domingo, 27 de dezembro de 2009

Uma noite muito estranha - Mensagem para 2010.




Foi, não há muito tempo atrás, que essa história aconteceu.
Contada aqui de uma forma romanceada, mas que trás em sua essência, uma verdadeira mensagem para os umbandistas.
Ela começa em uma noite escura e assustadora, daquelas de arrepiar os pêlos do corpo.
Realmente o Sol tinha se escondido nesse dia, e a Lua, tímida, teimava em não iluminar com seus encantadores raios, brilhosos como fios de prata, a morada dos Orixás.
Nessa estranha noite, Ogum, o Orixá das "guerras", saiu do alto ponto onde guarda todos os caminhos e dirigiu–se ao mar.
Lá chegando, as sereias começaram a cantar e os seres aquáticos agitaram–se. Todos adoravam Ogum, ele era tão forte e corajoso.
Yemanjá que tem nele um filho querido, logo abriu um sorriso, aqueles de mãe "coruja" quando revê um filho que há tempos partiu de sua casa, mas nunca de sua eterna morada dentro do coração.
Ah Ogum, que saudade, já faz tanto tempo!
Você podia vir visitar mais vezes sua mãe, não é mesmo?
Ralhou Yemanjá, com aquele tom típico de contrariedade.
Desculpe, minha Mãe, ando meio ocupado.
Respondeu um triste Ogum.
Mas, o que aconteceu, meu filho?
Sinto que estás triste.
É, vim até aqui para "desabafar" com você "mãezinha".
Estou cansado!
Estou cansado de muitas coisas que os encarnados fazem em meu nome.
Estou cansado com o que eles fazem com a "Espada da Lei", que julgam carregar. Estou cansado de tanta demanda.
Estou muito mais cansado das "supostas" demandas, que apenas existem dentro do íntimo de cada um deles...
Estou cansado...
Ogum retirou seu elmo, e por de trás de seu bonito capacete, um rosto belo e de traços fortes pôde ser visto.
Ele chorava.
Chorava uma dor que carregava há tempos.
Chorava por ser tão mal compreendido pelos filhos de Umbanda.
Chorava por ninguém entender, que se ele era daquele jeito, protetor e austero, era porque em seu peito a chama da compaixão brilhava.
E, se existe um Orixá leal, fiel e companheiro, esse Orixá é Ogum.
Ele daria a própria Vida, por cada pessoa da humanidade, não apenas pelos filhos de fé.
Não!
Ogum ama toda humanidade, ama a Vida.
Mas infelizmente suas atribuições não eram realmente entendidas.
As pessoas não viam em sua espada, a força que corta as trevas do ego, e logo a transformavam em um instrumento de guerra.
Não via nele a potência e a força de vencer os abismos profundos, que criam verdadeiros vales de trevas na alma de todos.
Não viam em sua lança, a direção que aponta para o autoconhecimento, para iluminação interna e eterna.
Não!
Infelizmente ele era entendido como o "Orixá da Guerra".
Um homem impiedoso que se utiliza de sua espada para resolver qualquer situação.
E logo, inspirados por isso, lá iam os filhos de fé esquecer dos trabalhos de assistência a espíritos sofredores, a almas perdidas entre mundos, aos trabalhos de cura, esqueciam do amor e da compaixão, sentimentos básicos em qualquer trabalho espiritual, para apenas realizaram "quebras e cortes" de demandas, muitas das quais nem mesmo existem, ou quando existem, muitas vezes são apenas reflexos do próprio estado de espírito de cada um.
E mais, normalmente, tudo isso se torna uma guerra de vaidade, um show "pirotécnico" de forças ocultas.
Muita "espada", muito "tridente", muitas "armas", pouco coração, pensamento elevado e crescimento espiritual.
Isso magoava Ogum.
Como magoava:
Ah, filhos de Umbanda, por que vocês esquecem que Umbanda é pura e simplesmente amor e caridade?
A minha espada sempre protege o justo, o correto, aquele que trabalha pela luz, fiando seu coração em Olorum.
Por que esquecem que a Espada da Lei só pode ser manuseada pela mão direita do amor, insistindo em empunhá-la com a mão esquerda da soberbia, do poder transitório, da ira, da ilusão, transformando-a em apenas mais uma espada semeadora de tormentos e destruição...
Então, Ogum começou a retirar sua armadura, que representava a proteção e firmeza no caminho espiritual que esse Orixá traz para nossa vida.
E totalmente nu ficou frente à Yemanjá.
Cravou sua espada no solo.
Não queria mais lutar, não daquele jeito.
Estava cansado...
Logo um estrondo foi ouvido e o querido, mas também temido Omulu apareceu.
E por incrível que pareça o mesmo aconteceu.
Ele não agüentava mais ser visto como uma divindade da peste e da magia negativa. Não entendia, como ele, o guardião da Vida podia ser invocado para atentar contra ela.
Magoava–se por sua alfanje da morte, que é o princípio que a tudo destrói, para que então a mudança e a renovação aconteçam, ser tão temida e mal compreendida pelos homens.
Ele também deixou sua alfanje aos pés de Yemanjá, e retirou seu manto escuro como a noite.
Logo se via o mais lindo dos Orixás, aquele que usa uma cobertura para não cegar os seus filhos com a imensa luz de amor e paz que se irradia de todo seu ser.
A luz que cura, a luz que pacifica, aquela que recolhe todas as almas que se perderam na senda do Criador.
Infelizmente os filhos de fé esquecem-se disso...
Mas o mais incrível estava por acontecer.
Uma tempestade começou a desabar aumentando ainda mais o aspecto incrível e tenebroso daquela estranha noite.
E todos os outros Orixás começaram a aparecer, para logo, começarem também a despir suas vestimentas sagradas, além de deixarem ao pé de Yemanjá suas armas e ferramentas simbólicas.
Faziam isso em respeito a Ogum e Omulu, dois Orixás muito mal compreendidos pelos umbandistas.
Faziam isso por si próprios.
Iansã queria que as pessoas entendessem que seus ventos sagrados são o sopro de Olorum, que espalha as sementes de luz do seu amor.
Oxossi queria ser reverenciado como aquele que, com flechas douradas de conhecimento, rasga as trevas da ignorância.
Um a um, todos foram se despindo e pensando quanto os filhos de Umbanda compreendiam erroneamente os Orixás.
Yemanjá, totalmente surpresa e sem reação, não sabia o que fazer.
Foi quando uma irônica gargalhada cortou o ambiente.
Era Exu.
O controvertido Orixá das encruzilhadas, o mensageiro, o guardião, também chegava para a reunião, acompanhado de PombaGira, sua companheira eterna de jornada. Mas os dois estavam muito diferentes de como normalmente se apresentam.
Andavam curvados, como que segurando um grande peso nas costas.
Tinham na face, a expressão do cansaço.
Mas, mesmo assim, gargalhavam muito.
Eles nunca perdiam o senso de humor!
E os dois também repetiram aquilo que todos os Orixás foram fazer na casa de Yemanjá.
Despiram–se de tudo.
Exu e Pombagira, sem dúvida, eram os que mais razões tinham de ali estarem. Inúmeros eram os absurdos cometidos por encarnados em nome deles.
Sem contar o preconceito, que o próprio umbandista ajudou a criar, dentro da sociedade, associando–o a figura do Diabo:
—Hahaha, lamentável essa situação, hahaha, lamentável!
—Exu chorava, mas Exu continuava a sorrir.
Essa era a natureza desse querido Orixá.
Yemanjá estava desesperada!
Estavam todos lá, pedindo a ela um conforto.
Mas nem mesmo a encantadora Rainha do Mar sabia o que fazer:
Espere! Pensou Yemanjá!
Oxalá! Oxalá não está aqui!
Ele com certeza saberá como resolver essa situação.
E logo Yemanjá colocou-se em oração, pedindo a presença daquele que é o Rei entre os Orixás.
Oxalá apresentou-se na frente de todos.
Trazia seu opaxorô, o cajado que sustenta o mundo.
Cravou ele na Terra, ao lado da espada de Ogum.
Também despiu-se de sua roupa sagrada, pra igualar-se a todos, e sua voz ecoou pelos quatro cantos do Orun:
Olorum manda uma mensagem a todos vocês meus irmãos queridos!
Ele diz para que não desanimem, pois, se poucos realmente os compreendem aqueles que assim o fazem, não medem esforços para disseminar essas verdades divinas.
Fechem os olhos e vejam, que mesmo com muita tolice e bobagem relacionada e feita em nossos nomes, muita luz e amor também está sendo semeado, regado e colhido, por mãos de sérios e puros trabalhadores nesse às vezes triste, mas abençoado planeta Terra.
Esses verdadeiros filhos de fé que lutam por uma Umbanda séria, sem os absurdos que por aí acontecem.
Esses que muito além de "apenas" prestarem o socorro espiritual, plantam as sementes do amor dentro do coração de milhares de pessoas.
Esses que passam por cima das dificuldades materiais, e das pressões espirituais, realizando um trabalho magnífico, atendendo milhares na matéria, mas também, milhões no astral, construindo verdadeiras "bases de luz" na crosta, onde a espiritualidade e religiosidade verdadeira irão manifestar-se.
Esses que realmente nos compreendem e buscam-nos dentro do coração espiritual, pois é lá que o verdadeiro Orun reside e existe.
Esses incríveis filhos de Umbanda, que não colocam as responsabilidades da vida deles em nossas costas, mas sim, entendem que tudo depende exclusivamente deles mesmos.
Esses fantásticos trabalhadores anônimos, soltos pelo Brasil e pelo mundo, que honram e enchem a Umbanda de alegria, fazendo a filhinha mais nova de Olorum brilhar e sorrir...
Quando Oxalá se calou os Orixás estavam mudados.
Todos eles tinham suas esperanças recuperadas.
Realmente viram que se poucos os compreendiam.
Grande era o trabalho que estava sendo realizado, e talvez, daqui algum tempo, muitos outros iriam se juntar nesse ideal.
E aquilo os alegrou tanto que todos começaram a assumir suas verdadeiras formas, que são de luzes fulgurantes e indescritíveis.
E lá, do plano celeste, brilharam e derramaram-se em amor e compaixão pela humanidade.
Em Aruanda, os Caboclos, Pretos Velhos e Crianças, fizeram o mesmo.
Largaram tudo, também se despiram e manifestaram sua essência de luz, sua humildade e sabedoria comungando a benção dos Orixás.
Na Terra, Baianos, Marinheiros, Boiadeiros, Ciganos e todos os povos de Umbanda, sorriam.
Aquelas luzes que vinham lá do alto os saudavam e abençoavam seus abnegados e difíceis trabalhos.
Uma alegria e bem–aventurança incríveis invadiram seus corações.
Largaram as armas.
Apenas sorriam e abraçavam-se.
O alto os abençoava...
Mas, uma ação dos Orixás nunca fica limitada, pois é divina, alcançando assim, a tudo e a todos.
E lá no baixo astral, aqueles guardiões e guardiãs da lei nas trevas também foram alcançados pelas luzes Deles, os Senhores do Alto.
Largaram as armas, as capas, e lavaram suas sofridas almas com aquele banho de luz.
Lavaram seus corações, magoados por tanta tolice dita e cometida em nome deles. Exus e Pomba-Giras, naquele dia foram tocados pelo amor dos Orixás
Com certeza, aquilo daria força para mais muitos milênios de lutas insaciáveis pela Luz.
Miríades de espíritos foram retirados do baixo–astral, e pela vibração dos Orixás puderam ser encaminhados novamente à senda que leva ao Criador.
E na matéria toda a humanidade foi abençoada.
Aos tolos que pensam que Orixás pertencem a uma única religião ou a um povo e tradição, um alerta:
"Os Orixás amam a humanidade inteira, e por todos olham carinhosamente".
Aquela noite que tinha tudo para ser uma das mais terríveis de todos os tempos, tornou–se benção na vida de todos.
Do alto ao embaixo, da esquerda até a direita, as egrégoras de paz e luz deram as mãos e comungaram daquele presente celeste, vindo diretamente do Orun, a morada celestial dos Orixás.
Nós, filhos de Umbanda, pensemos bem!
Não transformemos a Umbanda em um campo de guerra, onde os Orixás são vistos como "armas" para acertarmos nossas contas terrenas.
Muito menos esqueçamos do amor e compaixão, chaves de acesso ao mistério de qualquer um deles.
Umbanda é simples, é puro sentimento, alegria e razão.
Lembremo-nos sempre disso.
E quanto a todos aqueles, que lutam por uma Umbanda séria, esclarecida e verdadeira, independente da linha seguida, lembrem–se das palavras de Oxalá ditas linhas acima.
Não desanimem com aqueles que vos criticam, não fraquejem por aqueles que não têm olhos para ver o brilho da verdadeira espiritualidade.
Lembrem–se que vocês também inspiram e enchem os Orixás de alegria e esperança.

