domingo, 12 de fevereiro de 2012

A casa do Barão - um conto de Fernanda Mesquita




-Não chore! - dizia Preta Zica ao escravo João preso pelo capataz por ter sido pego tomando o leite que acabara de ser tirado da vaca que pertencia ao Barão.

João havia sido preso a um elo de aço, entre tantos outros negros escravos que ficavam sob a casa do Barão de Águas Claras.

A maioria dos casarões da Corte Imperial situados a Rua Koeler, eram de pessoas da alta sociedade e amigos de D.Pedro II, esses,trancafiavam seus escravos sob os imponentes casarões, sendo um alçapão a única forma de se chegar até a “senzala improvisada” que ficava sob o assoalho das casas dos senhores de escravos,não havendo assim, possibilidade de fuga.

-Um dia hei de me vingar e colocar esses brancos malditos presos aqui onde me encontro hoje! Nesse dia eles sentirão na pele e pagarão seitil por seitil o que fazem com todos nós - dizia o escravo João, inconformado por ter sido preso tentando saciar a sua fome.

-Fio, não devemos ter sentimentos de ódio... que seja feita a vontade do Senhor...tenhamos fé! - dizia Preta Zica.

O inverno rigoroso da Cidade Imperial fazia com que muitos negros, que se encontravam presos pelas mais variadas formas pelo capataz do Barão, acabassem por adoecer, outras vezes até morrer devido às condições precárias de vida às quais eram impostos, padecendo de males como a pneumonia.

Em uma noite de chuva, o Barão precisou que seu capataz se ausentasse do casarão a fim de levar uma encomenda urgente a 20 quilômetros dali, ficando assim, sozinho np local.

Decorridas algumas horas, ele ouviu ruídos, murmurinhos e risadas que vinham da parte inferior da casa e, vendo que se tratava dos escravos, desceu até a “senzala” pra calar a boca dos negros insolentes. Mas chegando à parte de baixo, ele foi surpreendido por outros negros que o pegaram e rapidamente o colocaram preso ao lado do escravo João, que ria da situação.

-Seus insolentes! Quando o capataz voltar vocês pagarão com a vida!

E antes que o Barão tivesse tempo de dizer outra frase, eles pegaram um copo de vinho com veneno e fizeram o velho beber, vindo este a falecer em questão de minutos.

Nem todos os escravos que ali estavam conseguiram fugir, pois os mais debilitados sabiam que não conseguiram ir longe, então decidiram ficar e sorver da bebida letal, pois eles sabiam que não sobreviveriam quando o capataz retornasse ao casarão.

Passados muitos invernos desde aquela triste noite, e chegando nos dias atuais, veremos Pai Carlos, renomado Pai de Santo do Terreiro Luz Divina e mais doze médiuns indo até um Casarão para fazer uma limpeza espiritual a pedido de um casal atemorizado por espíritos em sua residência.

-Muito bem! Todos estão prontos para o início dos trabalhos?

-Espere! Que barulhos são esses vindos do assoalho da casa? - perguntou Antônio ao Casal que de pronto respondeu:

-Isso é pouco! Acho que deveriam ir lá embaixo onde era a “senzala” antes de começar qualquer coisa.

Ao que Pai Carlos autorizou, Antônio, um dos médiuns mais antigos, desceu juntamente com outros dois médiuns para tentar descobrir o que se passava lá embaixo.

Antônio nunca sentira vibração como aquela; o chão de terra batida mostrava traços de escravidão, com correntes enferrujadas, algumas poucas presas ainda a parede e, em um canto, uma coisa parecida com uma gaiola onde provavelmente ficavam os escravos quando eram castigados pelos seus senhores.

Vinham à mente de Antônio perturbações de diversas formas: escravos sendo açoitados e presos nas gaiolas até padecerem, mulheres negras pedindo água, muito choro, palavras de ódio, pedidos de vingança, visões distorcidas que o fizeram pedir ajuda de Pai Carlos.

Pai Carlos desceu até Antônio e depois de uma prece, ao que Antônio se sentiu melhor, o sacerdote começou os trabalhos daquela noite ali mesmo sob os olhos surpresos de todos.

O Preto-Velho de Antônio, foi para a parte superior da casa a fim de acender sete velas em um local específico para o bom andamento dos trabalhos e, ao que acendeu a última vela, veio uma ventania que apagou todas as outras ao mesmo tempo.

O Preto-Velho olhou para frente e avistou um homem de meia idade, branco e que parecia xingar alguém andando rápido como se estivesse à procura de algo ou alguém, sem nem perceber o Preto-Velho que ali estava.

-É......sussurrou o Preto-Velho...

Voltando à parte debaixo do casarão,os Pretos-Velhos que estavam fazendo a limpeza da casa, terminaram seus trabalhos e o Preto-Velho de comando disse aos médiuns que mantivessem os pensamentos elevados, pois havia escravos ali que, por terem tirado a própria vida antes da hora, ainda se encontravam presos naquele lugar e mais ainda, o espírito de um senhor que parecia ser o dono da casa, que não aceitava a situação em que se encontrava, vagava e precisava de muita oração, pois ele acreditava que se deixasse a casa, os escravos tomariam o lugar que era dele. E assim se passou uma longa noite de trabalhos espirituais a fim de findar ou pelo menos amenizar a situação em que se encontrava o casarão.

Mesmo com a ajuda de treze médiuns naquela noite na Casa do Barão, os donos decidiram por vender a propriedade para uma rede de hotéis, pois ficaram impressionados com tudo o que passaram desde o primeiro dia que pra lá se mudaram. O casarão passou por reformas e hoje recebe turistas de todo canto do país e do mundo.

Vocês devem estar se perguntando: E quanto ao Barão? A senzala ? Os escravos?
Bem, dizem os empregados que lá trabalham, que às vezes ouvem murmúrios que parecem vir da parte debaixo da casa e passos largos no cômodo onde dormia o Barão de Águas Claras.....

12/02/2012

2 comentários:

Piquera disse...

bá estamos diante de uma grande escritora de contos sobrenatural. uauuuuuuuuuuuuuuuuu

Fernanda Mesquita disse...

Fala sério...kk...só brinco com as palavras...rsrs...