domingo, 16 de fevereiro de 2014

O mensageiro dos orixás - por Douglas Fersan

Exu é o mensageiro entre o Orum (mundo espiritual) e o Aiyê (mundo material).
Justamente por isso, ao se fazer um pedido aos orixás, costuma-se primeiramente fazer uma oferenda a Exu, para que ele leve o pedido dos homens até os seus destinatários.

Nesse caso, deve-se tomar um cuidado especial para não confundir o Exu (orixá cultuado na África e nos Candomblés) com o exu catiço, o espírito desencarnado, que trabalha na lei de Umbanda e Kimbanda em busca de sua evolução. Ambos possuem seu valor, mas são entidades diferentes.

Mas a ambos pedimos proteção. Uma nova semana está chegando. Novos desafios surgirão, momentos de decisão no exigirão respostas. Que Exu, tanto o orixá quanto o catiço, estejam guiando nossos passos no caminho da verdade, da justiça e do bem, a fim de que possamos progredir, com o seu auxílio, enquanto seres carnais e espirituais.

Laroyê Exu.

Douglas Fersan
.'.

Curta a página Lar de Preto Velho no Facebook.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Palavras do Pai João Benedito - por Douglas Fersan


No cativeiro tive a oportunidade de sofrer para valorizar a felicidade. Antes eu achava que eu tinha o direito de ser feliz, se o outro não era, o problema não era meu. Sob o açoite eu aprendi o valor de cada minuto de felicidade e aprendi a ficar feliz quando sabia que um irmão havia escapado do cativeiro e não estava mais sofrendo.

Aprendi a dar valor a cada coisa que eu achava pequena.

Quando vinha a noite eu estava com o corpo dolorido de tanto trabalho, mas aproveito o tempo que tinha para venerar meus orixás. Às vezes fazia isso em silêncio para não incomodar meus companheiros de cativeiro, e ia rezando até o sono me dominar. Aprendi o valor da fé e aprendi que não preciso fazer rituais barulhentos para que meu orixá sinta as minhas preces.

Fui resignado, e por assim ser, fui criticado até por meus irmãos de cativeiro. Muitas pedras recebi, tanto alguns irmãos negros, que não aceitavam minha resignação, mas principalmente dos opressores que queriam a força do meu trabalho, mesmo quando minhas costas já estava arqueadas, os braços fracos e as pernas doloridas.

Com as pedras construí uma muralha. Usei minha fé para cimentar uma pedra à outra e assim resisti até o dia em que Olorum me permitiu viver nessa terra. E foi com grande alegria que aceitei a tarefa de voltar como energia espiritual, para ensinar o que aprendi com os anos na escravidão. Não me sinto mais sábio, mas aprendi a valorizar cada momento, seja de alegria ou tristeza, e a entender que cada um deles nos ensina uma lição. Hoje o que eu faço é ajudar os filhos da terra a entender essas lições.

Pai João Benedito

Douglas Fersan
.'.

Curta a página Lar de Preto Velho no Facebook.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Filhos de umbandistas - por Douglas Fersan


Nós umbandistas temos uma grande responsabilidade nas mãos. Apesar do Brasil ser oficialmente um país laico, suas instituições, incluindo as escolas, serem laicas pela lei, sabemos que não é bem isso o que acontece. Temos plena consciência de que não somos a maioria na sociedade e, justamos por sermos minoria, é que temos que saber como nos defender. Orientar nossas crianças é fundamental, para que não sejam vítimas de preconceito ao declarar a sua religião ou a religião de seus pais.
Assim como o negro deve assumir com orgulho a sua negritude, assim como como estrangeiro deve assumir a sua identidade cultural diversa, assim como o homossexual deve assumir sem medo a sua condição, nós umbandistas também devemos assumi - e com muito orgulho - a nossa religião.

Alguns dirão que não assumem porque a sociedade é preconceituosa. Pois esse preconceito ficará cada vez mais forte enquanto nos escondermos sob esse argumento.  Filhos de umbandistas não precisam esconder a religião que seus pais praticam. E não devem (e nem podem) ser discriminados por isso.  Portanto, já passou do tempo de orientarmos nossos filhos quanto a isso. Quanto a se defender da ótica preconceituosa que lançam sobre nós.  É preciso orientar as crianças sobre como agir em caso de preconceito.  Aliás, não somente em relação ao preconceito, mas caso sejam aliciadas e/ou intimidadas por seguidores de outras religiões.

Jamais vou exigir que meu filho seja umbandista. Essa será (ou não) uma opção dele. Mas também não quero que o tentem converter a outra religião. Isso também será opção dele.  Mas enquanto estiver sob a minha tutela, como pai vou ensinar os meus valores. Vou ensinar que existe um Deus supremo, seus orixás e entidades que trabalham para o bem.  Assim como o católico leva o seu filho à missa, vou levar o meu á gira, para que ele saiba o que o pai dele faz. E mais, para que saiba que o que o pai dele faz não é errado e nem coisa do demônio, como certamente alguém dirá a ele um dia. E quero que ele tenha argumentos para se defender e para me defender.

