debate e um dos videntes, tomando a palavra, indagou:

“_O irmão é um padre jesuíta. Por que fala dessa maneira e qual é o seu nome?”

Respondi sem querer:

“_Amanhã estarei em casa deste aparelho, simbolizando a igualdade e a humildade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem um nome, que seja este: sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas”.

Minha família ficou apavorada. No dia seguinte, verdadeira romaria formou-se na Rua Floriano Peixoto, onde eu morava, no número 30. Parentes, desconhecidos, os tios, que eram sacerdotes católicos, e quase todos os membros da Federação Espírita, naturalmente em busca de uma comprovação. O Caboclo das Sete Encruzilhadas manifestou-se, dando-nos a primeira sessão de Umbanda na forma em que, daí para frente, realizaria seus trabalhos.

Como primeira prova de sua presença, através do passe, curou um paralítico, entregando a conclusão da cura ao Preto-Velho, Pai Antônio, que nesse mesmo dia se apresentou.

Estava criada a primeira Tenda de Umbanda, com o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como a imagem de Maria ampara em seus braços o Filho, seria o amparo de todos que a ela recorressem.

O Caboclo determinou que as sessões seriam diárias, das 20 às 22 horas e o atendimento gratuito, obedecendo o lema “daí de graça o que de graça recebestes”. O uniforme totalmente branco e o sapato tênis.

Desse dia em diante, já ao amanhecer havia gente à porta, em busca de passes, cura e conselhos. Médiuns que não tinham a oportunidade de trabalhar espiritualmente por só receberem entidades que se apresentavam como caboclos e pretos-velhos passaram a cooperar nos trabalhos. Outros, considerados portadores de doenças mentais desconhecidas revelaram-se médiuns excepcionais, de incorporação e de transporte”.

Citando nomes e datas com precisão extraordiária, Zélio de Moraes relata o que foram os primeiros anos de sua atividade mediúnica.

Dez anos depois, o Caboclo da Sete Encruzilhadas anunciou a segunda fase da sua missão: a fundação de sete templos de Umbanda e, nas reuniões mediúnicas que se realizavam às quintas-feiras, foi destacando os médiuns que assumiriam a direção das novas tendas: a primeira com o nome de Nossa Senhora da Conceição e, sucessivamente, Nossa Senhora da Guia, São Pedro, Santa Bárbara, São Jorge, Oxalá e São Jerônimo.

“_ Na época – prossegue Zélio – imperava a feitiçaria, trabalhava-se muito para o mal, através de objetos materiais, aves e animais sacrificados, tudo a preços elevadíssimos. Para combater esses trabalhos de magia negativa, o Caboclo trouxe outra entidade, o Orixá Malé, que destruía esses malefícios e curava obsedados. Ainda hoje isso existe: há que trabalhe para fazer ou desmanchar feitiçarias só para ganhar dinheiro.

Mas eu digo: não há ninguém que possa contar que eu cobrei um tostão pelas curas que se realizavam em nossa casa; milhares de obsedados, encaminhados inclusive pelos médicos dos sanatórios de doentes mentais... E quando apresentavam ao Caboclo a relação desses enfermos, ele indicava os que poderiam ser curados espiritualmente; os outros dependiam de tratamento material”.

Perguntei então a Zélio a sua opinião sobre o sacrifício de animais que alguns médiuns fazem na intenção dos orixás. Zélio absteve-se de opinar, limitou-se a dizer:

“_Os meus guias nunca mandaram sacrificar animais, nem permitiram que se cobrasse um centavo pelos trabalhos efetuados. No Espiritismo não pode pensar em ganhar dinheiro, deve-se pensar em Deus e no preparo para a vida futura”.

O Caboclo das Sete Encruzilhadas não adotava atabaques nem palmas para marcar o ritmo dos cânticos e nem objetos de adorno, como capacetes, cocares, etc. Quanto ao número de guias a ser usado pelo médium, Zélio opinina:

“_A guia deve ser feita de acordo com os protetores que se manifestam. Para o preto-velho deve-se usar a guia de preto-velho; para o caboclo, a guia correspondente ao caboclo. É o bastante, não há necessidade de carregar cinco ou dez guias no pescoço...”