Esse texto é dedicado a todos que lutam pela Umbanda nessa Terra de Orixás!
Honrem a Eles.
Sejam Luz, assim como Eles!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Resenha do 1º Seminário da Integração do Povo de Santo para os Direitos Humanos



Foi um primeiro encontro. E como tal, envolvia o ambiente em uma aura de tensão e nervosismo, principalmente os organizadores, marinheiros de primeira viagem na difícil empreitada de reunir pessoas aptas e dispostas a debater questões ligadas aos Direitos Humanos dentro das religiões de matriz afro-brasileira.

Os convidados foram escolhidos criteriosamente: não precisávamos de estrelas, e sim de pessoas sérias a comprometidas com a luta pelo respeito que tanto almejamos. Assim, convidamos o Pai Alexandre Cumino, do Colégio de Umbanda Sagrada Pena Branca, autor dos livros “Deus, Deuses e Divindades” e “Deus, Deuses, Divindades e Anjos”, e editor do JUS – Jornal de Umbanda Sagrada – o periódico de temática umbandista de maior circulação no país. Convidamos também o Pai Adriano Camargo, do Templo Escola Ventos de Aruanda, em São Bernardo do Campo. Conhecido como “o erveiro”, Pai Adriano Camargo é uma referência na Umbanda quando o assunto são as ervas para fins rituais e espirituais. Também nos brindou com a sua presença a Iyá Ekedji Ogunlade, uma importante e conhecida militante dos direitos das religiões afro-brasileiras e na luta constra a intolerância religiosa e étnica.

Outros nomes de destaque que compareceram: Pai Claudinei de Ogum, do Templo Pai Thomé de Aruanda, Babalorixá Pai Celso de Oxalá, Ogan Juvenal (representando o Supremo Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo - SOUESP).

Os trabalhos iniciaram por volta das 19 horas, com a apresentação do power point “Os filhos da resistência” (que em breve será disponibilizado nesse blog). Em seguida os participantes foram convidados a falar.

Temas relevantes foram abordados (conforme será publicado em ata oficial), sempre lembrando a importância de unir forças entre as diversas vertentes da Umbanda e do Candomblé, formando uma só voz na luta pelo respeito ao Povo do Santo.

Também foi ressaltada a importância do orgulho umbandista/candomblecista. Assumir a própria religião é um primeiro passo rumo ao reconhecimento e o respeito pela mesma.

Em sua fala, Pai Alexandre Cumino lembrou que a Constituição brasileira já garante os direitos aos mais diversos cultos, com leis que os amparam e protegem. O que falta – e, portanto, deve ser objeto de nossa luta – é o cumprimento dessas leis.

Pai Claudinei de Ogum, em sua intervenção, falou que a Umbanda nada tem a conquistar, e sim a reconquistar "algo" que vem se perdendo ao longo das décadas. Deve-se então incluir na pauta, a luta pela reconquista do respeito à nossa crença e tradições.

A nossa amiga e irmã Iyá Ekedji Ogunlade discursou sobre sua militância incansável na luta pelos direitos das religiões afro-brasileiras e contra a discriminação religiosa e racial. Falou sobre as dificuldades que enfrenta para fazer garantir a representatividade dos nossos segmentos religiosos nos eventos e fóruns dos quais participa e, mesmo sendo do Candomblé, por vezes se vê obrigada a representar a Umbanda (o que disse fazer com muito prazer, mas ainda assim sente a necessidade da presença dos irmãos umbandistas). Por essas razões, pediu maior união entre o Povo do Santo, esquecendo suas diferenças internas para buscar o bem comum.

Vale citar o momento em que os jovens umbandistas do templo do também jovem Pai Rafael se manifestaram, declarando seu amor pela Umbanda e a disposição de lutar pelo respeito à sua crença. Esse foi, talvez, um dos momentos de maior emoção do evento.

O convite ao seminário foi enviado a aproximadamente 35.000 pessoas através da WEB. No entanto poucos atenderam ao chamado (em torno de 30 pessoas apenas), o que nos dá a certeza de que temos que nos mobilizar ainda mais e de forma mais organizada a fim de sensibilizar nossos irmãos para regar essa pequena semente que foi plantada em 23/1/2009, para que ela germine, floresça e de frutos, com as bênçãos de
Zambi, de todos os orixás e, principalmente, do nosso divino Pai Oxalá.


Organizadores:
Douglas Fersan
Jordam Godinho

Apoio:
Vereador Ítalo Cardoso
Deputado Rui Falcão
João Galvino

Colaboradores:
Maria do Carmo Godinho
R. Meirelles
Silvio Garcia
Pai Claudinei de Ogum

Secretária:
Denise Fersan

Convidados:
Pai Alexandre Cumino
Pai Adriano Camargo
Ogan Juvenal (SOUESP)
Pai Celso de Oxalá
Ekedji Iyá Ogunlade

Agradecimentos a todos os participantes, que enfrentaram o trânsito caótico de São Paulo em uma tarde chuvosa para declarar o seu amor aos Orixás.


Registro fotográfico do evento:


Foto coletiva antes do início do Seminário



Os organizadores do Seminário, Douglas Fersan e Jordam Godinho com a Ekedji Iyá Ogunlade - Presença marcante no evento.



Pai Alexandre Cumino (ao microfone) e Pai Adriano Camargo (à esquerda): dois nomes importantes que nos brindaram com sua inteligência, humildade e amor verdadeiro pela Umbanda.



Pai Alexandre Cumino, Babalorixá Celso de Oxalá, Jordam Godinho e Douglas Fersan no encerramento dos trabalhos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

É momento de lutar




Talvez o comodismo seja o pior sintoma da letargia, a falta de ação, a contemplação muda, improdutiva e ineficaz diante dos fatos.
Quando nada se faz, nada se consegue. Dar os primeiros passos em direção àquilo que se almeja é não somente lutar para atingir os objetivos, mas é, principalmente, dar exemplo àqueles que estão nesse estado de inércia, mostrando a eles que a transformação, ainda que lenta, é possível.
Acreditando na possibilidade de iniciar um movimento pela dignidade do Povo de Santo, fazendo valer seus direitos e, mais ainda, levando a ele a compreensão de seu papel social, enquanto agente cultural, religioso e cidadão, é que realizaremos na próxima segunda-feira, dia 23 de novembro de 2009, a partir das 18 horas, no São Tiradentes, no oitavo andar da Câmara Municipal de São Paulo, o Primeiro Seminário de Integração do Povo de Santo para os Direitos Humanos, onde temas relevantes à nossa crença serão debatidos.
Não se trata de um movimento política, e sim de uma ação pelo reconhecimento dos direitos do Povo de Santo (Umbanda, Candomblé e afins) perante a sociedade. Assim, levaremos os seguintes assuntos à pauta de discussões:

• Os direitos das religiões afro-descendentes e a tolerância religiosa;
• os direitos e deveres jurídicos das casas de Umbanda e Candomblé;
• isenção de impostos para templos religiosos (questão que varia de acordo com as legislações municipais);
• regularização das casas de Umbanda, a fim de ter seus direitos garantidos;
• espaços públicos para realização de rituais;
• criação de centros de referência e memória das religiões afro-descendentes.

Nomes já confirmados:
Alexandre Cumino: sacerdote de Umbanda, autor do livro “Deus, Deuses e Divindades”, diretor responsável pelo Jornal de Umbanda Sagrada, o maior periódico de temática umbandista e mestre do Curso de Teologia de Umbanda.

Vereador Ítalo Cardoso: presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo.

Deputado Rui Falcão: jornalista atuante na Folha de São Paulo, advogado, conhecido pelas suas lutas pelos direitos humanos e pela democracia.

A confirmar:
Dr. Hédio Silva Jr: Mestre e doutor em direito pela PUC, cnsultor da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, Consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, importante nome nas lutas contra a intolerância racial e religiosa.

Esse pequeno e modesto movimento, comparado a um “passo de formiguinha”, será o pontapé inicial para o debate em outras regiões e municípios, ampliando o debate sobre os direitos do Povo de Santo. Contamos com a sua presença

Organizadores:
Jordam Godinho
Douglas Fersan
João Galvino

Colaboradores:
R. Meirelles
Silvio Garcia
Jairo Pereira Jr

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

1º Seminário da Integração do Povo de Santo para os Direitos Humanos



Toda apatia gera omissão. É momento de agir.

