quinta-feira, 21 de abril de 2011

Renascer é preciso - Douglas Fersan



Nessa semana comemoramos a Páscoa, uma festa tradicionalmente cristã – e católica em especial. O significado da Páscoa é o renascimento, a renovação, a nova vida. E, embora seja uma tradição católica, não podemos negar que renascer e renovar é sempre importante. Jogar fora os sentimentos negativos, que nada acrescentam e que só funcionam como uma peçonha que percorre as veias no lugar do sangue, contaminando o corpo e a alma é salutar para todos, pouco importando a religião, pois o que vale é evoluir enquanto seres humanos e espirituais, criaturas de Olorum, que nos quer límpidos e serenos.

Do Orum, o céu dos Orixás, podia-se observar o Aiê, a morada dos humanos na Terra. Sentado e apoiando o cotovelo sobre um dos joelhos e o queixo sobre o punho, Oxalá observava a movimentação intensa dos homens, que em sua frenética corrida do dia-a-dia, esqueciam sua essência divina, esqueciam que eram irmãos e esqueciam até mesmo que deviam respeito uns aos outros.
Alguns homens preocupavam-se tanto com seus problemas terrenos (trabalho, dinheiro, compromissos profissionais) que sequer lembravam de si mesmos. Não se davam o direito de passar algumas horas com as pessoas que amavam (isso quando lembravam de amar), não se permitiam uns momentos de diversão, nem mesmo ouvir uma boa música a fim de sensibilizar a alma e serenar o corpo. Estavam completamente tomados pelo espírito do desespero: o desespero de cumprir suas tarefas terrenas.

Outros já haviam se contaminando tanto com a negatividade que cercava o Aiê, que tornaram-se verdadeiros algozes de seus semelhantes. Pouco se importavam com a dor e o sofrimento alheio – havia até os que sentiam prazer com isso. Uma verdadeira marginalia havia se formado e amedrontava a humanidade. E é claro que seres espirituais trevosos e oportunistas se aproveitam dessa situação para disseminar o ódio, o medo, o desequilíbrio e a desordem na Terra.

Havia também os que já não sentiam amor. Enxergavam isso como um sentimento do passado ou talvez algo que nunca existiu. Olhavam apenas para o próprio umbigo e pouco se importavam se para atingir seus objetivos tivessem que pisar em seu semelhante e ferir a ética, já tão maltratada e esquecida. Até o nome de Olorum, nas mais diversas denominações, era usado para atender interesses mesquinhos.

Não faltavam aqueles que se entregam à luxúria. O sexo, ato de perpetuação e consagração do amor, tão abençoado em sua essência, havia sido banalizado ou convertido em um produto, sendo comercializado das mais diversas formas.

Sereno e calmo como sempre, Oxalá observou tudo aquilo. Mas Oxalá não era intempestivo e nem perderia a fé – trono o qual ele ocupava com excelência. Oxalá acreditava em seus filhos; Oxalá acreditava na humanidade.

Sem esboçar qualquer movimento, Oxalá sentiu a aproximação dos demais Orixás divinos. Nada disse, apenas esboçou um sorriso.

Iansã, cheia de determinação e vontade de resolver as situações, balançou sua mão em direção aos céus, como se fosse uma ventalora, e nuvens escuras cobriram todo o Aiê.

Não demorou para que Xangô lançasse seu oxé – machado de lâmina dupla – em direção às nuvens, provocando fortes trovões, atraindo a atenção dos homens que caminhavam sobre a Terra. Por um instante todos esqueceram suas questões mundanas e mesquinhas e preocuparam-se apenas com a tempestade que se aproximava.

Delicadamente Oxum brandiu as mãos e as nuvens descarregaram uma água doce e límpida, que como uma cachoeira lavou o corpo dos homens, que sentindo aquele frescor inesperado, porém reconfortante, nem fizeram questão de esconder da chuva que caía. Cada ser que habitava a Terra deixava a água escorrer sobre seu corpo, levando consigo todas as negatividades que vinham nutrindo há muito tempo. Foi como um banho, que higienizou não o corpo, mas a alma, de toda a sujeira que a tornava densa e distante de sua centelha divina.