Considera o Exu um espírito trabalhador como todos os outros:

“_O trabalho com os exus requer muitos cuidados. É fácil ao mau médium dar manifestação como exu e ser, na realidade, um espírito atrasado, como acontece também na incorporação com criança. Considero o exu como um espírito que foi despertado das trevas e, progredindo na escala evolutiva, trabalha em benefício dos necessitados.

O Caboclo das Sete Encruzilhadas ensinava que o exu é, como na polícia, o soldado.

O chefe de polícia não prende o malfeitor; o delegado também não prende. Quem prende é o soldado que executa as ordens dos chefes. E o exu é um espírito que se prontifica a fazer o bem, porque cada passo que dá em benefício de alguém é mais uma luz que adquire. Atrair o espírito atrasado que estiver obsedando e afastá-lo é um dos seus trabalhos. E é assim que vai evoluindo. Torna-se, portanto, um auxiliar do orixá.

CINQUENTA ANOS DE ATIVIDADE MEDIÚNICA

Relembrando fatos passados em mais de meio século de atividade espiritualista, Zélio refere-se a centenas de tendas de Umbanda fundadas na Guanabara, Rio de Janeiro, estado de São Paulo, Minas, Espírito Santo, Rio Grande do Sul. A Federação de Umbanda do Brasil, hoje União Espiritista de Umbanda do Brasil, foi criada por determinação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, em 26 de agosto de 1939.

Da Tenda Nossa Senhora da Piedade saíam constantemente médiuns de capacidade comprovada, com a missão de dirigir novos templos umbandistas; entre eles José Meireles, na época deputado federal; José Álvares Pessoa, que deixou uma lembrança indelével de sua extraordinária cultura espiritualista; Martinho Mendes Ferreira, presidente da atual Congregação Espírita Umbandista do Brasil; Carlos Monte de Almeida, um dos diretores de culto da T.U.L.E.F; João Severino Ramos, trabalhando ainda hoje ativamente, inclusive na Assessoria de Culto do Conselho Nacional Deliberativo da Umbanda.

Outros, fugindo às rígidas determinações de humildade e caridade do Caboclo das Sete Encruzilhadas, desvirtuaram normas do culto. Mas a Umbanda, preconizada através da mediunidade de Zélio de Moraes, difundiu-se e hoje podemos encontrar suas características em tendas modestas e nos grandes templos, como o Caminheiros da Verdade a Tenda Mirim, nos quais a orientação de João Carneiro de Almeida e Benjamin Figueiredo mantém elevado nível de espiritualidade, no Primado de Umbanda, uma das mais perfeitas entidades associativas da nossa religião.

Durante mais de cinqüenta anos, o Caboclo da Sete Encruzilhadas dirigiu a Tenda Nossa Senhora da Piedade; após esse tempo, passou a direção à filha mais velha do médium, Zélia, aparelho do Caboclo Sete Flechas. Entretanto, Pai Antônio continua trabalhando, na cabana que mantém o seu nome, localizado num sítio maravilhoso, em Cachoeiras do Macacu. O Caboclo manifesta-se ainda em datas especiais, como foi o exemplo do 63º aniversário daquela tenda. Da gravação feita durante a celebração festiva, reproduzimos para os leitores a gravação final da mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

“A Umbanda tem progredido e vai progredir muito ainda. É preciso haver sinceridade, amor de irmão para irmão, para que a vil moeda não venha a destruir o médium, que será mais tarde expulso, como Jesus expulsou os vendilhões do templo.

É preciso estar sempre de prevenção contra os obsessores, que podem atingir o médium. É preciso ter cuidado e haver moral, para que a Umbanda progrida e seja sempre uma Umbanda de humildade, amor e caridade. Essa é a nossa bandeira.

