segunda-feira, 19 de junho de 2017

Diálogo entre um sábio e um preto velho - Ronaldo Figueira

Certo dia, um filósofo adentra a uma tenda de umbanda e senta-se no banquinho de um preto velho. Sua intenção era questionar, investigar; enfim, experimentar. Ao se sentar, o preto velho já sabia o que ele queria, mas mesmo assim saudou-o gentilmente e perguntou em que poderia ajudar.

O filósofo respondeu:
Meu preto velho, na era da biotecnologia vemos os cientistas avançarem cada vez mais nas
pesquisas referentes à manipulação do material genético humano. Além disso, estamos na era do multiculturalismo, de forma tal que a diversidade, inclusive no sentido intelectual, se faz cada vez mais presente.

Pergunto eu: _ o que pode um preto velho dizer sobre assuntos de tamanha complexidade?

Preto Velho, com toda sua calma, respondeu gentilmente ao filósofo:

Misin fio, vós suncê (Sic) tem palavra bonita na boca, por causa de que tu és homem letrado (Sic). Nego véio cá, num estudou nem escrevinhou essas coisa. Mas daqui do meu cantinho, aonde os ventos de Aruanda tocam em meus ouvidos, recebo as notícias que vem da Terra. Vejo também com meus próprios olhos e presencio as lágrimas e sorrisos que brotam como flores e espinhos no âmago de meus filhos.
Vou dizer a vós suncê uma coisa. Esse bicho chamado “biotecnologia”, eu sei muito bem como funciona. Misin fio, [bio] vem do grego “bios” = vida. ”Téchne” e “Logos” também vem do grego, fio. Logo, biotecnologia é o conhecimento sobre as práticas (manipulação) referentes à vida. Assim sendo, nego véio é a favor de tudo que respeita a vida e que é usado para o bem. O bem, não só de si mesmo, mas da humanidade. Uma faca pode ser uma ferramenta de cozinha e ajudar a preparar um alimento. No entanto, a mesma faca pode ser uma arma a machucar alguém. Não é a ferramenta, mas sim o que se faz com ela que torna perigosa a humanidade.

Pasmo, o intelectual não sabia o que dizer, tamanha sua surpresa sobre tão sábias palavras. E não só isto, o conhecimento até sobre a origem das expressões que vem do grego, aquela humilde entidade possuía. Por alguns segundos sentiu um misto de inveja e indignação, uma vez que pensou ser mais conhecedor sobre as coisas da vida que o Preto Velho. Daí então indagou:

Você acha que suas opiniões podem superar a luz da ciência?

Este, respondeu:

Fio, o que nego véio fala, nego véio comprova, pois este nego vivenciou. Caminhou na terra que vós suncê pisa hoje. Sorriu, chorou, se emocionou, amou. Conviveu com homens de bem e também com homens do mal. Fez suas escolhas e por isso é hoje um espírito guia. E só pude aqui chegar porque acertei na maioria das escolhas que fiz. Naquelas em que não acertei, tive que vivenciar novamente, até aprender. Ass im como vós, na Terra. Quanto aos estudos (risos), esse nego véio aqui não frequentou escola na última encarnação. Mas, das muitas encarnações que tive, eu estudei, me formei e, em algumas delas me doutorei. A medicina chinesa, a filosofia grega, a sabedoria hindu; tudo isso fez parte da minha evolução. Da matemática egípcia até os estudos astronômicos de Galileu pude aprender.

E depois de aprender tudo isso, sabe qual o maior ensinamento que obtive misin fio?!

A ter h –u- m- i- l- d- a- d- e.

Por isto, doutor, vós me vês na aparência de um velho escravo brasileiro,
semeador das raízes deste lindo país chamado Brasil, terra da diversidade, da multi culturalidade.
Que cada um formule a sua moral da história.
Porém, questione seus conhecimentos e veja se estão alinhados com os propósitos de simplicidade.
Pois sem ela, não se faz jus a benção do saber.