Em seguida Iemanjá entoou seu canto inconfundível, que penetrou não apenas os ouvidos, mas cada poro do corpo dos homens, que olharam espantados uns aos outros. Sob a vibração maternal da senhora da vida, da rainha do mar – que gerou a vida – os humanos olharam-se não mais como rivais ou simples desconhecidos. Cada um reconheceu no outro o seu irmão, o seu semelhante, um ser que mesmo não conhecendo, amava como um membro da família, pois identificaram-se todos como filhos da mesma geração divina que lhes dava a vida.

Aproveitando-se desse momento oportuno, Ogum quebrou todas as demandas existentes no Aiê: rancores, inveja, maledicência, desejos de vingança e todas as formas de pensamentos e sentimentos, que mais nocivos que qualquer magia negra, alimentavam a mente dos homens e matavam a sede dos seres trevosos e oportunistas.
Oportunamente o velho Omolu chacoalhou a sua veste de palhas, curando toda doença da alma humana e colocando fim a todo desequilíbrio que reinava sobre o Aiê. Foi como se toda a humanidade junta ingerisse um remédio milagroso para todos os seus males.

Foi a vez de Oxóssi atirar suas setas sobre cada coração e com elas disseminar a sabedoria em cada coração, a sabedoria que fez com que cada um abandonasse o passado escuso e refletisse sobre a própria postura, tendo a coragem e a vitalidade suficiente para superar os erros cometidos.

Nanã de Buruquê fez um movimento lento com a mão trêmula – daqueles movimentos típicos dos mais velhos, e a chuva cessou. A água, que havia lavado os homens dos sentimentos e atitudes tão ruins, correram em direção aos pântanos, onde seriam encerradas e de onde não deveriam mais sair.

Então, do Aiê, a Ibeijada lançou a alegria típica das crianças, que imediatamente contaminou a todos. Exatamente como as crianças fazem quando brincam, os homens se abraçaram e compartilharam sua alegria. Do distante Orum era possível os risos de alegria, tão pueris, vindos da Terra. Sem qualquer medo de ser feliz, os homens se abraçavam, davam-se as mãos e até brincavam, deixando de lado aquele ar sisudo que até tão pouco tempo atrás lhes contaminava o semblante. Não houve espírito soturno que suportasse tanta alegria: todos fugiram daquela energia maravilhosa que contaminava o Aiê.

A Terra não era a mesma. Estava renovada, assim como seus habitantes. Cada um deles havia recebido a emanação dos Orixás que habitam o Orum e tinham reencontrado sua verdadeira essência divina que dá a vida e que deve guiar as atitudes de cada ser que caminha sobre a Terra. A essência que tantas vezes havia sido esquecida em virtude dos problemas, preocupações e mesquinhez de cada um. Os velhos homens haviam “morrido”, mas renasceram imediatamente, livres de qualquer desvio que os afastasse do Divino Criador. Era o renascimento, era a renovação, era a “páscoa” interna de cada um.

Com outro breve sorriso, Oxalá olhou docemente para os demais orixás, que retribuíram a simpatia e cada um tomou seu rumo.
Do mesmo lugar onde se encontrava, Oxalá fez um breve aceno para Exu, que se encontrava na Terra. Exu respondeu ao cumprimento e abriu todos os caminhos da humanidade, que como quem se encontrava numa encruzilhada de múltiplas direções, agora tinha vários novos caminhos a percorrer.

Embora a Páscoa seja uma celebração católica, nada impede a nós, umbandistas, que deixemos a centelha divina dos Orixás brilhar em nossas vidas, nos fazendo renascer melhores a cada dia.

