sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Zélio de Moraes por Zélio de Moraes




Com 82 anos de idade, este homem é considerado por um pequeno grupo de umbandistas “o fundador da Umbanda”. Cabelos grisalhos, fisionomia serena e simples, Zélio de Moraes, através de seu guia espiritual, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, só sabe praticar o amor e a humildade.

“_Na minha família todos são da Marinha: almirantes, comandantes, um capitão-de-mar-e-guerra... Só eu que não sou nada” – comentava sorrindo Zélio de Moraes, aos amigos que o visitavam, nessa manhã ensolarada.

E a repórter antes mesmo de se apresentar retrucou:

“_Almirantes ilustres, capitães-de-mar-e-guerra há muitos; o médium do Caboclo das Sete Encruzilhadas, porém, é um só”.

Levantando-se, Zélio de Moraes, magrinho, de estatura mediana, cabelos grisalhos, fisionomia serena e de uma simplicidade sem igual – acolheu-me, como se fôssemos velhos conhecidos. Nesse ambiente cordial, sentindo-me completamente à vontade, possuída de um estranho bem-estar, esquecendo quase a minha função jornalística, iniciei uma palestra, que se prolongaria por várias horas, deixando-me uma impressão inesquecível.

Perguntei-lhe como ocorrera a eclosão de sua mediunidade e de que forma se manifestara, pela primeira vez, o Caboclo das Sete Encruzilhadas.

“_Eu estava paralítico, desenganado pelos médicos. Certo dia, para surpresa de minha família, sentei-me em minha cama e disse que no dia seguinte estaria curado. Isso foi a 14 de novembro de 1908. Eu tinha 18 anos. No dia seguinte amanheci bom. Meus pais eram católicos, mas diante dessa cura inexplicável, resolveram levar-me à Federação Espírita de Niterói, cujo presidente era o senhor José de Souza.

Foi ele mesmo quem me chamou para que ocupasse um lugar à mesa de trabalhos à sua direita. Senti-me deslocado, constrangido, em meio àqueles senhores. E causei logo um pequeno tumulto. Sem saber porque, em dado momento, eu disse: “falta uma flor nessa mesa, vou buscá-la”. E, apesar da advertência de que não poderia me afastar, levantei-me, fui ao jardim e voltei com uma flor que coloquei no centro da mesa.

Serenado o ambiente e iniciados os trabalhos, verifiquei que os espíritos que se apresentavam aos videntes como índios e pretos eram convidados a se afastar. Foi então que, impelido por uma força estranha, levantei-me outra vez e perguntei porque não se podiam manifestar esses espíritos que, embora de aspecto humilde, eram trabalhadores. Estabeleceu-se um debate e um dos videntes, tomando a palavra, indagou:

“_O irmão é um padre jesuíta. Por que fala dessa maneira e qual é o seu nome?”

Respondi sem querer:

“_Amanhã estarei em casa deste aparelho, simbolizando a igualdade e a humildade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E se querem um nome, que seja este: sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas”.

Minha família ficou apavorada. No dia seguinte, verdadeira romaria formou-se na Rua Floriano Peixoto, onde eu morava, no número 30. Parentes, desconhecidos, os tios, que eram sacerdotes católicos, e quase todos os membros da Federação Espírita, naturalmente em busca de uma comprovação. O Caboclo das Sete Encruzilhadas manifestou-se, dando-nos a primeira sessão de Umbanda na forma em que, daí para frente, realizaria seus trabalhos.

Como primeira prova de sua presença, através do passe, curou um paralítico, entregando a conclusão da cura ao Preto-Velho, Pai Antônio, que nesse mesmo dia se apresentou.

Estava criada a primeira Tenda de Umbanda, com o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como a imagem de Maria ampara em seus braços o Filho, seria o amparo de todos que a ela recorressem.

O Caboclo determinou que as sessões seriam diárias, das 20 às 22 horas e o atendimento gratuito, obedecendo o lema “daí de graça o que de graça recebestes”. O uniforme totalmente branco e o sapato tênis.

Desse dia em diante, já ao amanhecer havia gente à porta, em busca de passes, cura e conselhos. Médiuns que não tinham a oportunidade de trabalhar espiritualmente por só receberem entidades que se apresentavam como caboclos e pretos-velhos passaram a cooperar nos trabalhos. Outros, considerados portadores de doenças mentais desconhecidas revelaram-se médiuns excepcionais, de incorporação e de transporte”.

Citando nomes e datas com precisão extraordiária, Zélio de Moraes relata o que foram os primeiros anos de sua atividade mediúnica.