Autor: Ronaldo Figueira http://9misticos.worpress.com

domingo, 18 de junho de 2017

Banquete de Kiumba - por Douglas Fersan

Sete velas pretas, sete velas vermelhas... – conferiu mais uma vez e lembrou feliz, ao ver que uma tinha se partido ao meio, que comprou uma vela a mais de cada cor, justamente para evitar que um contratempo atrapalhasse o trabalho.
           
            Um carro passou e ela se virou, dando as costas à estrada.  Não queria que ninguém a visse ali, na encruzilhada fazendo uma macumbinha.  Estava bastante convicta do que queria, mas não custava nada evitar ser vista, afinal o que diriam os conhecidos se fosse flagrada com aquela parafernália toda, despachando um “trabalho” na encruzilhada?

            Conferiu a lista mais uma vez: as velas, as bebidas, os charutos, os cigarros...  havia outras coisas também – geralmente mal vistas pelas pessoas, como uma galinha morta, uma língua de boi, um coração...  estava tudo ali.  Não havia esquecido também os pedidos escritos num pedaço de papel.  Já que ia à encruzilhada, resolveu pedir tudo que ansiava.  Pediu que aquela vizinha intrometida se mudasse para bem longe, que a falsa amiga mordesse e língua e se desse mal no trabalho, que aquela sirigaita que lançava olhares insinuantes ao seu namorado quebrasse as duas pernas e, obviamente, que ele, o namorado, ficasse sempre ao seu lado, submisso e escravo do seu amor, cego para outras mulheres e prisioneiro de seus caprichos.  Certamente os exus as pombogiras a ajudariam e ele seria sua propriedade exclusiva.

            _Sim, os exus e pombogiras me ajudarão – pensou novamente, convicta de que os estava pagando muito bem com tudo que aquilo que despejava sobre o chão da encruzilhada.

            Por um momento observou novamente todo aquele material e pensou no quanto gastou com aquilo.  Além do que aquela amiga “macumbeira” havia indicado, comprou outras coisas por conta própria, pois assim acreditava que reforçaria o trabalho. Rosas e cravos vermelhos certamente seriam bem aceitos pelos espíritos, além de um perfume (barato, é verdade) e um alguidar com farofa amarela, tudo colocado sobre uma toalha vermelha.  Se eles a ajudariam com a receitinha dada pela amiga, imagine então com tudo aquilo que acrescentou...  Vendo tudo aquilo, achou que sua oferenda estava acima dos padrões financeiros usados nas macumbas que se vê por aí e adicionou alguns pedidos à sua lista.  Pediu um aumento salarial, a desventura de outro desafeto, além de reforçar o pedido – quase uma exigência – para que o namorado ficasse a seus pés.

            Escondeu-se mais uma vez de outro carro que passava e colocou tudo aquilo sobre o chão.  Colocou de qualquer jeito, nem se deu ao trabalho de abrir as garrafas de bebidas – não comprou das mais baratas, fez questão de lembrar.  Foi aí que recordou que sua amiga “macumbeira” havia dito que os espíritos não conseguem abrir garrafas e nem acender cigarros ou charutos.  Tratou de realizar essa tarefa meio a contragosto e resolveu ajeitar os materiais sobre a toalha. 

            _Até que ficou bonito – disse baixinho.

            Em seguida bateu palmas próximo às velas, conforme a amiga havia ensinado, e chamou pelo nome dos exus e das pombogiras.  Não poupou ninguém: Exu Pimenta, Tranca-Ruas, Exu Veludo, Exu da Meia-Noite, Marabô, Morcego, Maria Mulambo, Maria Padilha, Dama da Noite, Sete Saias...  nomes famosos que permeiam o universo da Umbanda e da Quimbanda.