Acredito que ensinar que nossa religião é voltada à prática do bem e da caridade e que visa a própria evolução enquanto ser humano, é primordial. Se tento ensinar aos meus filhos-de-fé o quanto a Umbanda é uma religião bonita, por que não farei isso com o meu filho de sangue?  Sinto-me no dever de mostrar isso a ele. E isso não significa impor valores, significa mostrar a realidade que vivo.

Se o católico manda seus filhos para o catecismo, se o protestante manda os seus para a escolinha dominical, por que não posso ensinar ao meu filho a beleza da minha religião?  E mais que isso, deve ensiná-lo a se defender do preconceito que terão sobre ela e sobre quem a pratica.  Tenho que ensiná-lo que a escola é laica e não pode tratar a nossa religião como folclore.  Tenho que ensinar que o Estado e todas as suas instituições são laicas.  Tenho que ensiná-lo através do exemplo que sou umbandista e que isso me ajuda a ser uma pessoa de bem e que faz o bem, para que ele cresça acreditando na própria potencialidade de trabalhar na prática do bem, sendo umbandista ou não.

Douglas Fersan
.'.
Curta a página Lar de Preto Velho no Facebook.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Ibejis tocam tambor e enganam a morte - por Douglas Fersan

Ibejis tocam tambor e enganam a morte

O trecho a seguir é uma pequena parte do curso "Lendas dos Orixás" que em breve o Templo de Umbanda Lar de Preto Velho estará ministrando. São várias lendas, cada uma trazendo um ensinamento. Aprecie essa sobre os Ibejis.

  Iku (a morte) havia espalhado diversas armadilhas pela florestas. Homens e mulheres, jovens e crianças morriam indistintamente, caindo nas armadilhas de Iku. O povoado estava em pânico. Foi então que os Ibejis, traquinas como sempre, tiveram uma ideia. Cada um pegou um tambor e saiu tocando pela floresta, mas enquanto um tocava, o outro se escondia e silenciava.  Foi quando deram de cara com Iku, que não resistiu ao ritmo contagiante do tambor e começou a dançar freneticamente.  Quanto mais a morte dançava, mas o Ibeji tocava e quanto mais o Ibeji tocava, mas a morte dançava.

   Iku dançou até ficar exausta. Começou a lhe faltar o fôlego. Já não suportando mais, Iku pediu que o Ibeji parasse de tocar, acreditando que ele também estivesse cansado, mas sem que Iku percebesse, o outro Ibeji tomou seu lugar e começou a tocar... e Iku não conseguia parar de dançar.  E assim fizeram por horas e horas seguidas, sem que a morte percebesse que eles se revezavam no toque do tambor.

Iku não aguentava mais aquela tortura, então implorou aos Ibejis que parassem com aquele batuque. Então os Ibejis disseram que só parariam se ela fosse embora dali, levasse todas as armadilhas e deixassem as pessoas viver em paz.  Não tendo alternativa, Iku aceitou a proposta dos Ibejis e foi embora daquele povoado. A partir daquele dia eles passaram a ser vistos como heróis e curandeiros da tribo.

Já a explicação e o debate sobre o significado dessa lenda (e das outras) acontecerão durante o curso.  Participe.

Douglas Fersan.
.'.
Curta a página Lar de Preto Velho no Facebook.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Iniciantes, hierarquia e fundamentos - por Douglas Fersan

É muito comum o iniciante de Umbanda empolgar-se com a religião. As velas coloridas, a roupa branca, a dança dos orixás e das entidades, o som dos atabaques, os pontos cantados... tudo isso contribui para que se crie uma aura de fascinação.

Porém o iniciante deve ser tratado como uma pedra bruta a ser lapidada até que se torne um diamante.  Todo carinho e cuidado com ele são poucos.

Tão comum quanto a empolgação do iniciante é a sua possibilidade de colocar o carro na frente dos bois.  O sujeito frequenta a Umbanda há apenas alguns meses, apenas sente a irradiação de seus orixás, sem incorporá-los de fato, e rapidamente já faz propaganda do "poder da sua mediunidade" e sai por aí dando atendimentos privados fora do terreiro, "à la carte", sem imaginar o risco que expõe a si e àqueles a quem presta atendimento.  E quem nunca viu uma situação dessas que atire a primeira pemba.

Claro que procuramos entender que se trata de uma empolgação até mesmo no sentido de fazer o bem, mas não podemos negar que há aí também um (grande) ranço de vaidade, de mostrar que não a Umbanda ou as suas entidades, mas que a sua mediunidade o faz quase um super-herói.