Autor: Douglas Fersan

Boa Páscoa a todos, em especial aos filhos-de-fé do Templo de Doutrina Umbandista Nova Luz em Aruanda.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Convite para a II Festa de Ogum em São Bernardo do Campo



Mojubá!

Saudações queridos irmãos!

É com muito prazer que enviamos o Convite da 2ª Festa de Ogum de SBCampo, realizada pela AFECAB.

Dia 22 de Maio no Ginásio do Baetão-SBC, a partir das 11:00h.

Venha de branco, represente a Umbanda.

Gostaríamos de contar com sua valiosa presença, e de seu terreiro.

E agradecemos sua colaboração na divulgação deste evento!



Um abraço com muito axé

Mª Emilia Campi

iyalorixá e Presidente da AFECAB

(Associação Federativa da Cultura e cultos Afro-Brasileiros de SBCampo)

Mãe Emilia

(11) 9491 7139

É importante a participação de todos os terreiros da região. Vamos mostrar a força da nossa crença nos Orixás, especialmente no Pai Ogum, a fim de conquistar o respeito que tanto clamamos. Vestir a camisa da Umbanda é um dever de todo umbandista.
Organize seu terreiro, compareça.
(Douglas Fersan)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

A difícil e gratificante tarefa de ser umbandista - por Douglas Fersan



Não raramente observamos, de dentro da gira de Umbanda, o neófito na religião, ainda na assistência, completamente deslumbrado com o “espetáculo” espiritual que se descortina diante de seus olhos.

A roupa branca, apesar da simplicidade, fascina. É como uma farda dos soldados que trabalham incansavelmente em nome de Aruanda e sua lei. O novato anseia por vestir o branco, sem saber que a farda muitas vezes torna-se um fardo, pois é preciso honrá-la, e essa tarefa para nós, seres imperfeitos e ainda caminhando lentamente rumo à evolução, não é tão simples. Não é nada fácil carregar o título (e por que não dizer o estigma?) de ser umbandista, pois tão atacada que é nossa religião, temos o dever de manter um comportamento digno, ilibado e acima de suspeitas, pois somos o espelho no qual se reflete a nossa crença. Ao primeiro deslize, os detratores da nossa religião rapidamente lembrarão que somos umbandistas. Vestir o branco é uma grande responsabilidade.

Os olhos do novato, lá na assistência, chegam a brilhar diante da dança dos orixás e entidades, que através do processo mediúnico, conduzem graciosamente o corpo de seus “aparelhos” ao ritmo dos atabaques. Não sabem que ao final da gira, os médiuns estão cansados, muitas vezes doloridos, mas ainda assim precisam continuar seus afazeres cotidianos: acordar cedo no dia seguinte e, independente do cansaço ou das dores, cumprir seus deveres perante o trabalho, a família e a sociedade. A dança dos orixás não é um balé gracioso e nem um momento de diversão para o médium ou para as entidades: é parte do ritual, que possui fundamentos e significados, atendendo, portanto, às necessidades espirituais da gira de Umbanda.

É possível que alguém na assistência sinta uma pontinha de inveja dos cambonos, pois esses têm contato direto com as entidades e seus ensinamentos, estando bastante próximos a elas e desfrutando, portanto, o privilégio de tê-las a seu dispor durante quase todo o tempo da gira. Mais um engano. O que muitos não sabem, é que o cambono desempenha uma importante tarefa nos trabalhos espirituais, portanto sua tarefa é de extrema responsabilidade e requer muita disposição e abnegação para correr de um canto a outro a fim de atender às necessidades dos guias e, embora não pareça, muitas vezes a gira termina sem que ele consiga tempo sequer para tomar um passe. Nem tudo é como parece.