A Constituição brasileira, promulgada em 1988 garante o respeito aos diversos cultos religiosos existentes no país, mas será que apenas saber isso nos basta?
O Povo do Santo, filhos de Umbanda e Candomblé, precisa manter essa questão sempre em pauta, pois são inúmeros os ataques que acontecem aos nossos cultos, seja de forma mais velada, através de chacotas aparentemente inocentes, mas carregadas de preconceito, ou mesmo ações mais violentas, propagadas inclusive pela grande mídia.
Discutir os nossos direitos e deveres é levar adiante a bandeira de Oxalá, de forma responsável e chamar para si o respeito que nossa religião tanto merece, não apenas por ser a nossa crença, mas também o resultado do sacrifício de um povo que não abdicou de sua fé diante da violência de seu opressor.

Com essa consciência - e com o espírito do respeito ecumênico – é que se realizará em 23/11/2009, na Câmara Municipal de São Paulo, o 1º Seminário da Integração do Povo de Santo para os Direitos Humanos, a partir das 18 horas, tendo como principais objetivos a discussão dos seguintes temas:

• Os direitos das religiões afro-descendentes e a tolerância religiosa;
• os direitos e deveres jurídicos das casas de Umbanda e Candomblé;
• isenção de impostos para templos religiosos (questão que varia de acordo com as legislações municipais);
• regularização das casas de Umbanda, a fim de ter seus direitos garantidos;
• espaços públicos para realização de rituais;
• criação de centros de referência e memória das religiões afro-descendentes.

Haverá também, na ocasião, apresentação musical da Escola de Curimba Toque de Vida e do grupo de dança típica “Companhia de Moçambique Família Feliciano”.

A realização desse seminário, que conta com o apoio do vereador Ítalo Cardoso (presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo) é apenas um primeiro passo em direção a uma discussão mais ampla, em outros municípios, atingindo de forma positiva e beneficiando o maior número possível de irmãos-de-fé. Não existem interesses políticos envolvidos no evento, os únicos objetivos são relacionados aos direitos do povo de Umbanda e Candomblé.

Os nomes dos participantes da mesa de debates ainda serão confirmados e divulgados oportunamente. É interessante que o maior número de terreiros envie seus representantes, a fim de integrar-se sobre os nossos direitos e garantir o sucesso do seminário.

Maiores informações poderão ser fornecidas através do email douglasfersan@uol.com.br.

sábado, 3 de outubro de 2009

Depois da Tempestade



Convido você, meu irmão, que está lendo este artigo a parar e pensar num momento de grande conquista e realização.
Pronto!
Agora pense nos momentos que antecederam essa conquista?
Pronto novamente!
Se você pensar bem, quando você tem uma grande conquista, ela sempre vem precedida de um grande momento caótico.
Lembra-se? Que sempre antes das suas grandes conquistas o momento não estava nada bom?
Você achava que não conseguiria, mas no final conseguiu. Mesmo com todo o caos, com toda apreensão e com toda desconfiança de todos, no fim tudo deu certo.
Assim foi, assim é e assim será sempre.
Se o ditado diz que “depois da tempestade sempre vem a bonança”, porque não dizer que “antes da bonança sempre vem uma tempestade”.
Esta é nossa vida. Para conseguirmos coisas boas devemos passar por privações e provações. Para que as conquistas sejam valorizadas precisamos enfrentar os momentos caóticos. Para alcançar a calmaria do oceano precisamos ultrapassar a tormenta da arrebentação.
Não acredite que você é o único a passar por momentos ruins. Na realidade todos estamos sujeitos a isto. Todos temos momentos ruins. Só depende de você saber aonde este momento vai te levar.
Para que haja paz é preciso vencer a guerra. Só que está guerra é particular, travada por você contra você mesmo, e deve servir como propulsor para suas conquistas.
Então, lembre-se de outro ditado popular: “Não há mal que sempre dure e nem bem que sempre perdure”, seja forte, tenha fé e acredite que é nesses momentos de caos que crescemos espiritualmente.

Jairo Pereira Jr. - 2009
Professor de Economia e Matemática
35 anos, casado, 2 filhos e Umbandista

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Crítica ao livro "Um conto da Bahia", de Douglas Fersan




“Os pássaros revoaram sobre a imensidão azul, tornando-se apenas vultos ao se colocar contra a luz do sol. O farfalhar das asas no vôo rasante produziu uma brisa agradável, contrastando com o calor escaldante daquele janeiro de 1905. José Bento puxou o pai pela camisa e perguntou quase chorando:
_Pai, estamos chegando?
Seu João Bento respirou fundo, buscando a paciência que o cansaço e o sofrimento quase tinham esgotado e respondeu sem demonstrar muita emoção:
_Sim, falta pouco...
_Estou com fome... e sede – insistiu o garoto (...)”


Assim começa “Um conto da Bahia”, a saga de José Bento, um nordestino inconformado com a própria condição e a de seu povo. Não aceitando a pobreza e a injustiça social – tão comum naquele tempo e lugar – José Bento decide partir em busca de aventuras, seguindo um grupo de bandoleiros que percorria os sertões. Na verdade, o que ele não sabia, é que partia em busca do próprio destino, em busca do entendimento da existência e do crescimento espiritual.
“Um conto da Bahia” não é apenas um romance. É o retrato de uma sociedade, de um povo, que aos poucos vai construindo sua identidade a partir da mistura das crenças e da sabedoria popular que vive adormecida no inconsciente coletivo.
É possível encontrar, ao longo da narrativa, referências às diversas raízes que formaram a religiosidade brasileira: a onipresença católica, o conhecimento indígena arraigado no inconsciente popular, o africanismo tão marcante (a contragosto das classes dominantes) na formação brasileira e a sabedoria quase ingênua dos curandeiros (ou benzedeiros) que resistem até os dias atuais.
Numa linguagem suave e envolvente, esses elementos vão surgindo e mostrando que convivem numa harmonia quase silenciosa, mas que sempre voltam à tona, pois já estão incorporados à identidade do povo brasileiro.
Douglas Fersan – que é sociólogo e historiador - escreve como quem conta uma história – e nesse caso, não é apenas uma história para entreter, é a própria história do Brasil, de seu povo e de sua crença. Com mestria, o sociólogo, o historiador e o contador de histórias dão as mãos para nos brindar com essa magnífica obra, que não fala de Espiritismo, de Umbanda, de Catolicismo ou de qualquer outra religião. Fala de cada um de nós, pois muitos serão aqueles que conseguirão ver um pouco de si no romântico, ingênuo, sábio e rebelde José Bento, um homem contraditório, mas cheio de esperança, como cada um dos brasileiros que luta diariamente pela sua sobrevivência e crescimento espiritual.

Confira essa obra no link: http://clubedeautores.com.br/book/4212--Um_conto_da_Bahia

Jorge Fagundes
Resenha literária do Jornal Caminho do Sol

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Uma lenda de Omolu - Reginaldo Prandi




Quando Omolu era um menino de uns doze anos, saiu de casa e foi para o mundo para fazer a vida. De cidade em cidade, de vila em vila, ele ia oferecendo seus serviços, procurando emprego. Mas Omolu não conseguia nada. Ninguém lhe dava o que fazer, ninguém o empregava, e ele teve que pedir esmola. Mas ao menino ninguém dava nada, nem do que comer, nem do que beber. Tinha um cachorro que o acompanhava e só. Omolu e seu cachorro retiraram-se no mato e foram viver com as cobras. Omolu comia o que a mata dava: frutas, folhas e raízes. Mas os espinhos da floresta feriam o menino. As picadas de mosquitos cobriam-lhe o corpo. Omolu ficou coberto de chagas. Só o cachorro confortava Omolu, lambendo-lhe as feridas. Um dia, quando dormia, Omolu escutou uma voz:
_Estás pronto. Levanta e vai cuidar do povo.
Omolu viu que todas as feridas estavam cicatrizadas. Não tinha dores nem febre. Omolu juntou as cabacinhas, os atos, onde guardava água e remédios que aprendera a usar com a floresta, agradeceu a Olorum e partiu.
Naquele tempo uma peste infestava a Terra. Por todo lado estava morrendo gente, todas as aldeias enterravam seus mortos. Os pais de Omolu foram ao babalaô e ele disse que Omolu estava vivo e que ele traria a cura para a peste. Todo lugar aonde chegava, a fama precedia Omolu. Todos esperavam-no com festa, pois ele curava. Os que antes lhe negaram até mesmo água de beber agora imploravam por sua cura. Ele curava a todos, afastava a peste. Então dizia que se protegessem, levando na mão uma folha de dracena, o peregum, e pintando a cabeça com efum, ossum e uági, os pós branco, vermelho e azul usados nos rituais e encantamentos. Curava os doentes e com o xaxará varria a peste para fora da casa, para que a praga não pegasse outras pessoas da família. Limpava as casas e aldeias com a mágica vassoura de fibras de coqueiro, seu instrumento de cura, seu símbolo, seu cetro, o xaxará.
Quando chegou em casa, Omolu curou os pais e todos estavam felizes. Todos cantavam e louvavam o curandeiro e todos o chamaram de Obaluaê, todos davam vivas ao Senhor da Terra, Obaluaê.

Créditos: Reginaldo Prandi, em “Mitologia dos Orixás”

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma lenda de Exu

Exu ganha o poder sobre as encruzilhadas


Exu (o orixá, não o catiço), diferentemente dos outros orixás, era pobre, desprovido de bens, de "pontos de força", como os rios, o mar, as montanhas e nem mesmo uma missão específica ele possuía. Isso o fazia andar para lá e para cá, tal qual os andarilhos que conhecemos hoje em dia. Mas eis que um dia Exu resolveu visitar Oxalá e ao vê-lo ali, entretido, criando os homens e as mulheres e ficou fascinado com esse trabalho, passando a visitá-lo com uma freqüência maior que os outros orixás, que apareciam, ficavam umas poucas horas e iam embora. Ao contrário dos outros, Exu ficou na casa de Oxalá por 16 anos, prestando muita atenção e aprendendo como Oxalá fazia o seu trabalho. Ele não perguntava nem opinava, apenas observava.
Não querendo perder tempo em seu importante trabalho, Oxalá pediu a Exu que ficasse na encruzilhada por onde passavam aqueles que vinham visitá-lo e que só deixasse passar quem levasse uma oferenda a Ele (Oxalá), que trabalhava cada vez mais e não queria entreter-se com visitas. E assim agiu Exu, coletando as oferendas que os outros orixás deixavam para Oxalá, entregando-lhe posteriormente.
Exu fazia tão bem o seu trabalho que Oxalá decidiu recompensá-lo da seguinte forma: quem viesse até Oxalá, teria que entregar algo a Exu também. E quem estivesse voltando da casa de Oxalá, deveria agir da mesma forma.
Como bom guardião, Exu defendia a passagem, espantava os indesajáveis e assim tornou-se forte, rico e poderoso, ganhando o domínio sobre as encruzilhadas, que tornaram-se o seu "ponto de força". Hoje nada se faz sem antes agradar a Exu.