Dez anos depois, o Caboclo da Sete Encruzilhadas anunciou a segunda fase da sua missão: a fundação de sete templos de Umbanda e, nas reuniões mediúnicas que se realizavam às quintas-feiras, foi destacando os médiuns que assumiriam a direção das novas tendas: a primeira com o nome de Nossa Senhora da Conceição e, sucessivamente, Nossa Senhora da Guia, São Pedro, Santa Bárbara, São Jorge, Oxalá e São Jerônimo.

“_ Na época – prossegue Zélio – imperava a feitiçaria, trabalhava-se muito para o mal, através de objetos materiais, aves e animais sacrificados, tudo a preços elevadíssimos. Para combater esses trabalhos de magia negativa, o Caboclo trouxe outra entidade, o Orixá Malé, que destruía esses malefícios e curava obsedados. Ainda hoje isso existe: há que trabalhe para fazer ou desmanchar feitiçarias só para ganhar dinheiro.

Mas eu digo: não há ninguém que possa contar que eu cobrei um tostão pelas curas que se realizavam em nossa casa; milhares de obsedados, encaminhados inclusive pelos médicos dos sanatórios de doentes mentais... E quando apresentavam ao Caboclo a relação desses enfermos, ele indicava os que poderiam ser curados espiritualmente; os outros dependiam de tratamento material”.

Perguntei então a Zélio a sua opinião sobre o sacrifício de animais que alguns médiuns fazem na intenção dos orixás. Zélio absteve-se de opinar, limitou-se a dizer:

“_Os meus guias nunca mandaram sacrificar animais, nem permitiram que se cobrasse um centavo pelos trabalhos efetuados. No Espiritismo não pode pensar em ganhar dinheiro, deve-se pensar em Deus e no preparo para a vida futura”.

O Caboclo das Sete Encruzilhadas não adotava atabaques nem palmas para marcar o ritmo dos cânticos e nem objetos de adorno, como capacetes, cocares, etc. Quanto ao número de guias a ser usado pelo médium, Zélio opinina:

“_A guia deve ser feita de acordo com os protetores que se manifestam. Para o preto-velho deve-se usar a guia de preto-velho; para o caboclo, a guia correspondente ao caboclo. É o bastante, não há necessidade de carregar cinco ou dez guias no pescoço...”

Considera o Exu um espírito trabalhador como todos os outros:

“_O trabalho com os exus requer muitos cuidados. É fácil ao mau médium dar manifestação como exu e ser, na realidade, um espírito atrasado, como acontece também na incorporação com criança. Considero o exu como um espírito que foi despertado das trevas e, progredindo na escala evolutiva, trabalha em benefício dos necessitados.

O Caboclo das Sete Encruzilhadas ensinava que o exu é, como na polícia, o soldado.

O chefe de polícia não prende o malfeitor; o delegado também não prende. Quem prende é o soldado que executa as ordens dos chefes. E o exu é um espírito que se prontifica a fazer o bem, porque cada passo que dá em benefício de alguém é mais uma luz que adquire. Atrair o espírito atrasado que estiver obsedando e afastá-lo é um dos seus trabalhos. E é assim que vai evoluindo. Torna-se, portanto, um auxiliar do orixá.

CINQUENTA ANOS DE ATIVIDADE MEDIÚNICA

Relembrando fatos passados em mais de meio século de atividade espiritualista, Zélio refere-se a centenas de tendas de Umbanda fundadas na Guanabara, Rio de Janeiro, estado de São Paulo, Minas, Espírito Santo, Rio Grande do Sul. A Federação de Umbanda do Brasil, hoje União Espiritista de Umbanda do Brasil, foi criada por determinação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, em 26 de agosto de 1939.

Da Tenda Nossa Senhora da Piedade saíam constantemente médiuns de capacidade comprovada, com a missão de dirigir novos templos umbandistas; entre eles José Meireles, na época deputado federal; José Álvares Pessoa, que deixou uma lembrança indelével de sua extraordinária cultura espiritualista; Martinho Mendes Ferreira, presidente da atual Congregação Espírita Umbandista do Brasil; Carlos Monte de Almeida, um dos diretores de culto da T.U.L.E.F; João Severino Ramos, trabalhando ainda hoje ativamente, inclusive na Assessoria de Culto do Conselho Nacional Deliberativo da Umbanda.

Outros, fugindo às rígidas determinações de humildade e caridade do Caboclo das Sete Encruzilhadas, desvirtuaram normas do culto. Mas a Umbanda, preconizada através da mediunidade de Zélio de Moraes, difundiu-se e hoje podemos encontrar suas características em tendas modestas e nos grandes templos, como o Caminheiros da Verdade a Tenda Mirim, nos quais a orientação de João Carneiro de Almeida e Benjamin Figueiredo mantém elevado nível de espiritualidade, no Primado de Umbanda, uma das mais perfeitas entidades associativas da nossa religião.