Os curimbeiros (ou ogãs – embora esse termo seja mais próprio do Candomblé, é usado com freqüência na Umbanda) despertam enorme fascínio, pois muitas vezes são confundidos com “animadores de festas para espíritos”. Mais um engano. A eles cabe a dura tarefa de manter o equilíbrio da gira, pois o ponto cantado não é apenas uma música, é uma oração, um mantra melódico, que deve ser usado no momento certo e da maneira correta. Aos ogãs cabe a difícil tarefa de embalar esses cânticos mágicos ao mesmo tempo em que mantém o ritmo dos atabaques. Se alguém acha que a tarefa do curimbeiro é simples, basta olhar o estado de suas mãos ao final da gira: machucadas, vermelhas e esfoladas – isso sem falar na sua garganta, que provavelmente já está afetada também.

O zelador ou pai-de-santo é a figura que provavelmente mais chama a atenção dentro de um terreiro de Umbanda. Muitos queriam estar em seu lugar comandando os trabalhos, mas engana-se quem pensa que essa é uma tarefa fácil, repleta de louros e uma pseudo-fama. Estar à frente de um terreiro e comandar uma gira requer muita responsabilidade e equilíbrio. Ao zelador cabe fazer todas as firmezas, orientar os médiuns, identificar e organizar as energias que se manifestam na gira. Além disso, é sua função ouvir e orientar os filhos-de-fé de forma imparcial e justa, administrando egos, contornando problemas corriqueiros e outros nem tanto; é dele a tarefa de manter cada elo da corrente unido e forte. A ele também cabe carregar nas costas todo o fardo dos problemas do terreiro quando eles acontecem, pois o primeiro a ser responsabilizado por qualquer deslize numa gira é o pai-de-santo. Nem mesmo os filhos-de-fé o poupam.

Existem aqueles que acreditam que os médiuns de Umbanda carregam consigo algum tipo de poder mágico, que podem solucionar qualquer tipo de problema, já que têm as entidades ao seu dispor. Mais vez engana-se quem pensa assim. Muitas vezes os médiuns passam por problemas tão (ou mais) graves quanto os daqueles que os procuram, pois a mediunidade é uma missão a ser cumprida, e não um privilégio espiritual. O médium possui os mesmos anseios e limitações que qualquer outra pessoa, e ainda empresta o seu “aparelho” para prestar auxílio àqueles que o procuram, às vezes não sobrando tempo para a solução de seus próprios problemas.

E ser umbandista não é só participar das giras uma vez por semana ou a cada quinze dias. Cabe ser umbandista vinte e quatro horas por dia durante sete dias da semana. É uma responsabilidade grande que carregamos, mas devemos honrar esse compromisso que assumimos no dia em que adentramos o solo sagrado de um terreiro, por isso é fundamental pensar muito antes de tomar essa decisão, que certamente mudará a rotina de seus dias.

A vida do umbandista não é um mar de rosas. Existe o compromisso de comparecer às giras regularmente, muitas vezes abrindo mão do próprio lazer e da companhia da família, é aconselhável se abster de certos prazeres, como a carne, o sexo e o álcool nos dias de trabalho, existem as obrigações que exigem grandes sacrifícios por parte do filho de filho-de-fé. Enfim, não é fácil ser umbandista.

Mas se é assim, por que ainda tanta gente permanece no seio dessa religião e cada dia chegam mais adeptos? Seria um simples paradoxo ou a Umbanda é uma religião que reúne um número considerável de masoquistas?

Nada disso... as coisas são mais simples que parecem.

Apesar das dificuldades, a Umbanda é uma religião grata a seus filhos, que sabe recompensá-los e lhes dar uma flor cada vez que um espinho os machuca.

É gratificante para o filho de Umbanda trabalhar numa religião que não fecha as portas a ninguém, não importando o tamanho do problema de quem a procura. Não importa a condição social, sexual ou a raça de quem a procura: a verdadeira Umbanda não deixa de abrir seus braços a ninguém, nem mesmo aos espíritos desencarnados que não foram doutores ou escritores famosos. Escravos, índios, crianças e até aqueles que um dia decaíram em sua existência terrena são bem-vindos para trabalhar prestando caridade e assim contribuir com a própria evolução e dos demais.