domingo, 16 de agosto de 2009

Fraco ou forte? - por Danilo Lopes Guedes




Muitos de nós, umbandistas, já ouvimos esse termo: “O terreiro é fraco”, mas como podemos categorizar os terreiros: forte e fraco?
Qual será o parâmetro que utilizamos para essa avaliação? Seria a não realização de sonhos ou desejos?
Antes de responder ao questionamento gostaria de seu acompanhamento nesta linha de raciocínio.
Por que vamos ao terreiro? Muitas podem ser as respostas, mas vamos pensar de forma simples, vamos ao terreiro pela religião, ou seja, religar a Deus.
Este é o mínimo, mas para muito a ida até o terreiro é para: amarrar, destruir, matar, separar, perturbar alguém, etc. Bom, nesse momento o sentimento mínimo já se perdeu pelos caminhos.
Infelizmente, algumas pessoas quando chegam ao terreiro continuam com suas idéias negativas e não param nem um segundo para analisar se estão certas ou erradas.
Então é chegada a hora da consulta, e essas pessoas, mesmo após as defumações, orações e pedidos do dirigente para que elevem seus pensamentos a Deus com harmonia e amor, continuam com a idéia fixa, como se não tivessem ouvido estas palavras.
O consulente com o pensamento negativado se dirige ao encontro da entidade que lhe dará o atendimento e começa com seus lamentos e reclamações, onde todos que lhe rodeiam não prestam e ele é um coitado.
A entidade tenta amolecer a mente e o coração desde consulente através de suas sábias palavras e com o auxílio dos seus elementos de trabalho, mas como o atendimento é uma parceria entre o consulente e o guia, ele não permite que essa luz penetre em seu interior, tornando-o uma pessoa “não tão ácida”.
Após as explicações e os pedidos do consulente, o guia lhe responde positivamente que vai ajudar.
Estão assustados com a resposta do guia? Por quê?
A ajuda que o guia vai dar, será pedindo para que Oxalá dê a esse irmão as luzes de: “Oxum, pondo amor no coração, Ogum para cortar a maldade que o cerca, Obaluaê para transmutar seus sentimentos negativos em positivos, Oxóssi para o conhecimento a fim de enxergar suas fraquezas interiores”.
Ao término do seu atendimento, esse irmão volta para casa confiante de que seus pedidos “destruidores” serão realizados, mas depois de alguns dias nada acontece e ele vai até outro terreiro, com as mesmas intenções.
Outro guia lhe atende e pergunta:
_Em que posso ajudar?
O consulente repete seus pedidos destruidores e ainda complementa que o terreiro onde tinha freqüentado era muito fraco.
Antes de iniciar o seu trabalho, o guia pergunta ao consulente se ele conseguiria explicar melhor o termo “muito fraco”. O consulente firmemente responde: não fui atendido.
O guia deixa alguns segundos de silêncio e retruca ao consulente:
_Será que é fraco aquele que pede por ti, para que tenhas mais amor, luz em tua mente, mas evolução e proteção? Será que é fraco aquele que tenta abrir teus olhos à luz? Será que é fraco aquele que tenta te colocar mais perto de Deus? Será que é fraco aquele que pede perdão por ti?
Ou o fraco é aquele que não conseguiu enxergar tudo isso e mesmo assim insiste em caminhar nas trevas de sua própria ignorância, na escuridão de seus caprichos?
Após esses questionamentos, o guia retorna a pergunta ao consulente:
_Em que posso ajudar?
O consulente responde ao guia com a voz embargada:
_Me dê força e peço perdão pelos meus sentimentos “fracos” que levei para dentro de outros terreiros.


Danilo Lopes Guedes é médium de Umbanda na Casa da Vovó e do Vovô.

domingo, 9 de agosto de 2009

Voz de Aruanda, a sua rádio de Umbanda - www.vozdearuanda.com



Nós, umbandistas, sempre fomos meio carentes (ou órfãos) de divulgação de nossa cultura e de nossos trabalhos. Quase sempre a imagem da Umbanda e dos umbandistas é estigmatizada pelos meios de comunicação de massa. Somos representados na mídia de forma vexatória e caricata, que quase nunca condiz com a realidade. A beleza e musicalidade de nossos rituais são deturpadas de maneira vergonhosa e raramente conseguimos espaço para responder a essas verdadeiras agressões que nos fazem.
Uma das maneiras de mudar esse quadro é assumir o orgulho de ser umbandista e divulgar nossa religião, nossa cultura e nossas tradições de maneira positiva. É isso que a rádio Voz de Aruanda vem fazendo, com grande sucesso em tão pouco tempo. Idealizada pelo Pai Marcelo de Oxalá e a designer Paula Ramanzini, a rádio é um projeto que ainda vai crescer mais, no entanto já mostra bons resultados, divulgando 24 horas por dia os mais belos pontos cantados da Umbanda, conforme a programação:

00:00 - 06:00 : Umbanda na Madrugada
06:00 - 09:00 : Raio da Manhã
09:00 - 12:00 : Tributo aos Orixás
12:00 - 15:00 : MPB na Umbanda
15:00 - 17:00 : Espírito Cigano
17:00 - 18:00 : Umbanda Hits
18:00 - 18:30 : Momentos de Reflexão
18:30 - 20:00 : Guias de Luz
20:00 - 22:00 : Yabás no Terreiro
22:00 - 00:00 : Guardiões da Encruza

Acesse www.vozdearuanda.com e prestigie esse belo trabalho. No link também estão disponíveis alguns artigos já publicados nesse blog.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Outro mundo é possível? - por Alexandre Cumino




As sociedades mais antigas nos ensinavam a ter um olhar de encanto para com o desconhecido. Todas as mitologias nos apresentam o Sagrado de duas formas: “mistério fascinante” e “mistério tremendo”.
Os deuses encantam e fascinam, pois sua manifestação está em toda parte, além de nosso controle, em toda a natureza. Eles habitam um outro mundo e deste mundo controlam nossas vidas, se ocupando de nossos destinos. Desta forma, as pessoas mais afortunadas, como reis e heróis passam a ser consideradas filhas dos deuses. Como Hércules, o filho de Zeus, ou ainda Akenaton, filho de Aton.
Na cultura nórdica Odin recebia pessoalmente os guerreiros desencarnados para um banquete em sua morada celestial. Com o fim das culturas mitológicas imperou o pensamento racional filosófico, onde o “outro mundo” é explicado por meio da Teologia e da Metafísica.
Porém, não nos esqueçamos que os pais da cultura ocidental são os filósofos gregos, que valorizavam o ser humano, e de certa forma, plantaram a semente do desencanto religioso, tão nítida nos dias atuais.
Sócrates, quatro séculos antes de Cristo, no leite de morte, explica a seus discípulos que a alma é imortal e reencarnante. Seu discípulo Platão dedicou parte de sua vida ensinando a existência de um mundo perfeito, o mundo das idéias, do qual este mundo é apenas uma cópia.
Santo Agostinho bebeu da obra platônica para descrever sua Cidade de Deus e fundamentar a idéia de um Céu Católico em oposição ao Inferno para onde iriam os não-católicos.
Allan Kardec também “criou” o seu céu e o seu inferno no mundo astral superior e inferior, onde todos vão se encontrar por afinidade, reciclando algumas das idéias de Platão e Sócrates.
Ainda hoje continuamos nos perguntando se há um outro mundo possível e como será este outro mundo.
O que é real e o que é ilusório nesta vida? Sócrates procurava a Verdade.
Cristo silenciou quando Pilatos lhe perguntou qual era a Verdade. Ao ser questionado sobre o fato de ser um Rei, afirmou que seu reino não era deste mundo.
Seria o outro mundo um outro lugar físico, ou este lugar mesmo com outros valores?
Quando as caravelas de Cabral aportaram na América, os índios pensaram que se tratavam de Deuses, pois apenas Deuses poderiam vir de outro mundo.
Eles estavam certos em uma coisa: eles realmente vinham de outro mundo, pois naquela época, um outro continente era outro mundo. Os índios não conheciam os conceitos de pecado da cultura judaico-cristã. Seria este mundo (a América) o paraíso perdido de Adão e Eva?
Alguns se perguntam se há “outros mundos”, outros quetionam se há vida em outros planetas, se há vida em outras dimensões ou realidades, e ainda outros, se há vida além da vida.
Quem sabe onde está um outro mundo? Outro mundo é possível? Onde?
Devemos construir um outro mundo?
Ou será que quando começarmos a nos esforçar, estaremos competindo uns com os outros, e logo estragando os planos de um mundo melhor? Afinal, o mundo das disputas não pode ser mesmo um mundo melhor...
Qual é a postura que o ser humano tem assumido para si e para os outros?
O que fazemos deste mundo está relacionado com nossa natureza ou com nossa cultura? Até onde somos um produto do meio em que vivemos? Até onde a sociedade determina nosso destino?
Como interpretar o livre arbítrio, quando somos tão fortemente influenciados e persuadidos a seguir um modelo? Até onde as religiões e filosofias nos despertam para um outro mundo?
Até onde a busca por um mundo pode ser uma alienação de nossa realidade? Até onde as religiões nos alienam?
A Umbanda é uma religião em formação, logo temos uma oportunidade única de trazer estes questionamentos para nosso dia a dia. Vamos aproveitar tudo o que há de bom como herança de todas as culturas. Mas, vamos jogar limpo com as pessoas, sem enganar, sem iludir, sem criar novos tabus. Sem promessas de céu ou inferno, sem assustar, fascinar ou criar dependências.
A Umbanda tem a oportunidade única de nos mostrar um caminho de liberdade e responsabilidade. Um outro mundo só é possível quando nos tornarmos outras pessoas e não importa onde estivermos, encarnados ou desencarnados, um outro mundo nunca será um lugar físico, um outro mundo só pode ser um outro estado de consciência. Durante a história da humanidade conhecemos pessoas que estando aqui neste mundo físico mostraram pertencer a outro mundo. Como Cristo, Krishna, Ramakrishna, Madre Tereza, Zélio de Moraes, Chico Xavier e São Francisco, entre outros.
Eles são a prova viva de que um outro mundo é possível!

sábado, 18 de julho de 2009

Candomblé e Umbanda são declarados patrimônios imateriais no RJ


O candomblé foi declarado patrimônio imaterial do Estado do Rio de Janeiro. A lei foi sancionada pelo governador em exercício Luiz Fernando de Souza Pezão e publicada ontem no Diário Oficial. O projeto foi proposto pelo deputado Gilberto Palmares (PT). O mesmo projeto para a umbanda já foi aprovado pela Alerj e aguarda sanção do governador.


A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa comemorou a notícia nesta sexta. Para Jorge Mattoso, secretário da comissão, a lei vai ajudar a diminuir o preconceito.