Durante mais de cinqüenta anos, o Caboclo da Sete Encruzilhadas dirigiu a Tenda Nossa Senhora da Piedade; após esse tempo, passou a direção à filha mais velha do médium, Zélia, aparelho do Caboclo Sete Flechas. Entretanto, Pai Antônio continua trabalhando, na cabana que mantém o seu nome, localizado num sítio maravilhoso, em Cachoeiras do Macacu. O Caboclo manifesta-se ainda em datas especiais, como foi o exemplo do 63º aniversário daquela tenda. Da gravação feita durante a celebração festiva, reproduzimos para os leitores a gravação final da mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas.

“A Umbanda tem progredido e vai progredir muito ainda. É preciso haver sinceridade, amor de irmão para irmão, para que a vil moeda não venha a destruir o médium, que será mais tarde expulso, como Jesus expulsou os vendilhões do templo.

É preciso estar sempre de prevenção contra os obsessores, que podem atingir o médium. É preciso ter cuidado e haver moral, para que a Umbanda progrida e seja sempre uma Umbanda de humildade, amor e caridade. Essa é a nossa bandeira.

Meus irmãos, sede humildes, trazei amor no coração para que pela vossa mediunidade possa baixar um espírito superior; sempre afinados com a virtude que Jesus pregou na Terra, para que venha buscar socorro em vossas casas de caridade, todo o Brasil... Tenho uma coisa a vos pedir: se Jesus veio à Terra na humildade manjedoura, não foi por acaso, não. Foi porque o Pai assim o determinou.

Que o nascimento de Jesus, o espírito que viria traçar à humanidade o caminho de obter a paz, saúde e felicidade, a humildade em que ele baixou nesse planeta, a estrela que iluminou aquele estábulo, sirva para vós, iluminando vossos espíritos, retirando os escuros da maldade por pensamento, por ações; que Deus perdoe tudo que tiverdes feito ou as maldades que podeis haver pensado, para que a paz possa reinar em vossos corações e em vossos lares.

Eu, meus irmãos, como o menor espírito que baixou à Terra, mas amigo de todos, numa concentração perfeita dos espíritos, que me rodeiam nesse momento, peço que eles sintam a necessidade de cada um de vós e que, ao sairdes desse templo de caridade, encontreis os caminhos abertos, vossos enfermos curados e a saúde para sempre em vossa matéria. Com o meu voto de paz, saúde e felicidade, com humildade, amor e caridade, serei sempre o humilde Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Reportagem feita por Lila Ribeiro, Lucy e Creuza para a revista “Gira de Umbanda”, nº 1, em 1972.
Texto enviado por email por Alexandre Cumino.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Espírita ou Umbandista - por Douglas Fersan



Não raras vezes ouvimos irmãos-de-fé que praticam e freqüentam a Umbanda referirem-se a si próprios como “espíritas”. Fato muito comum.

Mas afinal, são espíritas ou umbandistas?

Muitos responderão cheio de convicção: todo umbandista é espírita. Ora, se é assim, vamos sofismar um pouco: se todo umbandista é espírita, o inverso também vale, ou seja, todo espírita é umbandista, correto?

Obviamente que não. Aliás, se alguém tem alguma dúvida quanto a isso, basta perguntar a um espírita (e nem precisa ser daqueles mais ortodoxos) se ele é umbandista. Certamente a resposta será um belo e redondo “NÃO”.

Estaria errado esse espírita? A resposta mais uma vez é não. Ele está correto, afinal em sua doutrina não se faz oferendas, defumações, não existem pontos cantados ao som dos atabaques, incorporação dos falangeiros dos orixás, etc. Além disso, na própria bibliografia de Kardec, que forma a base doutrinária dos espíritas, está bastante claro que o termo “Espiritismo” refere-se à filosofia descrita ali, no Pentateuco kardequiano, e não às demais práticas espiritualistas.

Mas se o espírita não aceita se declarar como umbandista, por que o contrário deveria acontecer? Deveria, obviamente, mas não isso o que acontece. Muitos e muitos umbandistas se autodenominam espíritas – ou acreditam que realmente o são, não percebendo que existe um leque de diferenças abissais entre as duas religiões.

Para entender melhor essa questão é preciso recorrer à História, sempre sábia e pronta a nos dar respostas.