Apesar das dificuldades, vestir a roupa branca é motivo de orgulho, pois é a forma de manter viva a crença e a cultura dos orixás, é manter viva a identidade brasileira e africana, é manter viva a chama da fé na sabedoria de nossos antepassados.

É muito gratificante encontrar uma pessoa que um dia, no passado, enfrentou um grande problema e, através da Umbanda, encontrou a solução. Provavelmente essa é uma das maiores recompensas que o umbandista pode receber: o fato de saber que auxiliou, através de sua mediunidade, de seu trabalho e de suas entidades, alguém que se encontrava aflito, pois é na prática da caridade e do amor ao próximo que encontramos a oportunidade de crescer enquanto seres humanos, centelhas da Criação Divina.

É assim que, após uma longa e cansativa gira, o umbandista retorna ao seu lar e após um banho, deita em sua cama, coloca a cabeça no travesseiro e vê que todo seu sacrifício valeu a pena. Afinal, apesar de todas as dificuldades, é muito gratificante ser umbandista.

Douglas Fersan – abril de 2011.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Entrevista com Alexandre Cumino na Revista Caminho Espiritual, edição 16





Alexandre Cumino, muito conhecido no movimento umbandista pelo seu valioso trabalho de divulgação e esclarecimento da Umbanda, fala, nesta entrevista exclusiva, sobre seu mais recente livro, História da Umbanda, publicado pela Editora Madras.

Alexandre, fale um pouco do curso de Ciências da Religião que você está prestes a terminar.


Alexandre Cumino – Neste semestre me formo na graduação de Bacharelado em Ciências da Religião, pela Faculdade Claretiano, que tem tradição de dez anos com este curso, como a primeira instituição a ministrá-lo no Brasil. A proposta é observar o fenômeno religioso e as religiões a partir das Ciências Humanas. Desta forma, durante três anos presenciais, tive a oportunidade de estudar junto de mestres e doutores das áreas de Sociologia da Religião, Antropologia da Religião, Psicologia da Religião, História da Religião, Filosofia da Religião e Fenomenologia da Religião, entre outras disciplinas mais específicas como Religiões Afroindígenas, Religiões Orientais, Mística das Religiões, Diálogo Interreligioso, Teologia Cristã I e II e etc.
O curso valoriza a capacidade de estudar religiões de forma disciplinar e transdisciplinar em busca de pontes no campo das religiões comparadas e das teologias comparadas também. Um dos focos é a busca por um olhar de respeito e alteridade para o “outro” religioso, na busca de compreender suas expressões de fé e religiosidade, sejam elas quais forem.

E seu mais recente livro – História da Umbanda –, como surgiu a ideia de abordar este tema?


Alexandre Cumino – Nunca houve a pretensão de escrever um livro com este título – História da Umbanda. Em 2008, meu amigo, irmão, mestre e pai espiritual Rubens Saraceni me pediu uma pesquisa sobre os primeiros autores da Umbanda. Ele já sabia que eu tinha um bom material produzido nas décadas de 1930, 40 e 50. O objetivo era preparar um capítulo para somar com outros autores, formando um livro voltado aos 100 anos de Umbanda. Quando terminei o material (o capítulo), o Rubens me falou: “Alê! Isto aqui é um livro, trabalhe nesta ideia, pois será muito importante para os umbandistas conhecer este material”. Eu não esperava esta reação, mas tinha consciência de que havia escrito muitas páginas, mais de 50. Minha resposta ao Rubens foi de que eu precisava estudar mais e pesquisar mais para dar corpo a um livro.


Passei meses relendo todos os primeiros autores de nossa religião, na busca pela colaboração que cada um havia dado por meio de sua obra e seu ineditismo. Juntei a este material uma pesquisa sobre a palavra “Umbanda” e sobre o que é “Umbanda”, no ponto de vista destes escritores; adicionei a transcrição das entrevistas de Zélio de Moraes com Lilia Ribeiro da TULEF (Fornecidas por Mãe Maria de Omulu) e fui à Editora Madras (www.madras.com.br) apresentar ao amigo e irmão Wagner Veneziani, que não tem medido esforços para divulgar nossa religião.