- Para a gente foi muito importante. Vai significar um resgate da auto-estima e elevar o respeito frente a atos de intolerância religiosa. Isso vai abrir portas, pois vamos poder fechar convênios com várias entidades.

Mattoso espera que a lei estadual ajude na aprovação de uma lei federal. A comissão fez um encaminhamento do pedido, durante a 2ª Conferência de Igualdade Racial, realizada em junho, em Brasília.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Os guardiões incompreendidos - Douglas Fersan



Provavelmente uma das manifestações divinas mais difíceis de se entender é a dualidade. O pensamento ocidental, maniqueísta, calcado em valores cristãos – devidamente distorcidos de acordo com interesses políticos e econômicos ao longo da História – estabeleceu um padrão de pensamento em que existem duas forças antagônicas: o bem e o mal, sempre em constante batalha pelo domínio do mundo e da alma de seus habitantes. Assim, tudo que não segue a estética e a moral ocidental-cristã é imediatamente associado à sua antítese: as forças maléficas regidas por seres do mal, chamado de demônios.
Esse tipo de pensamento traz em si um paradoxo, já que o próprio livro sagrado do Cristianismo afirma que Deus é onipresente. Estando em todas as partes, Deus estaria também nas regiões trevosas da espiritualidade – regiões que muitos tomaram por costume chamar de inferno.
Então Deus estaria no inferno? Parece uma heresia total fazer tal afirmação, mas sendo Ele um ser onipresente, deve (ou deveria) estar em todos os lugares.
A crença de um inferno de penas eternas e governado por um ser excepcionalmente maldoso também faz parte do imaginário cristão e, dentro desse raciocínio contraditório, não haveria lugar para Deus nessa região – mesmo sendo Ele onipresente (?).
Dentro da filosofia que norteia o pensamento umbandista, descartamos essa idéia de inferno. Admitimos a existência de regiões espirituais trevosas, densas, onde se encontram aqueles espíritos que não atingiram a elevação moral esperada, elevação essa que pode ser conquistada um dia, não necessariamente através de expiações, mas também do trabalho árduo na espiritualidade. No entanto, nessas regiões ainda reina uma espécie de barbárie espiritual, já que os valores morais de seus habitantes não são os mais elevados, necessitando assim de alguém que controle suas ações, não permitindo que outras esferas (como a dos encarnados, por exemplo) sejam alvos dos ataques e obsessão desses espíritos. É nesse contexto que começamos a entender o papel dos Exus, os guardiões tão incompreendidos e injustiçados, que atuam como agentes da Lei e da Ordem dentro desse princípio da dualidade divina. Entender Exu é entender o próprio funcionamento da Lei Maior.

Antes de qualquer coisa é preciso saber a diferença entre o Orixá Exu e o Exu catiço, da Umbanda. A palavra Exu, que significa “Esfera”, remete aos cultos africanos e ao Orixá de mesmo nome. Como bem sabemos, por diversos fatores históricos, houve no Brasil um processo chamado sincretismo, através do qual as divindades africanas foram associadas aos santos católicos. Assim, Iansã, por exemplo, que é a divindade dos raios e das tempestades, foi sincretizada com Santa Bárbara, já que essa santa também é associada aos raios e trovões. Ogum, o Orixá guerreiro, foi sincretizado com São Jorge, o patrono militar dos católicos, e assim por diante. No entanto, com o Orixá Exu houve, ainda dentro do sincretismo, um processo de demonização. Sendo Exu a divindade ligada à fertilidade, à sexulidade e à virilidade – inclusive carregando, em suas representações, um cetro em forma de falo – e tendo uma personalidade um tanto rebelde, como nos contam as itans (lendas africanas dos Orixás), não tardou para que fosse associado ao demônio bíblico/católico. Assim, desde o princípio, Exu foi temido, e provavelmente gostou disso, levando-se em conta seu caráter irreverente.
Apesar da confusão em torno da natureza de Exu, não podemos esquecer e nem desprezar sua importância dentro do panteão africano e de seu funcionamento, já que ele atua como “mensageiro” ou “intermediário” entre os homens e os Orixás.
Nos cultos de Umbanda também encontramos Exu, porém não na figura de um Orixá, e sim de um espírito catiço, um desencarnado, que viveu em Terra e procura, através do trabalho na espiritualidade, alcançar o progresso moral.
Também associado a figuras demoníacas, o Exu da Umbanda é um valoroso trabalhador, que indiferente a essas interpretações calcadas em visões preconceituosas, segue perseverante no cumprimento de sua tarefa.
O papel do Exu numa gira de Umbanda é de fundamental importância, realizando a segurança do terreiro – imaginem quantos kiumbas (espíritos trevosos e zombeteiros) atacariam uma tenda de Umbanda a fim de atrapalhar seus trabalhos, se não fosse a presença dos Exus, trancando a sua passagem. Em casos de descarregos, também são os Exus os principais agentes, pois cabe a eles a tarefa de encaminhar cada espírito, seja um pobre sofredor desorientado, ou um perigoso obsessor ao seu local de merecimento e/ou tratamento.
Exu também é o agente da justiça kármica, sendo sua tarefa levar a cada um o que lhe é de direito ou merecimento – por isso também a confusão em torno de seu caráter, já que ao coração humano é muito fácil aceitar o que é agradável, mas muito difícil entender que os revezes da vida muitas vezes são resultado de nossas próprias ações.
Ao contrário daquilo que falam sobre eles, os Exu são fiéis amigos, sempre dispostos a ajudar seus protegidos, mas também exigindo uma conduta deles, pois são extremamente rigorosos.
De uma forma bastante simplificada, podemos entender o Exu como uma mistura entre o carteiro e o gari, pois ele traz aquilo que deve ser entregue e varre aquilo que deve ser levado.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A Umbanda não é popular - Douglas Fersan



A palavra “popular” pode ter duas interpretações. A primeira delas refere-se a algo ligado a pessoas humildes, do povo e até – sem querer, em hipótese alguma, demonstrar algum tipo de preconceito social – a pessoas de pouca instrução formal. Outra interpretação que pode ser dada à palavra “popular” é aquela que se refere aos fenômenos de massa. Nesse caso, a Umbanda não é popular.
Longe de ser elitista, pois bem sabemos que não é o caso, a Umbanda não é popular no sentido de abranger e mobilizar grandes massas. Populares são as religiões neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus ou a Renascer em Cristo, por exemplo. Essas sim, são populares, atingem grandes públicos, mobilizam multidões e lotam estádios a um simples chamado de seus líderes (e que isso não seja entendido como uma crítica, ao contrário, é um fator positivo dessas religiões, deixando juízo de valores de lado).
A Umbanda mobiliza suas multidões em datas específicas, como as festividades a Iemanjá, como as ocorridas nos municípios de Praia Grande e Mongaguá, mas que na verdade trata-se da reunião de diversos micro-universos umbandistas, utilizando apenas a mesma data e local para seus cultos, na maior parte das vezes, diversificados. Nas demais datas, o que se vê são alguns terreiros lotados de pessoas em busca de curas ou soluções para seus problemas materiais – pessoas essas que em sua maior parte não retornarão após solucionadas suas questões – ou pequenos templos improvisados, onde irmãos-de-fé movidos a boa vontade arrastam alguns móveis a fim de abrir espaço para atender alguns poucos necessitados que os procuram – e que dificilmente também retornarão após a solução de seus problemas.
A Umbanda é popular no sentido de ter nascido e sobrevivido dentro das camadas mais humildes da população, mas está longe de ser um fenômeno de popularidade. Seria mais correto então, afirmar que a Umbanda, além de um caminho, uma religião e uma filosofia de vida, é também um movimento de resistência, pois mantém viva a tradição, a história e a luta de um povo miscigenado, que não se entregou e não abriu mão de suas raízes.
A Umbanda é perfeita. Tão perfeita que abriga em seu seio as mais variadas vertentes espiritualistas e os mais diversos segmentos sociais, pois na dor todos se igualam, e na busca da solução de seus problemas, orgulhos desmoronam como castelos de areia e doutores, mestres e PHD’s dobram-se à sabedoria e à simplicidade de um preto velho sentado em um banquinho.
A Umbanda não precisa ser popular. Ela precisa ser aprendida, vivenciada e assimilada por aqueles que a praticam. E precisa ser respeitada por aqueles que não a praticam e a desconhecem. Para isso, a Umbanda não precisa ser popular, ela precisa ser desmistificada e exemplificada pelos seus filhos, que tantas vezes agem como pródigos ou adolescentes rebeldes, esquecendo os ensinamentos daquela que os ampara.
A Umbanda é séria e por vezes severa, mas é mãe, e como tal, acolhe seus filhos, mesmo os mais rebeldes.
A Umbanda não é popular, mas é do povo.
É a Umbanda, e isso basta.


Douglas Fersan
Julho de 2009

sábado, 20 de junho de 2009

A Umbanda não tem personalidade própria - Domênica Ferrabosco(*)




Os religiosos seguidores da Umbanda, poderão interpretar este texto como ofensivo, discriminador e um tanto sarcástico, mas não é com esta intenção que escrevo, e sim de contribuir com um debate muito mal fomentado em todo país sobre a verdadeira discussão e o ponto central do que é uma religião formada em bases e território nacional.

Originalmente temos que admitir que a base religiosa de nosso país é formada ainda pelo catolicismo, depois pelas religiões protestantes e logo em seguida pelas religiões africanas e afro-brasileiras. Mas nosso ponto de partida é particularmente a Umbanda, pois é nela que encontramos as maiores contradições de costumes e interpretações, pois sua essência fundamental parte de uma mistura de cultos e religiões africanas, com o espiritismo, e nos tempos de hoje agrega as mais diversas formas esotéricas dentro de seus conceitos básicos.

É importante ressaltarmos que dentro da pluralidade da Umbanda, fica claro que não há uma doutrina específica, tudo é aceitável dentro dos limites em que os sacerdotes, zeladores ou babalorixás tem como ensinamento de seus mentores espirituais. A religião que tem como ponto de partida de sua existência os ensinamentos deixados pela entidade de um Índio ou Caboclo a Zélio de Moraes, já traz a luz das discussões muitas controvérsias entre os praticantes da religião, alguns dizem que foi muito antes de Zélio, outros afirmam que ele é um dos primeiros e no certo a Umbanda comemorou 100 anos em meio a uma falta de personalidade gritante.

Na religião em questão tudo é possível, como por exemplo cultuar os Orixás do Candomblé, ter passes com mentores do espiritismo e a irradiação dos caboclos, baianos, boiadeiros, marujos, escravos ou pretos-velhos, ciganos, e espíritos pouco evoluídos como exus e pomba gira, muitos destes ou em quase sua totalidade pessoas carnais que passaram por este mundo como os mentores do espiritismo. Hoje também devemos agregar em certas casas, algumas doutrinas e aplicações de linhas esotéricas como Heiki, Apometria, Cristais, Luzes, entre tantas outras infinidades de ações que para muitos é aceitável.