A corrente umbandista que tem em Zélio Fernandino de Moraes o seu fundador, diz que a Umbanda nasceu em um centro espírita, diante da recusa dos seguidores de Kardec em aceitar a manifestação de espíritos que na sua concepção eram atrasados e/ou ignorantes, como caboclos e pretos-velhos. Essa passagem já serve para nos mostrar que existe uma diferença colossal entre o Espiritismo e a Umbanda, já que o primeiro não aceita a manifestação de espíritos que formam o pilar da segunda.

Mas há quem argumente dizendo que para a espiritualidade não existem fronteiras. Mas para nós existem. Tanto existem que a espiritualidade se dividiu em dezenas de religiões, as mais diversas, para que cada uma atendesse às necessidades das pessoas em seu espaço e tempo. Se as diferenças não fossem necessárias para a compreensão e evolução moral de cada sociedade, a espiritualidade se encarregaria de criar uma religião única. Se as diferenças existem, é porque precisamos delas (alguns podem seguir uma religião mais liberal, pois possuem discernimento para isso; outros precisam de religiões com mais rédeas, pois são pessoas que precisam de mais regras em sua vida, e assim por diante, apenas para exemplificar).

Ainda recorrendo à História, vale lembrar que a Umbanda agrega diversos elementos africanos em sua liturgia – desde os espíritos dos pretos-velhos, até os falangeiros dos orixás e os atabaques – e não é segredo para ninguém que a construção de nossa sociedade se alicerçou em uma ideologia eurocêntrica, que classificava tudo que era de origem africana (leia-se negra) como inferior, atrasada e ruim. Assim, cultos que agregam elementos negros, como a Umbanda e o Candomblé foram vistos como coisa de gente ignorante e atrasada, além de sofrer repressões das mais diversas formas. Não raras vezes, terreiros de Umbanda e Candomblé eram atacados e destruídos. Até hoje existem aqueles que se referem a esse culto como “baixo espiritismo” – puro senso comum e manifestação de desconhecimento.

Durante os primeiros anos da república no Brasil, não eram raras as perseguições. Porém, durante a Era Vargas (1930 – 1945) surgiram vários terreiros de Umbanda que se denominavam espíritas, pois o presidente era simpático ao Espiritismo. Assim, denominando-se espíritas, os umbandistas conseguiam trabalhar em paz, sem ser incomodados pelas autoridades. Surgiram então, diversos terreiros que carregavam o status de “espírita” em seu nome, como “Centro Espírita Caboclo Pena Verde”, “Tenda Espírita Pai João de Angola” e assim por diante.

Ainda hoje muitos aceitam bem o Espiritismo, mas ainda têm reservas com a Umbanda, por não conhecê-la bem. Se alguém se declara espírita é bem aceito, mas se por acaso se declarar umbandista, corre o risco de sofrer algum tipo de preconceito. Por isso muitos preferem se dizer espíritos no lugar de se assumir como umbandistas de fato. Esses o fazem de forma consciente, como um mecanismo de defesa.

Porém existem aqueles que são umbandistas, mas se dizem espíritas e acham que estão corretos, pois acreditam tratar-se da mesma religião. A esses falta entendimento da própria religião que professam e, mais que isso, falta vestir a camisa da Umbanda, sentir orgulho dela.

Mesmo aos que se dizem espíritas como maneira de se defender falta vestir essa camisa. A legislação brasileira garante a liberdade de culto e o respeito aos diferentes credos. Qualquer manifestação de intolerância pode e deve ser denunciado, portanto já passou do momento de vestir a camisa da Umbanda, de se assumir umbandista e ter orgulho dos seus orixás, entidades e fé. Não devemos ter medo dos olhares ignorantes que nos taxam como macumbeiros, feiticeiros ou o que for. Perante eles devemos assumir a nossa condição e dar o bom exemplo, para que compreendam o que realmente é a Umbanda e saiam das trevas da ignorância. Não existem motivos para ficarmos acuados e envergonhados da nossa religião. Não somos a maioria da população (ainda bem, pois a Umbanda não é uma religião de massas, e sim de pessoas preparados para ela), mas temos o direito de ser respeitos e esse direito começa a ser exercido quando perdemos a vergonha de ser o que realmente somos e passamos a ter orgulho da nossa condição.

Espírita é o seguidor de Kardec – ao qual devemos o maior respeito pela linda doutrina que seguem.
Mas nós somos umbandistas, acreditamos no Orixá, cultuamos o preto-velho, o caboclo, as crianças e recebemos a proteção de Exu. Temos rituais próprios, temos sacerdotes e liturgia própria. E nos orgulhamos disso.