            Terminado o confuso ritual, deu três passinhos para trás, se virou de costas e tomou seu rumo, certa de que seria atendida em seus pedidos o mais breve possível.  Assim que saiu, um grupo de kiumbas, espíritos zombeteiros e trevosos da pior espécie, se aproximaram daquela bagunça que emporcalhava a via pública e passaram a se divertir com aquele banquete que lhes foi deixado.  Assim que terminasse sua festa, iriam atrás daquela tola menina, a fim de confundir seus pensamentos, dando-lhe falsas impressões de sucesso e esperanças, e em seguida paranoias e sensação de fracasso, que iriam confundir-lhe as ideias, causando medo, insônia, insegurança e toda uma gama de fatores que a fariam ouvir novamente conselhos de pessoas mal informadas, mal esclarecidas e até mal intencionadas como essa amiga “macumbeira”, e iria novamente a uma encruzilhada servir esses kiumbas obsessores vez após vez, até se tornar escrava de sua própria loucura.

            Um pouco distante, os verdadeiros exus e pombogiras, incansáveis trabalhadores do Astral, observavam tristes àquela cena.  Os (verdadeiros) exus da Meia-Noite, Pimenta, Marabô, Morcego, Tranca-Ruas, acompanhados das Senhoras Sete Saias, Maria Mulambo, Maria Padilha e Dama da Noite não interferiram de imediato, pois algumas criaturas não ouvem bons conselhos, não aprendem pelo caminho mais fácil, precisam trilhar o caminho da dor para que o conhecimento sobre a moral espiritual seja compreendida.  Sabiam que aquela pobre coitada teria que sofrer para deixar de ser egoísta.  Teria que sentir os efeitos do mundo espiritual para aprender a respeitá-lo.  Eles sabiam que, após toda aquela bagunça que ela chamava de “trabalho” e de “despacho”, seria perseguida pelos kiumbas e que isso sim a faria procurar um lugar sério, onde eles seriam afastados dela e enfim ela se tornaria também uma trabalhadora da espiritualidade na terra, auxiliando outras pessoas para que não cometessem o mesmo erro.  Ou então, se insistisse na sua teimosia e egoísmo em querer manipular as coisas e as pessoas com a ajuda de espíritos, acabaria se decepcionando por não atingir seus objetivos escusos e se afastaria definitivamente daquilo que ela erroneamente acreditava ser Umbanda.  Não passando pela peneira da Umbanda talvez se convertesse a uma religião da moda e passasse a se autointitular “ex-mãe-de-encosto”...

Douglas Fersan
Julho de 2

quarta-feira, 3 de maio de 2017

A Mansão dos Mortos - novo livro de Douglas Fersan


Acabou de ser lançado: A Mansão dos Mortos, de Douglas Fersan. Através do link https://www.clubedeautores.com.br/…/233656--A_Mansao_dos_Mo… é possível visualizar as primeiras páginas dessa história que tem Judas seu personagem principal. Dividido entre o arrependimento e a culpa, Judas Scariotes se torna um guerreiro e guardião, viajando por vários períodos da história - desde a época de Cristo, passando pela Idade Média e as fogueiras da inquisição, influenciando o iluminismo até chegar ao século XX. Mas se você tem preconceitos e não tem a mente aberta para novas ideias, é melhor não ler esse livro.

domingo, 5 de março de 2017

Ser sacerdote não é se impor - Jeff Santana



Cada um dentro de um terreiro de Umbanda sabe de suas responsabilidades desde de um guia espiritual até os assistentes.

Agora aquele que não gosta de seguir doutrina e regras que não para em casa alguma e sai aos quatros ventos falando que nenhum terreiro de Umbanda presta atenção :

Devemos ter muito cuidado com este tipo de médium e pessoas pois existe alguns filhos e adeptos da religião que acham que a casa que tem que se adaptar aos seus costumes não ele se adaptar a casa. A realidade e uma só quem não tem humildade para abaixar as orelhas e aprender se doutrinar , se educar nunca nenhum terreiro de Umbanda vai prestar nunca vai permanecer em religião ou terreiro Algum.

Jeff Santana.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Quer agradar um filho-de-santo?