No entanto com toda esta novidade, a Umbanda passou a ser um alvo de descaso como religião, pois as diversas práticas levaram muitos a acreditar na formação de uma divisão dentro da própria religião, assim temos constatado que existem os conservadores, os liberais, os liberais ao extremo, e os tolerantes, mas que não convivem em harmonia criando uma disputa ideológica colocando em xeque a verdadeira missão dos umbandistas, é claro que ao lerem este texto muitos dirão que não, que a Umbanda tem personalidade e uma missão clara, de caridade, fraternidade e ajuda ao próximo.

A estes religiosos eu deixo aqui uma pergunta: Porque então a Umbanda se dividiu tanto? Certamente a resposta terá varias voltas mas o sentido será o mesmo, a evolução, mas continuaria eu perguntando: Qual religião no mundo todo evoluiu? De certa forma todas as religiões citadas aqui se personalizaram e seguem um eixo central, e tem limites para o aceitável, o que não é o caso da Umbanda, mas aí vem uma pergunta a mim mesma: Será que a Umbanda precisa de uma personalidade? Dentro de tudo que lemos e vemos poderia minimamente ter um diálogo mais franco entre si, e não se furtar em emitir sua opinião, a Umbanda se resigna em falar somente entre ela, por muitas vezes esconde-se ou se omite dos fatos que lhe saltam os olhos, esta personalidade lhe falta sim, a clareza em expor o que é se faz necessário para termos pelo menos dentro das pesquisas sociais um verdadeiro quadro de quem é esta religião, ou será que a Umbanda ainda quer ser tratada como um culto esotérico e extravagante aos olhos de muitos que freqüentam e que na maioria das vezes não crêem em tudo que vêem.

Deixo esta reflexão como proposta de debate, e mais a frente aprofundaremos neste tema, pois o mais importante é podermos ressaltar a riqueza plural que este país conseguiu produzir ao longo dos anos, é somente aqui que muitas pessoas católicas conseguem conviver com a dualidade de freqüentarem um terreiro de Umbanda ou Candomblé, mas que fique bem entendido isto é possível por que a personificação da religião é falha, mas necessária.


(*) Escritora,Poetisa, Estudiosa em Assuntos Relacionados a Religiões.
Nascida em PB, Quatro Filhos dois Netos, vivendo no Ceará.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A melhor criação de Deus - por Jairo Pereira Jr.


Minha intenção com esse pequeno artigo não é desmistificar nem tão pouco alentar aqueles que se separaram de seus entes queridos, porém, é um alerta àqueles que em algum momento questionaram a sabedoria e a providência divina.

Questionar os desígnios de Deus é comum desde que o mundo é mundo, porém compreendê-lo de forma completa é tarefa para poucos, onde os questionamentos atormentam aqueles que os fazem e por fim se enchem de culpa por fazê-lo.

Estou tentando aqui, mostrar que de todas as criações feitas por Nosso Criador, a MORTE talvez seja a melhor de todas.

Não que eu esteja incitando as pessoas a acabarem com suas vidas, muito pelo contrário, pois ter consciência da morte fará com que as pessoas vivam de maneira mais plena.

De maneira geral, cristãos, islâmicos e judeus acreditam que após a morte há a ressurreição. Já os espíritas crêem na reencarnação: o espírito retorna à vida material através de um novo corpo humano para continuar o processo de evolução. Algumas doutrinas acreditam que as pessoas podem renascer no corpo de algum animal ou vegetal. Em algumas religiões orientais, o conceito de reencarnação ganha outro sentido: é a continuação de um processo de purificação. Nas diversas religiões, o homem encara a morte como uma passagem ou viagem de um mundo para outro.

O Budismo, por exemplo, prega o renascimento ou reencarnação. Após a morte, o espírito volta em outros corpos, subindo ou descendo na escala dos seres vivos (homens ou animais), de acordo com a sua própria conduta. O ciclo de mortes e renascimentos permanece até que o espírito liberte-se do carma (ações que deixam marcas e que estabelece uma lei de causas e efeitos). A depender do seu carma, a pessoa pode renascer em seis mundos distintos: reinos celestiais, reinos humanos, reinos animais, espíritos guerreiros, espíritos insaciáveis e reinos infernais.
Já os Evangélicos, assim como os Católicos, acreditam no julgamento, na condenação (céu ou inferno) e na eternidade da alma. A diferença é que o morto faz uma grande viagem e a ressurreição só acontecerá quando Jesus voltar à Terra, na chamada 'Ressurreição dos Justos', ou, então, aqueles que forem condenados terão uma nova chance de ressurreição no 'Julgamento Final'. Os que morrerem sem Cristo como seu Deus também receberão um corpo especial para passar a eternidade no lago de fogo e enxofre.
No Candomblé, não existe uma concepção de céu ou inferno, nem de punição eterna. As almas que estão na terra devem apenas cumprir o seu destino, caso contrário vagarão entre céu e terra até se realizar plenamente como um ser consciente e eterno.
Os cultos afro-brasileiros acreditam que os mistérios da vida e da morte são regidos por uma Lei Maior, uma força divina que dá o equilíbrio divino ou eterno. O Candomblé vê o poder de Deus em todas as coisas e, principalmente, na natureza. Morrer é passar para outra dimensão e permanecer junto com os outros espíritos, orixás e guias. Trabalha com a força da natureza existente entre terra (Aìyê) e o céu (Òrun). Nos cultos afros, o assunto de vida após a morte não é bem definido.
Na Terra, o objetivo do homem é realizar o seu destino de maneira completa e satisfatória. Ao cumprir o seu destino na Terra, o ser humano está pronto para a morte. Após a morte, o espírito será encaminhado ao Òrun, para uma dimensão reservada aos seres ancestrais, ou seja, eternos. O ser humano pode ser divinizado e cultuado. Caso o seu destino não seja cumprido, os espíritos ficarão vagando entre os espaços do céu e da terra, onde podem influenciar negativamente os mortais. Como não se realizaram plenamente, estes espíritos estão sujeitos à reencarnação. Já as pessoas vivas que sofrem as suas influências negativas, precisam passar por rituais de limpeza espiritual para reencontrar o equilíbrio.
A Umbanda sofre influências de crenças cristãs, espíritas e de cultos afros e orientais. Como não existe uma unidade ou um 'livro sagrado', alguns umbandistas admitem o céu e o inferno dos cristãos, enquanto outros falam apenas em reencarnação e Carma.
Na Umbanda, morte e nascimento são momentos sagrados, que marcam a passagem de um estado a outro de manifestação espiritual, morremos para um lado e nascemos para outro lado da vida, o que nos aguarda do outro lado depende de nós mesmos.
A Umbanda explica o universo através de sete linhas, regidas por Orixás. Ao morrer, a pessoa será atraída por estes mundos espirituais. A matéria é apenas um dos caminhos para a evolução do espírito. Sendo assim, a morte é uma etapa do ciclo evolutivo, sendo a reencarnação a base da evolução. O objetivo maior do nascimento e da morte é a harmonização e a evolução consciente do espírito. Após morte, o ser humano leva consigo suas alegrias, sua fé, suas crenças, suas mágoas e suas dores. E terá que lidar com elas, sempre contanto com o auxílio dos espíritos mais evoluídos que o recepcionarão no outro lado da vida e o ajudarão na sua adaptação no mundo espiritual.
Com a morte do corpo físico, os espíritos bons podem se tornar protetores, enquanto os maus (espíritos de pouca evolução, devido às poucas encarnações) podem virar perturbadores. Os mortos (desencarnados) podem ser contatados, ajudados ou afastados.
De certa forma, todas as religiões e pessoas vêem a morte como algo que não faz parte de sua vida, e questionam em determinado momento se fizeram por merecer a chance que lhes foi dada. Repito que se as pessoas tiverem consciência de que morte faz parte da vida e que em determinado momento terão com ela, a morte, seu encontro definitivo, estas viverão de forma melhor e mais plena, pois parafraseando o grande Ariano Suassuna em “O Auto da Compadecida”, a morte é o que iguala a todos os seres vivos.
Já imaginaram como seria chato e fatídico se ninguém morresse e que os seres fossem os mesmos desde a criação do mundo?
Meu recado aqui caros irmãos, é no sentido de não desprezar a morte e sim de valorizar a vida, pois, há aqueles que preferem chamar a morte de “o outro lado da vida”, mas pense, meu irmão, se a vida é uma escola, a morte é nossa formatura!
Abraços fraternais
Jairo Pereira Jr. - 2009
Professor de Economia e Matemática
35 anos, casado, 2 filhos e Umbandista