Meus irmãos, sede humildes, trazei amor no coração para que pela vossa mediunidade possa baixar um espírito superior; sempre afinados com a virtude que Jesus pregou na Terra, para que venha buscar socorro em vossas casas de caridade, todo o Brasil... Tenho uma coisa a vos pedir: se Jesus veio à Terra na humildade manjedoura, não foi por acaso, não. Foi porque o Pai assim o determinou.

Que o nascimento de Jesus, o espírito que viria traçar à humanidade o caminho de obter a paz, saúde e felicidade, a humildade em que ele baixou nesse planeta, a estrela que iluminou aquele estábulo, sirva para vós, iluminando vossos espíritos, retirando os escuros da maldade por pensamento, por ações; que Deus perdoe tudo que tiverdes feito ou as maldades que podeis haver pensado, para que a paz possa reinar em vossos corações e em vossos lares.

Eu, meus irmãos, como o menor espírito que baixou à Terra, mas amigo de todos, numa concentração perfeita dos espíritos, que me rodeiam nesse momento, peço que eles sintam a necessidade de cada um de vós e que, ao sairdes desse templo de caridade, encontreis os caminhos abertos, vossos enfermos curados e a saúde para sempre em vossa matéria. Com o meu voto de paz, saúde e felicidade, com humildade, amor e caridade, serei sempre o humilde Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Reportagem feita por Lila Ribeiro, Lucy e Creuza para a revista “Gira de Umbanda”, nº 1, em 1972.
Texto enviado por email por Alexandre Cumino.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Espírita ou Umbandista - por Douglas Fersan



Não raras vezes ouvimos irmãos-de-fé que praticam e freqüentam a Umbanda referirem-se a si próprios como “espíritas”. Fato muito comum.

Mas afinal, são espíritas ou umbandistas?

Muitos responderão cheio de convicção: todo umbandista é espírita. Ora, se é assim, vamos sofismar um pouco: se todo umbandista é espírita, o inverso também vale, ou seja, todo espírita é umbandista, correto?

Obviamente que não. Aliás, se alguém tem alguma dúvida quanto a isso, basta perguntar a um espírita (e nem precisa ser daqueles mais ortodoxos) se ele é umbandista. Certamente a resposta será um belo e redondo “NÃO”.

Estaria errado esse espírita? A resposta mais uma vez é não. Ele está correto, afinal em sua doutrina não se faz oferendas, defumações, não existem pontos cantados ao som dos atabaques, incorporação dos falangeiros dos orixás, etc. Além disso, na própria bibliografia de Kardec, que forma a base doutrinária dos espíritas, está bastante claro que o termo “Espiritismo” refere-se à filosofia descrita ali, no Pentateuco kardequiano, e não às demais práticas espiritualistas.

Mas se o espírita não aceita se declarar como umbandista, por que o contrário deveria acontecer? Deveria, obviamente, mas não isso o que acontece. Muitos e muitos umbandistas se autodenominam espíritas – ou acreditam que realmente o são, não percebendo que existe um leque de diferenças abissais entre as duas religiões.

Para entender melhor essa questão é preciso recorrer à História, sempre sábia e pronta a nos dar respostas.

A corrente umbandista que tem em Zélio Fernandino de Moraes o seu fundador, diz que a Umbanda nasceu em um centro espírita, diante da recusa dos seguidores de Kardec em aceitar a manifestação de espíritos que na sua concepção eram atrasados e/ou ignorantes, como caboclos e pretos-velhos. Essa passagem já serve para nos mostrar que existe uma diferença colossal entre o Espiritismo e a Umbanda, já que o primeiro não aceita a manifestação de espíritos que formam o pilar da segunda.