O Wagner, ao ver o material, me perguntou: “Isto é história?”. Afirmei que sim, ao que ele arrematou: “Então deve chamar: História da Umbanda”. Quase caí da cadeira, senti o peso da responsabilidade, o título até então era Trajetória de uma Religião. Respirei fundo e lhe disse: “Meu irmão, para tal preciso estudar mais, pesquisar mais e escrever mais”.


Lá fui eu juntar material escrito por sociólogos e antropólogos sobre a Umbanda e procurar compreender o que aconteceu com a religião em cada década, da sua origem, em 1908, até nossos dias. Identificando diferentes períodos no desenvolvimento da religião, como a primeira década de incubação na Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, a primeira expansão a partir de 1918 ainda no Rio de Janeiro, o período de legalização jurídica dos templos, os primeiros textos de Umbanda, o reconhecimento da sociedade, federações, congressos e o “bum” (grande expansão) que aconteceu na década de 1970, bem como a depressão umbandista e seu esvaziamento na década de 1980, para chegarmos nos dias de hoje em que a Umbanda volta a crescer de forma lenta e com mais maturidade. O perfil do umbandista de hoje é bem diferente do perfil das décadas de 30, 50, 70 ou mesmo da década de 80. Temos um grande contingente de jovens na umbanda atual, o que faltava na década de 80, por exemplo...

Leia a entrevista completa (4 páginas!) na revista Caminho Espiritual 16, que está à venda nas bancas de todo o Brasil.
Se você preferir, adquira direto no site da revista (www.rcespiritismo.com.br) e receba em casa, pelo correio.

domingo, 20 de março de 2011

Que os Orixás abençoem o Japão



Engana-se quem pensa que os Orixás são divindades que atuam exclusivamente na África ou no Brasil, seu braço estendido. Ninguém, em nenhum lugar do mundo possui exclusividade sobre as bênçãos e a misericórdia das forças que emanam de Deus.

A História nos mostra (e nos prova) que apesar das diferenças culturais, é possível encontrar muitas similaridades entre os panteões dos mais diversos povos. Odin, Zeus, Olorum e Jeová possuem suas semelhanças. Assim, o Divino se faz presente em todos os povos, em todas as regiões, independente do nome que se dá a essas deidades.

Diante dos acontecimentos recentes e crendo na imediata providência divina em momentos de dificuldades e tragédias, não consigo deixar de pedir aos Orixás que derramem suas bênçãos sobre os nossos irmãos japoneses, independente de sua crença ou não nessas divindades tão maravilhosas e presentes em nossas vidas.

Que o Pai Oxalá não permita que os irmãos japoneses percam a fé, mesmo diante de tantas adversidades. O povo japonês já provou antes sua capacidade de superar os problemas e reconstruir a própria história. Que nunca lhes falte a fé.

Que a Mãe Iemanjá amanse a fúria de suas águas e permita que sua fartura compense as imensas perdas que esse povo heróico sofreu. Que as águas de Iemanjá, que sempre abasteceram a mesa japonesa, voltem à sua tranqüilidade e também a ser parte da bela paisagem nipônica.

E que a justiça de Xangô não permita que cada filho da Terra do Sol sofra além do necessário ao seu aprendizado nesse mundo de provações, onde cada infortúnio é uma lição necessária à nossa evolução.

E que Iansã, a senhora dos raios, sopre seus ventos para direções desertas, levando consigo todo mal e todo veneno para regiões ermas, onde a radioatividade não possa causar sofrimento a ninguém.

E que não falte a doçura maternal de Oxum nesse momento tão difícil, para que cada um veja o outro como seu irmão, filho ou pai e o acolha em seu coração, pois é justamente no momento da tragédia que temos a oportunidade de manifestar o amor solidário, que preserva a vida.