Douglas Fersan – 05/01/2012
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sábado, 31 de dezembro de 2011

Mensagem do Templo de Umbanda Lar de Preto Velho para 2012 - por Douglas Fersan



Que em 2012:
O Pai Oxalá aumente e fortaleça nossa fé e que nós sejamos merecedores de falar em seu divino nome.
Que Ogum nos proteja de todo mal e nos dê forças para enfrentar as batalhas diárias.
Que Oxum nos traga a prosperidade e a harmonia tão necessárias para viver nesse mundo.
Que Oxóssi nos dê a ousadia e a bravura dos caboclos, a fim de vencer todos os obstáculos.
Que Iemanjá nos cubra com seu manto azul, dando-nos o conforto nos momentos necessários, como uma mãe caridosa que afaga seus filhos.
Que Iansã gire no tempo e afaste toda negatividade de nosso caminho.
Que Omolu/Obaluaê, Nanã e os pretos velhos nos brindem com sua sabedoria, para que tomemos sempre o rumo certo em 2012.
Que Xangô esteja sempre à nossa frente com seu machado, livrando-nos de toda e qualquer injustiça.
Que as crianças nos ensinem com sua pureza; que jamais deixemos morrer a criança que habita nosso espírito, para tenhamos a sabedoria pura dos pequenos a fim de crescer moralmente e levar a bandeira branca de Oxalá a todos os cantos do mundo.
E que os nossos caminhos estejam sempre abertos pela força e determinação dos compadres Exus e das guardiãs pombogiras.

Que assim seja.

Douglas Fersan - 31/12/2011
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Prefeitura de São Bernardo reabre estrada do Montanhão

Segue o link e a reportagem do Diário do Grande ABC sobre a reabertura da Estrada do Montanhão. Embora a reportagem não cite o fato, é de domínio público que por trás da medida arbitrária de Santo André encontra-se um ato de intolerância religiosa, já que a Estrada do Montanhão é o único acesso ao Santuário Nacional de Umbanda. Fechar a estrada é uma forma de impedir que os umbandistas pratiquem seus cultos de forma segura, respeitosa e livre.
Fica registrado o agradecimento ao prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho, que não baixou a guarda e não permitiu que esse ato de intolerância e injustiça religiosa e social fosse perpetuado.

Douglas Fersan
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São Bernardo abre Estrada do Montanhão
Fábio Munhoz
Do Diário do Grande ABC

Após oito dias fechado, trecho de 1,8 quilômetro da Estrada do Montanhão começou a ser reaberto na tarde de ontem pela Prefeitura de São Bernardo. A parte interditada está localizada no interior do Parque do Pedroso, em Santo André, e faz divisa com os bairros Baraldi e Selecta, em São Bernardo. Devido aos grandes obstáculos colocados, a via só será totalmente liberada hoje.
A Prefeitura de São Bernardo assumiu a responsabilidade pela desobstrução, já que Santo André ignorou liminar concedida pelo Tribunal de Justiça concedida na quinta-feira. O TJ determinou que o Semasa retirasse as barreiras da pista imediatamente. No entanto, a autarquia municipal alega que não foi notificada oficialmente sobre a decisão.
O secretário de Gestão Ambiental de São Bernardo, Giba Marson, explica que a Prefeitura solicitou no Fórum de Santo André permissão para cumprir a liminar. A autorização foi concedida no início da tarde pelo juiz Rodrigo Augusto de Oliveira.
O prefeito Luiz Marinho (PT) criticou a postura do município vizinho. "Santo André fugiu para não ser citado. Agora que conseguimos abrir, espero que o bom-senso prevaleça e o debate seja feito sem inspiração política." Para o petista, o fechamento da estrada fere o direito constitucional de ir e vir. Marinho volta hoje, às 10h, à Estrada do Montanhão para reabrir totalmente a pista.
Na opinião de Marson, o argumento utilizado para a interdição da pista, de que o trânsito local geraria danos ao meio ambiente, é contestável. "A preocupação ambiental nós também temos. Tanto é que vamos criar ecoponto no início da estrada. Mas para que isso dê certo, Santo André deveria fazer o mesmo do outro lado", avalia. O Semasa e a Prefeitura andreense foram procurados, mas não se manifestaram sobre o assunto até o fechamento desta edição.

HISTÓRICO
O processo que pede o fechamento da Estrada do Montanhão corre no Ministério Público desde 1992. A via passa por área de preservação a mananciais. A interdição prejudicou as cerca de 220 famílias que moram no bairro Baraldi. Para chegar ao Parque Selecta de ônibus, o tempo de trajeto aumentou cerca de duas horas e tinha de ser feito por Santo André por causa do bloqueio da pista.