Mas há quem argumente dizendo que para a espiritualidade não existem fronteiras. Mas para nós existem. Tanto existem que a espiritualidade se dividiu em dezenas de religiões, as mais diversas, para que cada uma atendesse às necessidades das pessoas em seu espaço e tempo. Se as diferenças não fossem necessárias para a compreensão e evolução moral de cada sociedade, a espiritualidade se encarregaria de criar uma religião única. Se as diferenças existem, é porque precisamos delas (alguns podem seguir uma religião mais liberal, pois possuem discernimento para isso; outros precisam de religiões com mais rédeas, pois são pessoas que precisam de mais regras em sua vida, e assim por diante, apenas para exemplificar).

Ainda recorrendo à História, vale lembrar que a Umbanda agrega diversos elementos africanos em sua liturgia – desde os espíritos dos pretos-velhos, até os falangeiros dos orixás e os atabaques – e não é segredo para ninguém que a construção de nossa sociedade se alicerçou em uma ideologia eurocêntrica, que classificava tudo que era de origem africana (leia-se negra) como inferior, atrasada e ruim. Assim, cultos que agregam elementos negros, como a Umbanda e o Candomblé foram vistos como coisa de gente ignorante e atrasada, além de sofrer repressões das mais diversas formas. Não raras vezes, terreiros de Umbanda e Candomblé eram atacados e destruídos. Até hoje existem aqueles que se referem a esse culto como “baixo espiritismo” – puro senso comum e manifestação de desconhecimento.

Durante os primeiros anos da república no Brasil, não eram raras as perseguições. Porém, durante a Era Vargas (1930 – 1945) surgiram vários terreiros de Umbanda que se denominavam espíritas, pois nessa época as elites mais esclarecidas eram simpáticas ao Espiritismo. Assim, denominando-se espíritas, os umbandistas conseguiam trabalhar em paz, sem ser incomodados pelas autoridades. Surgiram então, diversos terreiros que carregavam o status de “espírita” em seu nome, como “Centro Espírita Caboclo Pena Verde”, “Tenda Espírita Pai João de Angola” e assim por diante.

Ainda hoje muitos aceitam bem o Espiritismo, mas ainda têm reservas com a Umbanda, por não conhecê-la bem. Se alguém se declara espírita é bem aceito, mas se por acaso se declarar umbandista, corre o risco de sofrer algum tipo de preconceito. Por isso muitos preferem se dizer espíritas no lugar de se assumir como umbandistas de fato. Esses o fazem de forma consciente, como um mecanismo de defesa.

Porém existem aqueles que são umbandistas, mas se dizem espíritas e acham que estão corretos, pois acreditam tratar-se da mesma religião. A esses falta entendimento da própria religião que professam e, mais que isso, falta vestir a camisa da Umbanda, sentir orgulho dela.

Mesmo aos que se dizem espíritas como maneira de se defender falta vestir essa camisa. A legislação brasileira garante a liberdade de culto e o respeito aos diferentes credos. Qualquer manifestação de intolerância pode e deve ser denunciado, portanto já passou do momento de vestir a camisa da Umbanda, de se assumir umbandista e ter orgulho dos seus orixás, entidades e fé. Não devemos ter medo dos olhares ignorantes que nos taxam como macumbeiros, feiticeiros ou o que for. Perante eles devemos assumir a nossa condição e dar o bom exemplo, para que compreendam o que realmente é a Umbanda e saiam das trevas da ignorância. Não existem motivos para ficarmos acuados e envergonhados da nossa religião. Não somos a maioria da população (ainda bem, pois a Umbanda não é uma religião de massas, e sim de pessoas preparadas para ela), mas temos o direito de ser respeitados e esse direito começa a ser exercido quando perdemos a vergonha de ser o que realmente somos e passamos a ter orgulho da nossa condição.

Espírita é o seguidor de Kardec – ao qual devemos o maior respeito pela linda doutrina que seguem.
Mas nós somos umbandistas, acreditamos no Orixá, cultuamos o preto-velho, o caboclo, as crianças e recebemos a proteção de Exu. Temos rituais próprios, temos sacerdotes e liturgia própria. E nos orgulhamos disso.

Douglas Fersan – 05/01/2012
.’.