Que os órfãos sejam amparados pelas crianças espirituais. Que a energia doce e pura de Cosme e Damião se faça presente em cada pequeno coração, dando-lhes força para seguir sua caminhada pela vida sem perder a alegria de viver, mesmo diante de tanta desdita.

Que Omolu e Obaluaê tragam a cura aos enfermos ou coloquem fim a qualquer sofrimento desnecessário, aplicando a sua misericórdia a cada alma aflita.

E que o colo de Nanã de Buruquê seja farto o bastante para acolher todos os irmãos japoneses que choram a dor de ver sua terra devastada e o sofrimento nos olhos de seus entes queridos. Que a mais velha das Orixás, como uma avó doce e acolhedora possa enxugar cada lágrima derramada.

E que jamais falte a energia guerreira de Ogun e a sabedoria de Oxóssi para reerguer, tijolo por tijolo, uma nação que já aprendeu a renascer das cinzas.

E, finalmente, que não falte a proteção de Exu para todos os japoneses e brasileiros, africanos, europeus e demais estrangeiros que ali vivem, a fim de que a Terra do Sol Nascente possa brilhar a cada manhã.

Percebo diariamente a presença de visitantes japoneses nesse blog, mesmo após a tragédia que abalou o país. A eles é que dedico esse despretensioso texto mal escrito, mas de coração, que tracei numa noite de insônia.

Muita fé, coragem e axé a todos vocês.

Saravá a Umbanda.

光のその魂が日本を祝福 (Que os espíritos de luz abençoem o Japão).

Douglas Fersan – Março de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

Você pratica uma "boa Umbanda"? - por Douglas Fersan



No dia em que são realizadas as giras na sua casa de Umbanda, você procura, horas antes, amenizar seus pensamentos, afastando os negativos e todas as mágoas e rancores, ou dá valor a esses sentimentos, como faz no dia-a-dia?

Horas antes, você procura alimentar-se de maneira mais frugal e sadia ou entrega-se aos prazeres do exagero da comida e da bebida, afinal ainda faltam algumas horas para a gira começar?

Antes de sair de casa você cuida de seu corpo e de seu espírito, higienizando a ambos, ou vai de qualquer forma? Tem uma roupa branca que usa exclusivamente para essa ocasião ou faz uso dela durante a semana também?

Ao cruzar a porta do terreiro deixa para trás os problemas que o afligiram durante a semana, afinal esse é seu momento de doação, ou carrega esses problemas e sentimentos inerentes a eles para dividir, ainda que involuntariamente, com os seus irmãos-de-fé, que fatalmente terão que dividir esse fardo com você (afinal numa gira de Umbanda as energias são compartilhadas)?

Você adentra o terreiro preocupado em solucionar os seus problemas pessoais ou pensando em praticar a caridade àqueles que esperam pacientemente na assistência?

Você entende que, numa gira de Umbanda, mesmo que não lhe sobre tempo para pedir ajuda às entidades para solucionar as suas questões particulares, você está colaborando com a sua própria evolução pelo simples fato de estar presente e servindo ao Divino e aos necessitados?

No congá você enxerga meras imagens de gesso ou pontos que emanam energias que você deve absorver a fim de realizar um bom trabalho?

Enquanto são tocados os pontos, você fecha seus olhos concentrando-se nos orixás e entidades que estão sendo chamados ou fica preocupado com o tempo que está correndo e os afazeres ou prazeres materiais que teve que deixar para participar da gira?

Você presta atenção nas roupas dos seus irmãos-de-fé, se elas são curtas ou extravagantes demais, ou cuida para que a sua alma esteja alva como deveria para aquele momento?

Em contrapartida, faz proveito da incorporação das entidades para extravasar seu ego, usando roupas esdrúxulas e exageradas, bem como para ingerir álcool e fumo em demasia, que no lugar de agradar as entidades, as expõem ao ridículo (bem como a si mesmo)?