Moradores fazem ‘churrasco da vitória'

A notícia de que a Estrada do Montanhão seria reaberta foi recebida com festa pelos moradores do bairro Baraldi, em São Bernardo. As 220 famílias que residem no local haviam ficado isoladas do município após o fechamento da via. Para comemorar a novidade, foi organizado o Churrasco da Vitória.
"A decisão foi totalmente inesperada. Agora vamos comemorar, pois esses últimos dias foram massacrantes", comenta Daniel Abrahão, presidente da Associação de Moradores do Baraldi.
Para a dona de casa Célia de Fátima Ramos, 48 anos, a reabertura foi recebida como um presente de Natal antecipado. "É uma bênção de Deus. Estamos muito felizes,pois a rotina aqui havia ficado muito difícil. Dava desânimo só de pensar em sair de casa."
Enquanto assava as carnes e uma carpa enrolada em folha de bananeira, o ourives Antônio Sérgio de Moraes, 51, relembrava do momento em que chegou para morar no bairro. "Eu morava no Ipiranga (Zona Sul da Capital) e resolvi vir para cá, pois sempre gostei do contato com a natureza." Ele conta que, após o fechamento da estrada, passou a demorar mais uma hora e 30 minutos para chegar ao trabalho, na Praça da Sé, na Capital.
O churrasco também atraiu motoristas da linha de ônibus 26-Baraldi. "Estamos comemorando com o pessoal do bairro. O fechamento atrapalhou a nossa rotina e a dos moradores, já que o trajeto ficou muito mais demorado", comenta Celso Aparecido do Nascimento, 40.

Fonte: http://www.dgabc.com.br/News/5933500/sao-bernardo-abreestrada-do-montanhao.aspx

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

TJ manda reabrir a Estrada do Montanhão - kaô Kabecile

A justiça dos homens pode até falhar, mas nada passa despercebido pela Justiça Divina. A estrada do Montanhão, que dá acesso ao Santuário Nacional de Umbanda e liga 220 famílias à área urbana foi reaberta por decisão da Justiça.
Segue matéria publicada no Diário do Grande ABC, de 23/12/2011.
Salve Xangô. Kaô Kabecile.
Douglas Fersan
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http://www.dgabc.com.br/News/5933361/tj-manda-reabrir-estrada-do-montanhao.aspx

A Estrada do Montanhão, na divisa entre São Bernardo e Santo André, interditada em parte há oito dias, será reaberta. O Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu liminar, ontem à tarde, em pedido de habeas corpus do Ministério Público, e determinou a reabertura imediata da via. Pelo menos, até o fim do recesso do Judiciário - dia 6 de janeiro. Uma ação civil pública tramita, desde 1992, no Fórum andreense.
A decisão inicial da Justiça de Santo André que determinou o fechamento, no entanto, prejudicou cerca de 220 famílias do bairro Baraldi, em São Bernardo, que ficaram praticamente isoladas após o fechamento da estrada. A propósito: de acesso público. A via liga ao Jardim Selecta, no mesmo município, e corta parte do Parque do Pedroso, localizado em território andreense.
Na sentença do juiz desembargador de plantão no TJ, Eutálio Porto, a pretensão do MP é plausível. "Não se verifica, a priori, que a liberação do trânsito possa causar impacto ambiental com prejuízo irreparável ao parque".
Esse foi o motivo alegado pela Promotoria de Justiça de Meio Ambiente de Santo André, autora da ação civil pública. O parque está localizado em área de manancial. E que foi julgada procedente pela juíza de Direito da 1ª Vara da Fazenda Pública de Santo André ao determinar o recente fechamento da estrada.
Vale ressaltar, porém, que a interdição da via nunca foi pedida nos autos. E sim a fiscalização da área, com guaritas e cancelas. O que caberia à Prefeitura de Santo André, ré na ação, mas não feita até hoje.
Diante do impedimento do direito constitucional de ir e vir, entre outros fundamentos legais, os promotores Jairo Edward de Luca e Maximiliano Roberto Ernesto Führer interpuseram o habeas corpus para que fosse determinada a reabertura da Estrada do Montanhão com urgência. "... permitindo-se a passagem dos moradores e dos ônibus regulares até que os envolvidos na disputa judiciária implantem fiscalização eficiente ou construam outra rodovia... sem a imposição de qualquer espécie de ônus aos moradores do bairro Baraldi".
A notícia da abertura da via foi, inicialmente, festejada pelo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), contrário à interdição. "Eu não posso mandar abrir. Se pudesse, faria, mas quem tem de fazer isso é quem fechou." Hoje, a administração enviará ofícios para os órgãos envolvidos, desde Justiça até Prefeitura de Santo André.
O Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André, responsável pela fiscalização da área, informou que não havia sido comunicado da decisão.

