sábado, 20 de junho de 2009

A Umbanda não tem personalidade própria - Domênica Ferrabosco(*)




Os religiosos seguidores da Umbanda, poderão interpretar este texto como ofensivo, discriminador e um tanto sarcástico, mas não é com esta intenção que escrevo, e sim de contribuir com um debate muito mal fomentado em todo país sobre a verdadeira discussão e o ponto central do que é uma religião formada em bases e território nacional.

Originalmente temos que admitir que a base religiosa de nosso país é formada ainda pelo catolicismo, depois pelas religiões protestantes e logo em seguida pelas religiões africanas e afro-brasileiras. Mas nosso ponto de partida é particularmente a Umbanda, pois é nela que encontramos as maiores contradições de costumes e interpretações, pois sua essência fundamental parte de uma mistura de cultos e religiões africanas, com o espiritismo, e nos tempos de hoje agrega as mais diversas formas esotéricas dentro de seus conceitos básicos.

É importante ressaltarmos que dentro da pluralidade da Umbanda, fica claro que não há uma doutrina específica, tudo é aceitável dentro dos limites em que os sacerdotes, zeladores ou babalorixás tem como ensinamento de seus mentores espirituais. A religião que tem como ponto de partida de sua existência os ensinamentos deixados pela entidade de um Índio ou Caboclo a Zélio de Moraes, já traz a luz das discussões muitas controvérsias entre os praticantes da religião, alguns dizem que foi muito antes de Zélio, outros afirmam que ele é um dos primeiros e no certo a Umbanda comemorou 100 anos em meio a uma falta de personalidade gritante.

Na religião em questão tudo é possível, como por exemplo cultuar os Orixás do Candomblé, ter passes com mentores do espiritismo e a irradiação dos caboclos, baianos, boiadeiros, marujos, escravos ou pretos-velhos, ciganos, e espíritos pouco evoluídos como exus e pomba gira, muitos destes ou em quase sua totalidade pessoas carnais que passaram por este mundo como os mentores do espiritismo. Hoje também devemos agregar em certas casas, algumas doutrinas e aplicações de linhas esotéricas como Heiki, Apometria, Cristais, Luzes, entre tantas outras infinidades de ações que para muitos é aceitável.

No entanto com toda esta novidade, a Umbanda passou a ser um alvo de descaso como religião, pois as diversas práticas levaram muitos a acreditar na formação de uma divisão dentro da própria religião, assim temos constatado que existem os conservadores, os liberais, os liberais ao extremo, e os tolerantes, mas que não convivem em harmonia criando uma disputa ideológica colocando em xeque a verdadeira missão dos umbandistas, é claro que ao lerem este texto muitos dirão que não, que a Umbanda tem personalidade e uma missão clara, de caridade, fraternidade e ajuda ao próximo.

A estes religiosos eu deixo aqui uma pergunta: Porque então a Umbanda se dividiu tanto? Certamente a resposta terá varias voltas mas o sentido será o mesmo, a evolução, mas continuaria eu perguntando: Qual religião no mundo todo evoluiu? De certa forma todas as religiões citadas aqui se personalizaram e seguem um eixo central, e tem limites para o aceitável, o que não é o caso da Umbanda, mas aí vem uma pergunta a mim mesma: Será que a Umbanda precisa de uma personalidade? Dentro de tudo que lemos e vemos poderia minimamente ter um diálogo mais franco entre si, e não se furtar em emitir sua opinião, a Umbanda se resigna em falar somente entre ela, por muitas vezes esconde-se ou se omite dos fatos que lhe saltam os olhos, esta personalidade lhe falta sim, a clareza em expor o que é se faz necessário para termos pelo menos dentro das pesquisas sociais um verdadeiro quadro de quem é esta religião, ou será que a Umbanda ainda quer ser tratada como um culto esotérico e extravagante aos olhos de muitos que freqüentam e que na maioria das vezes não crêem em tudo que vêem.

Deixo esta reflexão como proposta de debate, e mais a frente aprofundaremos neste tema, pois o mais importante é podermos ressaltar a riqueza plural que este país conseguiu produzir ao longo dos anos, é somente aqui que muitas pessoas católicas conseguem conviver com a dualidade de freqüentarem um terreiro de Umbanda ou Candomblé, mas que fique bem entendido isto é possível por que a personificação da religião é falha, mas necessária.


(*) Escritora,Poetisa, Estudiosa em Assuntos Relacionados a Religiões.
Nascida em PB, Quatro Filhos dois Netos, vivendo no Ceará.

Um comentário:

Jairo Pereira Jr disse...

Vejo o exposto pela autora como uma forma de refletir sobre os caminhos que a Umbanda tende a traçar no futuro. Não concordo em muito no que ela diz, mas também não discordo em sua totalidade.
Devemos ver que nossa religião é típica da religião formada por um povo que também tem toda sua formação pautada na mistura.
Assim, vejo que a religião de Umbanda, como o povo brasileiro é fruto de toda essa mistureba de pessoas e cultos.
Coloco-me a disposição para um debate mais a fundo das questões levantadas pela autora assim como a qualquer questionamento de outros irmãos.
Por hora, prendo-me a afirmativa colocada pela própria autora, que como religião a Umbanda deve se prender a procura da caridade, do amor ao próximo e estar aaberto a ajudar aqueles que Dela necessitam, com fé no Deus que nos criou.
Abraços fraternais