Você faz do silêncio uma prece ou aproveita os momentos em que ele deveria reinar para conversar com os irmãos-de-fé sobre assuntos corriqueiros ou até mesmo fofocas e maledicências? Permite que a sua língua seja maior que a sua fé ou a sua dedicação à Umbanda?

Costuma dizer que as entidades ou orixás são seus – “meu Ogun”, “meu caboclo” – e acredita que você é quem realiza o auxílio aos necessitados ou tem consciência de que é um mero instrumento da espiritualidade a serviço do bem?

Olha os consulentes com certo desdém quando eles relatam um problema que para você é banal, mas que para eles pode ser o mais grave do mundo?

Diz a todos que não lembra de absolutamente nada enquanto cede seu corpo às entidades, quando na verdade possui a chamada “mediunidade consciente”?

Usa o bom nome da Umbanda e das entidades para amedrontar seus desafetos, denegrindo a imagem de nossa religião, já tão injustiçada perante a sociedade?

Alguma vez já simulou estar incorporando uma determinada entidade para dizer a alguém coisas que não teria coragem de dizer sem usar esse subterfúgio?

Já usou a sua mediunidade para obter favores pessoais, materiais e financeiros?
O que você sente quando a gira termina e você vai para casa?

A satisfação por ter cumprido o seu dever auxiliando a sua própria evolução e ao próximo, ou sente-se revoltado porque algum médium brilhou mais que você ou demorou demais atendendo aos consulentes, atrasando o encerramento dos trabalhos?

Responda a essas perguntas com sinceridade e saberá se você pratica uma “boa Umbanda”. Lembre-se que nenhum de nós é perfeito, mas trilhamos o caminho da Umbanda a fim de minimizar as nossas imperfeições, e não para acentuá-las.

Douglas Fersan – Março de 2011.

terça-feira, 8 de março de 2011

Bloco de afoxé leva religiões à passarela do Samba




Pelo segundo ano consecutivo, o bloco de afoxé Omo Aiyé Selé abriu os desfiles em São Bernardo. Com cerca de 80 componentes, o grupo levou para a avenida Aldino Pinotti a tradição do candomblé e da umbanda, religiões que têm origem na África.

Segundo a organizadora do bloco e presidente da entidade Omo Aiyé Selé, Gracinda Aparecida Maria, a Graça, 47 anos, a intenção do grupo é unir as duas crenças. "O candomblé é africano, mas a umbanda foi criada aqui no Brasil", explicou.

A previsão de Graça era que 200 pessoas passariam pela Avenida Aldino Pinotti na noite de sábado, mas os integrantes do terreiro Axé Batistini estavam de luto pela morte do pai de santo Tatá de Xangô e não compareceram. "Na nossa religião, respeitamos luto de três meses. Por isso eles não puderam vir", esclareceu.

Mesmo assim o desfile não perdeu o brilho e aqueceu o público antes das escolas de samba do Grupo 2 entrarem na avenida. Com músicas típicas e representação de diversas entidades religiosas, cumpriu seu papel de divulgar a cultura afro.


Publicado originalmente no Diário do Grande ABC, em 07/03/2011 (confira no link http://www.dgabc.com.br/News/5870900/bloco-de-afoxe-leva-religioes-a-passarela-do-samba.aspx )

Sou suspeito para falar, pois sou amigo da Graça há muitos anos, tenho inclusive a imensa honra de ser seu padrinho na Umbanda, e conheço sua incansável luta pela bandeira de Oxalá.

Que a cada ano aumentem os adeptos do afoxé, assim como cresçam os frutos da interminável luta da Graça para honrar o nome da Umbanda.

Salve os filhos de Umbanda que hasteiam a sua bandeira com respeito, fé, amor e seriedade.

Saravá a Umbanda.

Douglas Fersan - Março de 2011