Pedido para fechar a via tramita na Justiça desde 1992

A reabertura da Estrada do Montanhão será mais um capítulo na conturbada história de interdição da via que corta São Bernardo e Santo André em área de proteção ambiental. O processo de fechamento tramita na Justiça desde 1992.
O trecho tem aproximadamente cinco quilômetros, entre o Jardim Silvina, em São Bernardo, e o Parque do Pedroso, em Santo André. O suposto impacto causado à natureza é o que motivou o Ministério Público de Santo André a pedir o fechamento da estrada.
A Prefeitura de São Bernardo argumenta que o bloqueio deixa sem saída as cerca de 220 famílias que moram no bairro Baraldi, além de dificultar o acesso ao Santuário Nacional de Umbanda.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Pela reabertura da estrada que leva ao Santuário Nacional de Umbanda - por Douglas Fersan



Parece impossível, mas não é.

Quando Pai Ronaldo Linares encampou o espaço que hoje constitui o Santuário Nacional de Umbanda, a área era uma pedreira, constantemente agredida pela atividade comercial. Ao instalar ali o Santuário, houve não apenas a preocupação de criar um local onde umbandistas e seguidores de cultos afro-descendentes pudessem realizar seus trabalhos sem serem incomodados e sem incomodar ninguém. Existiu também a preocupação com a questão ecológica, já que o Santuário hoje é uma reserva que abriga diversas espécies animais, tratadas com o devido respeito (para se ter uma ideia, o encerramento dos trabalhos ocorrem sempre antes das 16 horas, para que a movimentação não incomode o descanso dos pássaros que habitam o local), além das espécies vegetais, típicas da Mata Atlântica. Com respeito e dedicação a história do Santuário foi construída e mesmo seguidores de outras religiões reconhecem a importância e a inovação do lugar. A antiga pedreira deu lugar a uma reserva ecológica, bonita, que faz bem aos olhos, aos pulmões e à alma.

Mas parece que nem todos pensam assim. Parece que nem todos os religiosos de outros segmentos possuem a tolerância que tanto se prega. Já faz um bom tempo que tentam, através dos mais absurdos argumentos, colocar fim ao trabalho iniciado por Pai Ronaldo e que tanto beneficia a nós, filho de Umbanda. Várias tentativas foram feitas para fechar o Santuário, todas vãs. Restou uma alternativa: impedir o acesso dos umbandistas ao local.

Após um longo entrave judicial, a juíza Ana Xavier Goldman acatou a solicitação do promotor José Luiz Saikali, do Ministério Público do Meio Ambiente de Santo André e determinou que o acesso ao Santuário, pelo trecho andreense (mais curto e, portanto, menos agressivo ao meio-ambiente) fosse fechado.

Crendo na bom senso da Justiça, nas pessoas da juíza e do promotor, esperamos que a decisão seja reavaliada, não só pela comodidade dos umbandistas (que por sua fé continuarão seus trabalhos, mesmo tendo que enfrentar uma distância maior), mas também por entender que a movimentação pelo trecho andreense causa menos impacto à natureza e que o direito de ir e vir, garantido pela nossa Carta Magna, conquistada a duras penas, seja garantido.

Vamos repassar essa mensagem através das diversas redes sociais, além de emails, blogs e sites. Como umbandistas e cidadãos, cumpriremos a decisão da justiça, mas como tais, vamos questionar e debater até onde a lei nos permitir.

E que não percamos a fé, jamais. Que ela seja maior que a distância a ser percorrida. Que nosso pai Xangô permita que a justiça abra os caminhos para possamos louvar nossos orixás com tranquilidade e respeito.

Repasse essa mensagem ao maior número de pessoas que puder. A natureza e os orixás agradecem.

Douglas Fersan – dezembro de 2011.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Raiz e Fé: um estudo sobre a Umbanda (parte 2) - E surgiu a Umbanda (outra breve introdução) - por Douglas Fersan

Dando continuidade à publicação de uma série de textos que produzi com o objetivo de olhar a Umbanda sob um prisma histórico e sociológico, segue "E surgiu a Umbanda (outra breve introdução)". Esse texto foi publicado originalmente no jornal Região em Destaque, em janeiro de 2009. Como sua temática se encaixa perfeitamente no objetivo desse trabalho, resolvi republicá-lo aqui, com algumas pequenas adaptação.
Peço àqueles que quiserem utilizá-lo em sites ou blogs, que apenas preservem a fonte.