sexta-feira, 20 de março de 2009

O arquétipo do preto-velho

A discussão sobre os arquétipos da Umbanda é um assunto interminável, complexo e apaixonante, mas muitas vezes cai no erro de se atribuir um caráter extremamente simplista, quase sempre baseado apenas na primeira impressão deixada pela entidade analisada.
Como fruto dessa análise superficial, podemos citar, apenas para exemplificar, o processo de demonização sofrido pelos exus, valorosos trabalhadores do Astral, quase sempre injustiçados e vistos com maus olhos por aqueles que desconhecem completamente a Umbanda e até mesmo por muitos se dizem filhos dela, mas que tão pouco se preocupam em entendê-la, bem como às entidades que nela trabalham. Outro caso recorrente de equívoco quanto ao arquétipo ocorre com a versão feminina dos exus, as pombas giras, que muitos acreditam tratar-se de espíritos de prostitutas quando da sua existência terrena. Claro que sua postura sensual contribui para isso, mas nem toda mulher sensual foi ou é prostituta, como nem toda pomba gira também. Talvez essa espécie de “personificação” que imputam às entidades de Umbanda exista para facilitar a compreensão do leigo, mas o umbandista, que pratica e vivencia a religião e a toma como filosofia de vida, tem o dever de conhecer e entender melhor os tipos culturais, étnicos e psicológicos nela representados. Acreditar que o espírito da criança manifesta-se simplesmente para externar a pureza, por exemplo, é reduzir toda a sabedoria umbandista a uma conotação muito simples e frágil.
Dessa forma, aos pretos velhos, espíritos tão populares na Umbanda, a ponto de muitas vezes suas figuras serem usadas como ícones da religião, são atribuídas comumente duas qualidades: a humildade e a sabedoria.
A condição de escravo teria dado ao preto velho a postura sempre humilde, sentado em seu banquinho, com as costas arqueadas e falando baixinho, numa atitude típica de quem sabe que deve comportar-se adequadamente frente ao seu senhor. Já a sabedoria seria fruto da idade avançada e das largas experiências supostamente vivenciadas em Terra.
Mas seria o preto velho apenas isso? Um senil humilde e sábio? Todo o sofrimento de um povo, que deu seu sangue para a construção de um país estaria resumido a uma figura arqueada e humilde, porém sábia?
A História mostra que a saga do povo negro é repleta de lutas, então, relegar o preto velho a uma condição praticamente submissa é negar o passado desse povo. Insistir na idéia de que o preto velho é somente sábio e, principalmente, humilde, é querer perpetuar um passado de injustiças, a ponto de querer manter o negro, mesmo já estando na condição de espírito, como um ser subserviente e amedrontado.
Basta estudar a História para entender que o negro não teve uma postura humilde e submissa o tempo todo. O maior ícone dessa etnia em nossa história, Zumbi dos Palmares, é também a representação de um povo que não se rende à força bruta da escravidão. Exemplo de liderança, resistência, coragem e luta, Zumbi ainda hoje é lembrado e festejado em todo o Brasil como o representante de um povo que não se entrega facilmente.
Não é somente na história do Brasil que encontramos exemplos de resistência dos negros frente à opressão: Nelson Mandela, Martin Luther King, Malcon X, Agostinho Neto e outros tantos, o que nos leva a concluir que o povo afrodescendente não tem como hábito quedar-se passivamente frente às injustiças e às imposições.
A própria mentalidade européia, incutida em nossas mentes ao longo do processo de colonização e perpetuado mesmo após o desligamento do Brasil com as amarras portuguesas, nos impôs a falsa impressão de que o negro (e também o índio) são seres pouco civilizados e frágeis de espírito e discernimento. Eis aí um gigantesco e medonho engano. Essa visão paternalista às avessas nos remete à falsa impressão de que as etnias não-européias são frágeis e necessitam da proteção civilizatória que o estereotipado tipo europeu poderia dar. A realidade é que por trás dessa visão aparentemente inocente e provida de caridade existe uma feroz intenção de dominar econômica e ideologicamente todo um povo e aniquilar sua cultura. Não fosse a coragem, a determinação e o espírito de resistência do povo negro, e isso já teria acontecido. Toda a riqueza cultural do chamado continente negro teria desaparecido e seu povo seria mão-de-obra barata e nada mais.
Assim, acreditar que o arquétipo do preto-velho se resume a humildade e a saberia é desprezar todo o seu passado de lutas. O preto-velho possui sim a humildade, mas a humildade dos sábios, e não subserviência daqueles que se entregam facilmente. Acima de tudo o preto-velho representa o vencedor, que mesmo diante de toda violência que sofreu, soube resistir e manter viva a sua cultura e a chama da sua fé.
O preto-velho é também o símbolo da resistência, da luta e do vencedor.
Douglas Fersan
março de 2009

quinta-feira, 12 de março de 2009

O casamento na Umbanda


Ao contrário do que muitos pensam – talvez influenciados pelo senso comum, que atribui somente a religiões ditas cristãs, em especial o Catolicismo, um caráter oficial – na Umbanda também existem sacramentos, tais como o batismo e o casamento. No entanto, a realidade é que poucos daqueles que se dizem umbandistas sabem disso ou, se sabem, não atentam para a importância de seguir os sacramentos dentro da religião que escolheu e que os acolheu.
Seria isso um desprezo pela própria religião? Ou uma forma de minimizar a importância daquilo que escolheu para si e que deveria nortear sua vida?
Talvez nem uma coisa nem outra. O fato é que, por diversos motivos, muitos deles históricos e outros tantos sociais, o próprio umbandista busca em outras religiões, como já foi dito, especialmente no Catolicismo, a oficialização de momentos importantes de suas vidas. É como se algumas situações exigissem o crivo católico, tradicional e bem quisto, para legitimar-se. É como se a Umbanda, apesar de toda a sua história de luta e resistência, não bastasse para sacramentar os momentos decisivos da vida de seus filhos. É como se o próprio umbandista não reconhecesse na Umbanda a sua autoridade espiritual.
A realidade é que muitos segmentos da sociedade ainda enxergam a Umbanda como um religião de pobres e desprovidos de cultura – note o ranço de preconceito – e, assim, ainda buscam em instituições que julgam oficiais, os sacramentos que facilmente encontrariam dentro da Umbanda.
Por outro lado, não há como atirar pedras naquele que realiza o casamento em outra religião, justamente porque ainda existe esse preconceito em torno das religiões que possuem um de seus pilares na África. Experimente alguém, de família não umbandista, realizar o seu enlace matrimonial dentro de um terreiro.
Quantos convidados comparecerão?
E, daqueles que comparecerem, quantos estarão ali realmente de coração (e mente) aberto ao ritual?
Quantos buscarão os pretextos mais fúteis para não comparecer?
E quais serão os comentários daqueles que comparecerem, após o ritual?
Ao final das contas, perante a sociedade, é como se o casamento não tivesse acontecido, por isso é compreensível que as pessoas, mesmo se dizendo umbandistas, procurem realizar seus casamentos dentro daquelas religiões que arriscamos chamar de mais tradicionais, mas que são, na realidade, mais aceitas pela sociedade. Concluímos assim que esses acontecimentos são mais sociais do que religiosos: trata-se da formalização de um rito de passagem, que assim sendo, necessita daquilo que é cobrado informalmente pela sociedade, e não daquilo que o coração e alma pedem.
Já é passado do momento do umbandista assumir sua religião em toda plenitude que ela pede e merece, fazendo valer os sacramentos, liturgias e tradições que a caracterizam. Embora seja sabido que a sociedade ainda possui fortes raízes no catolicismo (mesmo aqueles que não se declaram católicos), é importante ao umbandista fazer da Umbanda a sua filosofia de vida, sem medo ou vergonha, como forma de chamar para si e para seus irmãos-de-fé o respeito que tanto clamamos por anos e anos.


Douglas Fersan
Março de 2009

sábado, 7 de março de 2009

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Este texto é uma singela homenagem a todas as mulheres

batalhadores de nossa religião, mas também de todo este universo

mulheres anonimas, reais, que tem no seu cotidiano a força

e as bençãos de Oxalá e de todos os Deuses.


Como qualquer mãe, quando Karen soube que um bebê estava a caminho, fez todo o possível para ajudar o seu outro filho, Michael, com três anos de idade, a se preparar para a chegada.


Os exames mostraram que era uma menina, e todos os dias Michael cantava perto da barriga de sua mãe. Ele já amava a sua irmãzinha antes mesmo dela nascer.A gravidez se desenvolveu normalmente.


No tempo certo, vieram as contrações. Primeiro, a cada cinco minutos; depois a cada três; então, a cada minuto uma contração. Entretanto, surgiram algumas complicações e o trabalho de parto de Karen demorou horas. Todos discutiam a necessidade provável de uma cesariana.


Até que, enfim, depois de muito tempo, a irmãzinha de Michael nasceu. Só que ela estava muito mal.Com a sirene no último volume, a ambulância levou a recém-nascida para a UTI neonatal do Hospital Saint Mary.


Os dias passaram. A menininha piorava. O médico disse aos pais: "Preparem-se para o pior. Existem poucas esperanças".Karen e seu marido começaram, então, os preparativos para o funeral. Alguns dias atrás estavam arrumando o quarto para esperar pelo novo bebê.


Hoje, os planos eram outros.Enquanto isso, Michael todos os dias pedia aos pais que o levassem para conhecer a sua irmãzinha. "Eu quero cantar pra ela", ele dizia.


A segunda semana de UTI entrou e esperava-se que o bebê não sobrevivesse até o final dela.Michael continuava insistindo com seus pais para que o deixassem cantar para sua irmã, mas crianças não eram permitidas na UTI. Entretanto, Karen decidiu.


Ela levaria Michael ao hospital de qualquer jeito. Ele ainda não tinha visto a irmã e, se não fosse hoje, talvez não a visse viva.Ela vestiu Michael com uma roupa um pouco maior, para disfarçar a idade, e rumou para o hospital.


A enfermeira não permitiu que ele entrasse e exigiu que ela o retirasse dali. Mas Karen insistiu: "Ele não irá embora até que veja a sua irmãzinha!"Ela levou Michael até a incubadora. Ele olhou para aquela trouxinha de gente que perdia a batalha pela vida.


Depois de alguns segundos olhando, ele começou a cantar, com sua voz pequenininha: "Você é o meu sol, o meu único sol. Você me deixa feliz mesmo quando o céu está escuro"Nesse momento, o bebê pareceu reagir. A pulsação começou a baixar e se estabilizou. Karen encorajou Michael a continuar cantando. "Você não sabe querida, quanto eu te amo. Por favor, não leve o meu sol embora..."Enquanto Michael cantava, a respiração difícil do bebê foi se tornando suave.


"Continue, querido!", pediu Karen, emocionada. "Outra noite, querida eu, sonhei que você estava em meus braços..." O bebê começou a relaxar. "Cante mais um pouco, Michael."


A enfermeira começou a chorar. "Você é o meu sol, o meu único sol. Você me deixa feliz mesmo quando o céu está escuro...Por favor, não leve o meu sol embora..."No dia seguinte, a irmã de Michael já tinha se recuperado e em poucos dias foi para casa.


O Woman's Day Magazine chamou essa história de "O milagre da canção de um irmão". Os médicos chamaram simplesmente de milagre. Karen chamou de milagre do amor de Deus.


NUNCA ABANDONE AQUELE QUE VOCÊ AMA. O AMOR É INCRIVELMENTE PODEROSO


Feliz Dia 8 de Março

Douglas Fresan e Jordam Godinho Março 2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

OGÃS


A palavra Ogã vem do Yorubá e significa Senhor da Minha Casa. O Ogã – médium responsável pelo canto e pelo toque - ocupa um cargo de suma importância e de responsabilidade dentro dos rituais de Umbanda, o conjunto de vozes e toques do atabaque ajudando nos trabalhos espirituais para que possam ser fortes e bonitos.

Também devemos observar, que o conjunto de atabaques e vozes é parte fundamental da sustentação da casa e dos trabalhos, a desarmonia no couro, pode tornar fragilizado os trabalhos e as energias da casa em dia de gira, toque ou como vocês irmãos estão acostumados a chamar em suas casas.

O responsável pelo toque, o Ogã, tem de ser bem preparado e Coroado ou Iniciado como Ogã para exercer tal função em um Terreiro, pois além de serem médiuns intuitivos, são Sacerdotes natos, aqueles que nascem com a função de falar por um Orixá, de serem um Instrumento puro dos Orixás e fazem isso através de suas mãos e cantos.

Mas observem que esta importância tem que ter muita observação com respeito à humildade do médium e uma sintonia harmônica com o dirigente da casa, pois sem esta sintonia torna-se inviável a convivência e os trabalhos. Tudo vem relacionado com a harmonização entre os pontos centrais de equilíbrio e relação pessoal.

