quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

REFLEXÃO SOBRE A QUESTÃO CÁRMICA (TRECHO DO LIVRO SÀNGÓ)

A Gênese de tudo é o nada. Nem o caos, nem a escuridão, apenas o nada. Supor que as coisas que existem surgiram a partir de “algo” já existente é subestimar o Princípio Criador. Somente o Incriado sempre existiu e tudo, absolutamente tudo o mais, partiu Dele. Assim, todas as criaturas e criações de suas criaturas são parte d’Ele também. A primeira e mais pura manifestação do Divino é a natureza em seu estado mais rudimentar, pois ali está o esboço da obra, intocada, como os olhos conseguem enxergar sem jamais entender. Não apenas os elementos considerados básicos pela Alquimia – Terra, Água, Fogo e Ar – compõem esse emaranhado de matéria tangível e não-tangível que forma o tudo. Outros elementos de igual – e outros de maior importância – participam dessa eqüidade universal: a Concepção, a Lei, a Ordem, a Razão, o Movimento, a transformação e a Fé. Associados, esses elementos promovem a transformação de tudo que foi lançado à luz do Universo pelo Incriado. Aos homens e demais seres frutos da Criação, também cabem atributos (emocionais, racionais e físicos) que contribuem nesse processo de constante transformação: o SENTIMENTO e todo o leque de possibilidades que ele abre – positivos e negativos -, tais como o desejo, a cobiça, a inveja e seus correlatos, a RAZÃO, na qual se inclui a necessidade, a busca, a solidariedade, a moral, a ética e a união, e, por fim, a REALIZAÇÃO, que é a síntese de toda essa fusão, manifestada através do trabalho, da construção, da estética e, ao atingir padrões mais elevados, aproximando-se de sua essência original, da arte.
Em todos os confins do Universo foram lançados esses elementos, ações e sentimentos, cabendo aos seres que Nele habitam, a tarefa de utilizá-los na medida correta, como uma receita alquímica, a fim de participar desse processo de transformação. Mesmo os elementos considerados nocivos aos olhos simplistas, como a inveja e a cobiça, fazem parte do dinamismo saudável do Universo, quando dosados de maneira correta. Entretanto, havia um outro elemento em questão, também colocado à disposição dos seres terrenos para que se aprimorassem dentro de todo esse processo: a liberdade, também chamada pela tradição cristã de Livre Arbítrio.
Esse elemento fundamental consistiu no tempero cíclico de toda a manifestação ocorrida no Universo. Fazendo uso de cada elemento na dosagem que melhor lhe convinha, os filhos do Universo o transformaram a seu bel prazer, sem medir conseqüências morais, espirituais e materiais, sendo obrigados, por razão de seu próprio merecimento, a colher frutos da própria intransigência e com eles progredir a fim de retornar à pureza simplista de sua essência primitiva. Diversos mitos foram criados para explicar esse princípio, sendo o da raça adâmica o mais conhecido.
Entretanto, a falta de compreensão das coisas mais singulares tornou-se a característica estigmatizada da raça humana e isso é facilmente percebido pelos seus próprios escritos, em particular aquele que conta a fábula da expulsão do Éden. O homem afasta-se da condição paradisíaca não por tentar alcançar o Criador, mas por não compreendê-lo. Alcançar Deus é parte da marcha civilizatória do espírito e não constitui pecado capital. O erro é não compreender Deus – isso sim torna uma existência inteira vã e completamente nula.
O mesmo pode-se afirmar em relação ao mito do anjo caído como causador de todos os males existentes no plano material e espiritual. O Universo não é maniqueísta e nem prepara armadilhas para seus filhos, deixando-os à mercê de um ser perverso que os levaria à perdição. O demônio existe e nada mais é do que a imperfeição de cada ser que afastou-se do Divino acreditando na possibilidade de alcançar algum benefício com isso. E como todos são parte do Criador, ao prejudicar qualquer ser que habita o Universo, atenta-se contra o próprio Deus, manifestando-se dessa forma o seu demônio interior. Disciplinar os seres diante de suas próprias conseqüências é uma tarefa que exige preparo e acima de tudo compreensão sobre o Cosmos, em todas as suas faces e manifestações, mesmo naquelas que parecem ter rompido a estética habitual que a civilização calcada em princípios conservadores e manipulados segundo interesses escusos, quase sempre digeridos, porém quase nunca assimilados. Seres que dispõem sua existência a essa tarefa, fatalmente serão vistos como a escória espiritual ou como algozes, principalmente nas culturas onde proliferou o pensamento judaico-cristão e, em determinadas situações, islâmico também. A maldade reside no âmago de quem a praticou, e não nas mãos de quem executa a Lei imutável da reação cármica. Entendendo o Universo é possível compreender a ação de seus guardiões, que ao longo da História sofreram medos e preconceitos, principalmente após o processo de demonização que lhes foi imposto por aqueles que não os aceitam como agentes da Justiça Divina da mesma forma que também não aceitam a própria consciência a lhes julgar e condenar – pois somente ela (a consciência) lhes aponta o dedo indicador, já que qualquer outro ser, consciente do funcionamento do Universo, preocupa-se com os próprios atos e deveres a serem cumpridos.
O conceito de bem e mal cai por terra quando colocados não à luz, mas à sombra da subjetividade, pois mentes diferentes emitem conceitos diferentes. A eqüidade de valores existe somente quando se está em sintonia com o Princípio Criador ou a ele subordinado, fazendo com que se cumpra a sua Lei. Assim trabalham os verdadeiros soldados, guardiões da ordem espiritual e zeladores da Lei cármica.

Laroyê, Exu.

Douglas Fersan - 2008

4 comentários:

Marcia disse...

Brilhante reflexão.
Qual a origem (fonte) desses artigos?
Eele não diz respeito só a umbanda, mas é universal e filosófico.

JORDAM disse...

Excelente texto, produz um belo debate, parabéns.

mauricio disse...

Excelente!!
É um texto que faz pensar. Muita coisa que parecia óbvia é colocado sob outra ótica. Mais uma vez parabens.

gabriela disse...

Maravilhoso!

Como adquiro esse livro?