Douglas Fersan



Entender a Umbanda é entender o Brasil. Um país rico em variedades étnicas e culturais só pode ser resultado de uma intensa miscigenação ao longo de
seu processo de formação histórica e que ainda hoje mostra-se em
movimento. Diversos elementos contribuíram para a formação desse imenso
país e essa variedade de costumes que o caracteriza. Do seu elemento
étnico primordial – o indígena – pouco restou, levando-se em conta o
massacre de que foram vítimas. No entanto, herdamos vários de seus
costumes e crenças, dos quais podemos destacar diversos topônimos e o
uso de ervas para fins ritualísticos e medicinais.

O colonizador europeu não tardou a impor seus hábitos e crenças, assim, o catolicismo e toda sua liturgia foi introduzido no Brasil, passando a fazer parte da própria identidade nacional. Mais um elemento incorporava-se à massa humana e cultural que formava a nossa população.

Grande e inegável contribuição para esse processo foi dada pelos negros, que vieram cativos da África. Proibidos de realizar seus cultos, nos quais adoravam os Orixás, Inkisies e Voduns – divindades provenientes do panteão africano – trataram logo de encontrar um subterfúgio para garantir a sobrevivência de sua crença: associaram os Orixás aos santos católicos, assim podendo realizar seu culto sem a interferência violenta de seus patrões. Foi criado então, o sincretismo entre santos católicos e divindades africanas e, dessa maneira, os negros deixavam fincadas suas raízes de forma definitiva, na cultura brasileira – era mais um importante elemento que se agregava.

Mais tarde, já na segunda metgade do século XIX, em plena febre do positivismo europeu, surge na França, através do pedagogo Hippolyte León Denizard Rivail (que tornou-se conhecido com o codinome de Alan Kardec), a Doutrina Espírita ou Espiritismo, que tenta levar a comunicação com os espíritos à luz da ciência, além de definir padrões morais e filosóficos sobre questões como a morte, pecado, culpa e carma. Essa nova doutrina encontrou vários adeptos entre a classe média brasileira, e assim, o Espiritismo tornou-se mais popular no Brasil do que em seu país de origem.

A população brasileira, no entanto, assimilou todos esses elementos (e outros mais) e, salvo casos em quem o sectarismo não permitia, criou um verdadeiro emaranhado de todas essas crenças e, mesmo quem se declarava católico “praticante” não titubeava em procurar uma benzedeira ou em fazer uma simpatia. Ao contrário do que pode parecer, isso não significava a falta de uma identidade definica; era a própria identidade nacional que se definia. Dessa maneira, variados cultos proliferaram pelo Brasil afora – como o Catimbó, o Batuque, o Tambor de Mina e o Xangô (o culto, não o Orixá), sem falar nas macumbas cariocas, que embora alguns estudiosos afirmem que ainda não fossem designadas como Umbanda, já apresentavam todo o esboço de sua liturgia.

Embora o Espiritismo estivesse inserido na mentalidade da população brasileira, ele era praticado principalmente pela classe média – que tinha mais acesso às obras literárias dessa doutrina, e que carregava consigo seus conceitos e preconceito. Foi dentro desse contexto que o jovem Zélio Fernandino de Moraes, em 1908, contando com dezessete anos de idade, incorporou, em uma mesa espírita, o Caboclo das Sete Encruzilhadas (um espírito indígena, mas que segundo um médium vidente, assemelhava-se, pelas vestes, a um sacerdote católico) que, diante da reação dos presentes, que não aceitavam a manifestação de espíritos de índios e negros escravos, declarou que estava fundada ali a Umbanda, “uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados”. Para muitos esse fato é tido como a fundação da Umbanda, para outros ela já existia na prática há muito tempo, sendo essa passagem apenas mais uma manifestação de um caboclo, espírito tão comum em seus rituais. A verdade é que, sendo o Caboclo das Sete Encruzilhadas o fundador ou não, a Umbanda é o próprio retrato do Brasil, do processo histórico que o marcou tão profundamente, dos povos que o construíram, da identidade que assumiu para si. Assim como o povo brasileiro, a Umbanda é diversa, contendo em si elementos de diversas crenças que existem no país: a pajelança, o culto aos Orixás, o Catolicismo, o Espiritismo. Históricamente falando, a Umbanda é brasileira em sua essência, pois carrega consigo cada traço e cada cicatriz do povo que construiu o Brasil, suas crenças, seus hábitos e sua fé, mas também é universalista por excelência, pois agrega elementos de diversas partes do mundo. Do primeiro contato entre os diferentes povos e sua diversidade surgiu a Umbanda, ainda hoje presente de maneira discreta – às vezes nem tanto – em todas as regiões do país.

Douglas Fersan