Por isso é bom dizer novamente, que o neófito deve ser tratado como uma pedra bruta até que se torne um diamante. Caso contrário esse mesmo médium que um dia poderia se desenvolver se tornar um excelente trabalhador a serviço do bem, se tornará um médium vaidoso e rebelde, não respeitando a hierarquia do terreiro e nem mesmo os fundamentos da Umbanda, pois seu orgulho vai impedi-lo de entender que a hierarquia é necessária (o dirigente está lá por determinação do astral, e não por eleição ou aclamação) e que os fundamentos existem - para ele existirá apenas o que entender como correto, sem buscar explicações concretas para os fatos.

Um dia esse médium se rebelará contra seus irmãos-de-fé e, ainda que inconsciente, contra os próprios fundamentos da Umbanda, pois achará que ele, o super-médium é o único correto.  E pior ainda, se afastará do caminho correto, arrumará um espaço que passará a chamar de "terreiro de Umbanda" e passará a atender os necessitados à sua maneira, mas por não conhecer os fundamentos mais básicos, acabará mais prejudicando do que ajudando.  Aos outros e a si mesmo.

Douglas Fersan
.'.

Curta a página Lar de Preto Velho no Facebook.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Oriki a Iemanjá


Iemanjá, de dentro das água, responde com o bem.
Minha mãe, que pode ser chamada para trazer prosperidade.
A que sorri elegantemente, tu és minha senhora.
Louváveis são os passos de teus pés.
Dona do meu orí. A água que traz prosperidade não falta em nossa casa.
Água em abundância.
Iemanjá,firme como a montanha,nela podemos nos apoiar.
Possui casa formada por muitas águas.
Orixá que cura doenças com água fria.
Que cura as doenças sem pedir sangue aos familiares do doente.
Iemanjá, que melhora o mau ori.
Melhora mais e mais o meu ori, até o fim da minha vida.

Odoyá

Curta a página Lar de Preto Velho no Facebook.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Minha fé é minha luz - por Douglas Fersan


Morei no interior de São Paulo e naquela época era muito comum se ouvir falar em benzedeiras. Cada uma tinha sua técnica. Algumas usavam um simples galho de arruda, outras sussurravam suas preces (dava uma curiosidade para saber o que eles resmungavam tão baixinho), outras receitavam banhos...  Quando criança fui levado a elas várias vezes, pois minha mãe acreditava tanto (ou mais) em seu poder quando na medicina convencional.

Contava a minha mãe que cheguei a ser curado de uma doença grave graças a um banho que uma dessas benzedeiras receitou.

mas eu cresci... e naturalmente mudei. A rebeldia da juventude me fez negar várias coisas nas quais acreditava quando criança. Tornei-me rebelde, fui contra os valores que meus pais ensinaram, queria mudar o mundo. Era um típico adolescente rebelde.
E um dos principais traços da minha rebeldia era justamente ir contra qualquer forma de crença.  Eu dizia (na verdade repetia frases de teóricos revolucionários e subversivos) que as religiões eram usadas para manipular o povo, que não traziam bem nenhum, que benzimentos eram nada mais que crendices de pessoas sem cultura... Afinal um dos meus maiores ídolos naquela época havia afirmado que "a religião era o ópio do povo".

Mas novamente o tempo passou. Dessa vez acho que não cresci, pois meu parcos 1,70m eu atingi ainda aos 16 anos, mas acho que amadureci.  E o amadurecimento espiritual quase sempre vem às custas de algum sofrimento ou necessidade.

E foi num momento de sofrimento que me falaram de uma senhora negra, uma médium de Umbanda, que atendi às pessoas num quartinho de sua humilde casa. Lembrei todo o meu passado - desde a infância, quando era levado pela minha mãe às benzedeiras, até o meu momento de quase ateísmo total.  Procurar ajuda de uma médium seria quase uma afronta à intelectualidade que eu muito supostamente construíra.

Mas a necessidade era maior e lá fui eu.
Fui atendido pela boa velhinha (devia ter uns 90 anos).  Seus olhos eram opacos, a catarata havia tomado conta deles.  Pelos movimentos percebi que era quase cega.
Mesmo assim falou de todos os meus problemas. E falou das soluções também, de tudo que aconteceria.  Saí de lá ainda em dúvida, impressionado por ela ter falado todos os problemas do presente, mas cético quanto ao futuro.

Mas em pouco tempo tudo se concretizou. Tudo que ela havia falado se resolveu e meus problemas desapareceram da exata maneira como ela havia falado.

Me senti no dever de voltar para agradecer, mas não resisti. Perguntei como uma pessoa praticamente cega conseguia enxergar tão longe e de forma tão clara.

Com um sorriso ela me respondeu: Minha fé é a minha luz, ela é que me faz enxergar e ela me basta.

A partir daí meu ceticismo sumiu.  Concluí que o cego era eu.

Douglas Fersan
.'.

Curta a página Lar de Preto Velho no Facebook