Quer agradar um filho de santo?
Basta seguir estas instruções:
• Deixe sempre ele visitar todos os lugares que quiser e quando quiser.
• Deixe-o comprar todos os paramentos e bugigangas que ele quiser para os seus guias.
• Nunca o repreenda, seja sempre um zelador bonzinho que não exige nada.
• Nunca peça para que ele ajude com as despesas do terreiro.
• Não cobre colaborações de espécie alguma para melhorias do terreiro, pois á casa é sua e não dele (assim eles pensam).
• Não peça a ele para lavar louças ou o banheiro, pois não são faxineiros e estão ali só para aprender os ensinamentos da casa e darem uma de sabichões nas rodas de amigos.
• Deixe que ele beba até cair, pois ele não é garçom para dar a devida atenção aos seus convidados em festividades.
• Não diga a ele que ele não pode ir embora à hora que ele deseja.
• Deixe-o chegar a hora que ele quiser no dia de gira sem cobranças ou justificativas.
• Entenda os seus vícios e as recaídas aos seus vícios, pois chegar drogado ou bêbado para os trabalhos não tem problemas, o importante é ele estar em dia com suas mensalidades. 
• Deixe-o fazer fofocas e intrigas dentro da sua casa como se a mesma não tivesse um líder. 
• Contorne as burradas que ele faz, aceite suas desculpas esfarrapadas...
• Finja não ouvir suas reclamações e descontentamentos.
• Carregue ele no colo e não permita jamais que caia ou que sofra.
• Coopere com os achismos dele jamais lhe contrariando.
• Permita com que ele possa extravasar todos os seus fetiches e vaidades dentro do terreiro.


Quer estragar tudo isso?
Tente colocar doutrina e cabrestos... 
Aí você passa a não prestar mais e esse filho que jurava lhe amar vai procurar outra casa para fazer o mesmo!

Acesse nosso site:

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O vaso de sete ervas - Douglas Fersan


É muito comum, especialmente entre os espiritualistas, cultivar um vaso de sete ervas (espada de São Jorge, comigo-ninguém-pode, manjericão, alecrim, guiné, pimenta e arruda) a fim de obter proteção espiritual. O poder das ervas nesse campo é inegável, no entanto de nada adianta ter o seu vaso de sete ervas se você cultivar em seu espírito sete sentimentos e hábitos:

1. Rancor
2. Maledicência/mentira/fofoca
3. Inveja
4. Arrogância/falta de humildade/vaidade
5. Descrença/falta de fé
6. Maldade/falta de compaixão
7. Hipocricia/falsidade

Se cultivar esses sentimentos em sua alma, as ervas do seu vaso secarão - e não adiantará dizer que isso aconteceu porque alguém lhe desejou mal (ninguém pode nos fazer maior mal do que nós mesmos). Paralelo a isso corre o risco de secar a sua espiritualidade também. Cultive ervas, mas cultive também o que há de melhor em si.

Douglas Fersan

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Exu de Raiz x Exu Nutella - por Douglas Fersan

Descontraindo e entrando na brincadeira (que às vezes diz algumas verdades):

Exu de raiz:
1. Aconselha e ajuda quem o procura;
2. trabalha na simplicidade;
3. diz que trabalha dentro da Lei Maior;
4. dá gargalhadas para descarregar o seu cavalo e o ambiente;
5. fuma e bebe para defumar e limpar o seu cavalo;
6. pede em troca apenas a fidelidade de seus protegidos.

Exu Nutella:
1. Ameaça e tenta extorquir quem o procura;
2. usa fantasias, adereços mil, parece mais uma árvore de natal ambulante;
3. diz que veio do inferno, que "é assim" com o diabo, promete coisas impossíveis sempre pedindo algo em troca, diz que tem chifre, rabo e pés de bode;
4. dá gargalhadas estrondosas (e ridículas) para que a assistência pense que ele é o mais poderoso exu de todos os tempos;
5. fuma e bebe para satisfazer o vício do seu cavalo, que fica completamente bêbado quando o exu nutella vai embora;
6. pede presentes caríssimos e até valores em dinheiro para proteger quem o procura.

Creio que todos já presenciaram os dois tipos de manifestação. Qual vocês preferem e em qual vocês realmente acreditam?

Douglas Fersan