O Ogã é um canal aberto para muitas linhas de trabalho da Umbanda que trabalham ativamente através dele, são linhas de caboclos, exus, pomba-gira, boiadeiros, crianças, etc... Que por motivos próprios trabalham nos “bastidores”, sem incorporarem ou tomarem a “linha de frente” dos trabalhos espirituais. Formam uma corrente de espíritos que auxiliam nos toques e cantos da curimba, são mestres na música de Umbanda e Candomblé, verdadeiros guardiões dos mistérios do “Som”.

Muitas são as funções que os pontos cantados têm. Primeiramente uma função ritualística, onde os pontos “marcam” todas as partes do ritual da casa. Assim temos pontos para a defumação, abertura das giras, bater cabeça, chamada, subida, sustentação dos Guias e fechamento de gira.

Uma outra função importante é de emitir ondas energéticas pelo som do atabaque e pelos cantos que servem para diluir algumas energias astrais negativas que não fazem bem ao médium.

A curimba é um verdadeiro “pólo” irradiador de energia dentro do Terreiro, potencializando ainda mais as vibrações dos Orixás, ajudando os médiuns tanto na hora das incorporações, desincorporações e da firmeza de um trabalho. A curimba, por si só, emite energia suficiente capaz de descarregar um médium ou uma Casa.

Por isso a curimba deve sempre estar em sintonia com os Guias Espirituais, com os Orixás e com o Dirigente do trabalho. O Ogã deve estar sempre pronto e procurando aprender mais e mais.

Sempre com amor, pois quando vibramos de coração, os cantos atuam sobre nossos chacras, ativando os, e deixando-nos em total sintonia com a Espiritualidade Superior.

Os pontos transformam-se em “orações cantadas”, ou melhor, verdadeiras determinações de magia, com um altíssimo poder de realização, pois é um fundamento Sagrado e Divino.

Poderíamos chamar tudo isso de “magia do som” dentro da Umbanda, pois não é simplesmente evocar uma Divindade, mas é chamado de magia por envolver toda uma “cadeia” onde o som da curimba atua nos médiuns positivando-os e equilibrando-os. Infelizmente, não temos visto nos templos de Umbanda uma preocupação com a qualidade da curimba, ou seja, com o conjunto de vozes e toques de atabaques.

Há Casas em que os atabaques são “tocados” com tanta força que parece que os Ogãs estão descarregando sua energia e sentimentos positivos e ou negativos nos couros dos instrumentos e não é possível ouvir as letras dos pontos cantados às vezes, nem mesmo a melodia.


Curimba, é um ponto de força dentro de um Terreiro de Umbanda. Sempre enaltece nossas giras, sendo de suma importância dentro do Terreiro. Os atabaques são chamados de Ilú na nação Ketu e Ngoma na nação Angola, mas todas as nações adotaram esses nomes Rum, Rumpi e Le para os atabaques, apesar de ser denominação Jeje.No Candomblé Jeje os Ogãs são classificados como:

PEJIGAN que é o primeiro Ogã da casa Jeje. O mais velho de todos os Ogãs é geralmente o mais sábio.
RUNTÓ
é o segundo, que é o tocador do atabaque Rum.
AXOGUN
é um ogã de suma importância no Candomblé, pois é o responsável pela execução sacrificial dos animais votivos, e é um especialista no que faz.


No Candomblé Ketu os Ogãs são classificados como:


ALAGBÊ -
O chefe dos tocadores de atabaques, os instrumentos de percussão.
OGÃ GIBONÃ
- Zelador da casa de Exu, outro ogã de suma importância, pois seus conhecimentos ajudam na firmeza da casa.
OGÃ APONTADO
- Pessoa apontada como possível candidato a Ogã. Equivalente ao Ogã suspenso.
OGÃ SUSPENSO
- Pessoa escolhida por um Orixá para ser um Ogã, é chamado suspenso, por ter passado pela cerimônia onde é colocado em uma cadeira e suspenso pelos Ogãs da casa, significando que futuramente será confirmado e passará por todas as obrigações para ser um Ogã.

Há também outros Ogãs como Gaipé, Runsó, Gaitó, Arrow, Arrontodé.

No Candomblé Bantu os Ogãs são classificados como:

Tata NGanga Lumbido - Ogã guardião das chaves da casa.

Kambondos - Ogãs. Kambondos Kisaba ou Tata Kisaba - Ogã responsável pelas folhas.
Tata Kivanda
- Ogã responsável pelas matanças, pelos sacrifícios animais (mesmo que axogun).
Tata Muloji
- Ogã preparador dos encantamentos com as folhas e cabaças.Tata Mavambu - Ogã ou filho de santo que cuida da casa de Exu (de preferência homem, pois mulher não deve cuidar porque mulher menstrua e só deve mexer depois da menopausa, quando não menstruar mais, portanto, pelo certo as zeladoras devem ter um homem para cuidar desta parte, mas que seja pessoa de alta confiança).
Xicarangoma
- O chefe dos tocadores de atabaques, os instrumentos de percussão.

O respeito que os Ogãs devem ter pela Mãe e pelo Pai é enorme pois o Ogã nada mais é que o exemplo a ser seguido na gira pelos médiuns da casa, portanto devem passar uma imagem discreta, humilde e respeitosa.

Em suma o Ogã representa o respeito, harmonia, mística, e principalmente representa a religião de forma que só ele com o fundamento da musicalidade pode agir, assim como devemos sempre lembrar que tudo é uma extensão de energia das casas, uma corrente, um elo.

Salve a Curimba! Salve o Ogã! Salve a Umbanda

Axé Irmãos.......


Jordam Godinho – Março 2009

Fonte:www.umbandacarismatica.org.br
Gustavo Reis
MARCOS VINÍCIUS CARACCIO

terça-feira, 3 de março de 2009

O contraponto da religião

Em cima do texto publicado pela irmã Áurea, de autoria de Carlos Piquera, NA UMBANDA NÃO HÁ DOUTORES, conversamos muito sobre um tema que traz uma inquietação dentro das religiões afro-brasileiras, que é a questão do conhecimento formal, a preparação de nossos dirigentes e médiuns para entender e formar massa critica.

O que queremos dizer com isso é que temos notado que todo o acúmulo de aprendizado dentro da religião não é suficiente para formar os conceitos que estão fora das quatro paredes da religião e dentro delas também, nosso povo tem capacidade de assimilar, mas falta questionar o porquê disso ou daquilo. A simplicidade é uma virtude, mas nestes tempos em que tudo tem que ser falado, discutido e questionado, voltamos para dentro de nossas casas e vemos nossos médiuns apenas praticando sua religião muitas vezes sem entender o sentido do que está acontecendo, já que poucos dentro das casas tiveram acesso a uma educação formal e minoria ainda são os formados em faculdades.

A Umbanda, assim como outros agrupamentos religiosos, é formada por pessoas das mais diferentes classes econômico-sociais e étnicas, que, justapostas, formam o que se denomina de meio religioso intercorrente.
Mas até quando devemos ser assim, fechados ao conhecimento e formadores de opinião, deixando que meia dúzia de pessoas utilize o nome da religião em causa própria e sem valorizar os outros dirigentes de valor que temos espalhados por este país?
A educação formal de nosso povo esta em xeque e, cumprindo com um papel social, precisamos criar massa critica e pensante na religião. E que seja através dos Doutores, Professores dentre tantos outros, precisamos alias necessitamos de colocar os conhecimentos no centro das discussões religiosas.

Todos, independente dos títulos honoríficos ou profissionais que possam ter, deverão estar irmanados com aqueles que não puderam alcançar um estágio intelectual ou cultural mais elevado, no sentido de juntos poderem dar sua cota de sacrifício e suor em prol de nossa religião.

Este é o discurso que não cabe mais, temos que estar irmanados sim, mas sabendo do nosso papel naquele momento, questionando, envolvendo-se e aprofundando dentro da religião.Não se trata de uma tentativa de dar um caráter acadêmico à Umbanda, longe disso. Nem mesmo de querer criar uma casta de dirigentes graduados, pois bem sabemos do real e grandioso valor daqueles verdadeiros umbandistas, de pé no chão e tão pouco letrados. Trata-se, na realidade, de buscar uma ampla compreensão da Umbanda enquanto movimento social – e não apenas religioso – como também de fazer com que o umbandista entenda o funcionamento, a história, os fundamentos, os direitos e os deveres relativos à sua religião.

Ser umbandista não é somente se vestir de branco uma vez por semana e acender velas de cores variadas – isso seria “estar umbandista” naquelas poucas horas que dura uma gira. Ser umbandista é vivenciar a filosofia da religião que escolheu.Não é segredo que a Umbanda é vítima de comentários quase sempre preconceituosos (baseados no senso comum e em verdadeiros mitos que se perpetuam ao longo do tempo), sendo que um dos mais recorrentes é aquele que diz que “a Umbanda é uma religião de pessoas sem cultura”. Não temos que provar nada a ninguém, no entanto sabemos que essa não é a realidade, já que nossa religião é um verdadeiro aglomerado de culturas diferentes, com povos diversos contribuindo com seu conhecimento.

Porém, é fundamental que o filho de Umbanda entenda todo esse processo e também o funcionamento dos rituais, já que está inserido neles.Não necessitamos de cursos de graduação, diplomas ou de pessoas de renome para que conquistemos o respeito enquanto instituição religiosa. Necessitamos de autocompreensão, e isso acontece de dentro para fora, do microcosmo umbandista para o umbandista enquanto indivíduo e dele para o macrocosmo. Ninguém é dono da Umbanda nem detentor das teorias que supostamente regem os seus fundamentos.

Não pretendemos, com essa reflexão, transferir a questão para patamares elevados, pois eles são subjetivos, assim como a sabedoria não é prioridade de universitários. Queremos sim – e é bom que isso fique claro antes que venham as pedras, quase sempre atiradas por aqueles que defendem o comodismo ao dizer que não é necessário compreender as coisas, ou que a compreensão só se dá dentro de um terreiro ou templo – estabelecer um debate profundo com as diversas vertentes da Umbanda, para que tenhamos uma real compreensão de nossa própria identidade, de nossos direitos e deveres, respeitando as diversidades, pois essa é uma das nossas maiores riquezas, contribuindo para o nosso crescimento enquanto representantes daquilo que defendemos e professamos. Não precisamos de doutores ou professores de Umbanda, precisamos de umbandistas conscientes de seu papel. Que esse seja um despretensioso manifesto contra o comodismo intelectual tão arraigado e defendido por alguns em nome de uma suposta pureza umbandista.

Jordam Godinho e Douglas Fersan
Fevereiro de 2009